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5 de julho de 2011

Os adoráveis critérios do Prós e Contras



O prós e contras sempre nos habitou a peculiares critérios de selecção de oradores, fosse qual fosse o tema, mas acho que hoje bateram de longe os recordes.

O programa apresenta-se como sendo "tão abrangente quanto é permitido em televisão" e acho que foi à luz desse critério que convidaram Fernando Santos (sim é mesmo o treinador de futebol) para falar à esquerda sobre o tema "Questão da Dívida".

Bem sei que exerce a profissão na Grécia e que deu uma entrevista do DE mas por amor de deus e sem qualquer desprimor pela pessoa em questão, não havia mais ninguém? Nem um estudante de Erasmus?

Escusado será dizer que o mesmo critério não foi seguido na bancada de palestrantes de direita.

A pluralidade opinativa nos media dominantes já é um significativo eucaliptal, a televisão pública deveria reger-se por outros critérios ou pelo menos tentar não dar nas vistas desta maneira.

29 de junho de 2011

Bloco e o Futuro por Fernando Rosas


Durante o passado fim de semana, alguns dos colunistas do costume voltaram a anunciar pela undécima vez o fim à vista do Bloco de Esquerda (BE). Desta feita, a debater-se nas vascas da agonia com uma cavada e terminal dissidência interna potenciada pelos resultados das últimas eleições. Alguém terá de explicar a tais sábios que reincidem no erro ao confundir os seus desejos com a realidade, ou, para dizer as coisas como elas são, ao persistir em manipulá-la à luz de um velho e arreigado preconceito ideológico. Talvez por isso, resolvi desviar o nariz por umas horas dos trabalhos e teses dos meus alunos e aceitar o desafio do Público para escrever de minha justiça acerca do BE. Aí vai.

Artigo originalmente publicado no Público de hoje.


27 de junho de 2011

A estratégia da multidão dos comentadores, e Câncio enuncia-a com particular ingenuidade, é acabar com o Bloco de Esquerda como partido da esquerda socialista. Depois disto sobraria alguma coisa, mas essa coisa suicidada seria coisa nenhuma.

Andrea Peniche in Minoria Relativa

11 de junho de 2011

sobre preconceitos ideológicos e outras coisas mais - a minha resposta a Paulo Pedroso

Caro Paulo Pedroso,

Independentemente dos contornos que discussão técnica possa tomar, parte do meu argumento prende-se justamente com o meu repúdio pela forma como os números têm sido utilizados para a construção de uma única ideia – a da inevitabilidade da austeridade. Assisto com tristeza, para além da apropriação criativa a variada de conceitos económicos para “cientificizar” verdades politicas, a uma absoluta contaminação do espaço público pelo pensamento único – debatem-se argumentos vários, mas apenas os que servem para justificar o corte salarial como parte dos inevitáveis sacrifícios para sair da crise. Sobre seriedade, manterei a discussão em post-sriptum.

Para além de procurar trazer pluralidade ao debate, a minha segunda preocupação foi, e continuará a ser, a de contrapor um diagnostico da situação portuguesa que considero errado, porque ignora os vários factores responsáveis pelo atraso estrutural e perda de competitividade do país. Certamente não serei detentora de todas a respostas, mas sei que quando o diagnóstico está viciado, as soluções são ineficientes.


Em primeiro lugar

É hoje claro, penso eu, que os problemas de competitividade da economia portuguesa não se prendem com o custo do trabalho mas com 1) uma integração europeia desequilibrada; 2) um enviesamento interno para os não transaccionáveis, em parte devido à estruturação dos grupos económicos em Portugal e modelos de privatizações; 3) uma estratégia neomercailista Alemã, de compressão de salários internos, que pressiona o resto da UE; 4) outros factores – preço da energia, sistema de justiça, entre outros. Como bem explicava Alexandre Abreu neste post, no limite, o problema de competitividade da economia portuguesa está na remuneração do capital, que tem vivido acima da suas possibilidades.

Perante este cenário, centrar o discurso na redução dos custo unitários do trabalho com o objectivo de reduzir os salários (que poderá eventualmente até empolar a competitividade de curtíssimo prazo), é ignorar a essência do problema. Pelo contrário, aprofundá-lo-á porque nos torna uma país mais pobre. E esta análise – sobre os salários - não é só minha, é partilhada por vários economistas e personalidades tão insuspeitas como Maria João Rodrigues ou João Ferreira do Amaral.

Quanto aos “outros factores”, discordo profundamente da ideia de que possam derivar unicamente de obstáculos corporativos e da escassa concorrência. Se nos “obstáculos corporativos” estiver a incluir a nossa elite de banqueiros então a nossa discordância diminuirá. O argumento da concorrência, sem mais, parece-me apenas uma justificação rápida para a privatização de sectores essenciais para o desenvolvimento do nosso sector produtivo, que em nada garante mais eficiência ou melhor prestação de serviços.


Em segundo lugar

Não pretendi no meu anterior post, e estou certa que não o fiz, debater com pormenor o modelo de crescimento (ou não) Alemão. Clarificar apenas que a Alemanha cresceu à custa das exportações, estagnando a sua procura interna por via da compressão salarial. Não lhe valeu uma grande taxa de crescimento, como se pode ver, e certamente não é modelo replicável em todo o lado, porque se todos exportássemos como a Alemanha não haveria ninguém para importar.

É sempre possível crescer artificialmente comprimindo os salários, mas foi exactamente esse tipo de estratégias anti-social que a esquerda rejeitou durante as ultimas décadas.



Em terceiro lugar

A União Monetária Europeia, e a própria União Europeia, assumem um papel crucial neste debate. Não só pelas desvantagens criadas às moedas mais fracas no momento da sua criação, como também pela sua configuração institucional de características profundamente antidemocráticas, da Comissão Europeia ao BCE passando pelo tribunal constitucional, que favorece o capital financeiro em detrimento do crescimento sustentável das economias e do bem estar dos seus cidadãos.

E se, sem sobra para dúvidas, “a entrada sobrevalorizada do escudo no euro foi uma das ultimas prendas que a política económica do hoje presidente Cavaco Silva deixou ao país”, a verdade é que o desenho institucional da UE, ao qual reconhecemos variados defeitos, pertence aos partidos socialistas por essa europa fora, e também ao português.

Lamento que os preconceitos relativamente à minha possível filiação política possam ter deturpado a sua análise relativamente aos meus argumentos, porque o que defendo não é, muito claramente, a saída do euro, ou "terceira via", como lhe chama. (e o termo não me ofende de todo, nutro por ele a simpatia intelectual até).

Uma saída na União Europeia neste momento não beneficiaria de modo nenhum os trabalhadores em Portugal, pelo contrário. Sempre defendi que seria desastroso fazê-lo, até ao momento em que os custos da nossa manutenção superem aqueles de uma eventual saída. Não penso que esse momento tenha chegado.

Porque atribuo à configuração institucional europeia uma grande responsabilidade nos desígnios nacionais, acredito na reestruturação das suas instituições, da Comissão ao Banco Central. Mais democracia, uma integração mais completa, um maior orçamento comunitário, um Banco Central focado no crescimento e não na inflação. Mas isto daria só por si várias páginas.
A nacionalização de toda a economia é um disparate, não posso acrescentar mais nada em relação a isso.


Em quarto lugar

Não tenho preconceitos em relação a debates que se centram nos diagnósticos, são necessários. Tão pouco tenho pressa em apresentar um pote de certezas, soluções milagrosas para o país. “o lado negativo da dialética”, quando bem aprofundado, levar-nos-á às alternativas.

Não me quero estender. Para sair do atoleiro é preciso, urgentemente, rejeitar a austeridade. Estou convicta disso. É urgente aplicar profundas reformas a nível europeu. Em Portugal há muito a fazer, a começar por uma reforma fiscal a sério, que promova a justiça e não sobrecarregue insistentemente o trabalho em detrimento do capital. É necessário ter política industrial, no seu verdadeiro sentido, investimento publico em sectores chave da economia. Impõe-se renovar um sector agrícola e piscatório em decadência, em parte por imposições europeias, responsáveis por parte da nossa dependência externa. Impõe-se um Banco Publico, é claro, que sirva os interesses do país, e possa financiar a actividade produtiva a preços controlados, fora das lógicas especulativas.

E mais, muito mais. A relação do Estado com a Economia, defendo uma é certo, mas não esta, a das PPP, dos contratos ruinosos e troca de favores. A nível internacional, outras tantas – sector financeiro, para começar.
Poderíamos facilmente ter um longo debate sobre cada uma destas propostas, mas elas só nos aparecem como prioritárias, e são, quando deixamos para trás o diagnostico facilitista, e errado, que coloca os custos unitários do trabalho no centro do problema.






p.s. Não encontro qualquer problema em retirar alguma ofensa que possa ter considerado de cariz pessoal, não foi com certeza essa a intenção. Estava na verdade a falar na falta de seriedade de todo um discurso construído de forma a ocultar propositadamente (ou talvez por desconhecimento?) um conjunto de informações relevantes para o debate, nomeadamente a falácia dos custos unitários do trabalho. Mas tão pouco me parece de grande delicadeza colocar nos meus dedos ideias que não me pertencem – não defendo, nunca defendi, a saída do euro e muito menos a nacionalização de toda a economia – numa tentativa de descredibilização pela colagem ao estereótipo de uma qualquer esquerda mais radical.
A titulo de informação, o Bloco de Esquerda não defende a saída do Euro, muito pelo contrário. E não defende a nacionalização de toda a economia. Estou certa que o Paulo Pedroso conhecerá melhor que isso as ideias do BE, caso contrário aconselho a leitura do manifesto, documento de interesse. Em qualquer dos casos não falo pelo BE, tal como não espero que fale pelo PS, e por isso mantive o partido socialista fora do meu primeiro post.

(resposta a este artigo de Paulo Pedroso)

4 de abril de 2011

PCP e Bloco de Esquerda reúnem-se sexta-feira



Direcções dos dois partidos de esquerda realizam encontro na Assembleia da República para consultas mútuas sobre crise política e social.

As direcções do Partido Comunista Português e do Bloco de Esquerda vão reunir-se na próxim.a sexta-feira às 11 horas na Assembleia da República. (...)

“O caminho que faremos é para desenvolver a capacidade de aproximação entre os distintos sectores da esquerda, sabendo que, no Parlamento e na vida social, nos temos encontrado na recusa da recessão, com o PCP, com sindicalistas, com trabalhadores e activistas sociais que são independentes, com gente que se tem abstido e com muita gente que tem votado no PS não aceitando hoje as políticas de recessão”, disse, acrescentando que defende uma estratégia que promove “todas as pontes necessárias e todos os diálogos possíveis”, de modo a “construir uma alternativa que possa governar, liderar e alterar as regras desta economia que se tem fechado no desastre económico”. Na mesma oportunidade, Louçã observou que “na luta contra as medidas liberais e em defesa dos salários e do emprego, PCP e BE têm tomado posições convergentes”.

Em resposta, Jerónimo de Sousa disse este domingo que, para as legislativas de 5 de Junho, o PCP mantém a coligação com o Partido Ecologista “Os Verdes”. Mas está disposto a entender-se numa aliança pós-eleitoral com o Bloco de Esquerda. (...)

29 de março de 2011

para além das hipóteses académicas

Por outro lado, não há, em Portugal, uma esquerda à esquerda dos socialistas disponível para participar em soluções de poder. Uma originalidade nacional. Por essa Europa fora partidos ecologistas ou mais à esquerda mostraram, em vários momentos históricos, disponibilidade para governar. E nunca como agora essa disponibilidade foi tão urgente. O que está em causa na Europa é resistir a uma avalanche que ameaça não deixar pedra sobre pedra no edifício do Estado Social. Ser de esquerda tornou-se num sinal de radicalismo. A social-democracia consequente é hoje de uma ousadia extraordinária.

Mas Portugal tem outra originalidade, em que é acompanhado pela Alemanha e mais um ou outro país europeu: a esquerda à esquerda dos socialistas representa quase vinte por cento dos eleitores. Se quisesse usar a sua força em funções executívas teria um poder extraordinário.

Daniel Oliveira em A esquerda, o poder e o pântano

Os argumentos apesar de terem sido esgrimidos recentemente, baseiam-se em opiniões antigas e em visões já há muito repetidas.

Portanto, tudo o que se possa escrever em oposição a esta tese, será, por sua vez, igualmente repetitivo.

Só com muita dificuldade é que se poderá verdadeiramente classificar os Verdes na Alemanha e no Parlamento Europeu como uma força de esquerda. Não é por acaso que este partido fora anunciado nas anteriores eleições para o Bundestag, como o partido da nova burguesia.
Deixaram cair as suas principais propostas socialistas, tal como a retórica anti-Nato, por outro lado, participaram de uma coligação governativa com o SPD, que de esquerda também nada teve. Foram favoráveis à invasão do Afeganistão e participaram de um duro programa de cortes e de redução de direitos sociais. E veja-se lá que a governação fora tão positiva e de alternativa social que os governos sucedâneos foram, primeiro de Bloco Central SPD/CDU/CSU e depois maioria absoluta de coligação CDU/CSU/FDP. Abrindo caminho para o que hoje é a senhora Merkel. E fica no ar, uma outra questão, onde está a esquerda dos Verdes alemães quando governam o Estado de Hamburgo com os conservadores da CDU?

Há um outro caso paradigmático, o já muito discutido governo de coligação italiano entre Democratas e Comunistas. Que para além de ter cumprido com régua e esquadro o programa social-liberal, desde reformas laborais à participação da invasão do Afeganistão. Relembre-se os mais esquecidos, que o Partido Socialista e as suas personalidades se opuseram a esta barbárie bélica.
E ainda mais graves foram as consequências políticas para a alternativa de esquerda, Berlusconni não só voltou ao poder, como a Refundação Comunista teve o seu pior resultado da história, e não é por acaso que hoje se pode ler isto nas suas teses:

15.2 Per quanto riguarda le prossime elezioni politche, per le ragioni sopra esposte, non riteniamo esistano le condizioni per un comune programma di governo e per la partecipazione al medesimo della Federazione. La diversità profonda di impostazione programmatca con il PD determinerebbe per la sinistra il rischio della subalternità, oppure di una contnua confitualità.
PRIMO CONGRESSO DELLA FEDERAZIONE DELLA SINISTRA

Eu acredito que ser social-democrata hoje, seja de uma enorme ousadia, pois bem se pode procurar por um partido da Internacional Socialista que o seja, que não se encontra. Daí a extravagância e irreverência da defesa desse campo político e da proposição de coligações e entendimentos entre a ala esquerda da direita e as esquerdas. Pois, na verdade não tem grande futuro para além do orfanato ideológico e do fuzilamento político das forças sociais que se batem pela alternativa.

E que fique assente, que bem se podem rever as teses, que a conclusão é sempre a mesma, não foram as forças socialistas que empurraram os PS's para a terceira-via, as tornaram gestoras do situacionismo e fábricas de apparatchiks apolíticos. As escolhas políticas que tomaram e os traços ideológicos com que se revestiram é que as levaram a ser máquinas famintas de poder e forças simpáticas para a imposição de políticas anti-populares.

A esquerda que se tem erguido por essa Europa, é a mesma, que nega encontrar socialismo em gavetas que já não existem.

17 de fevereiro de 2011

Pai Natal, cegonhas que trazem bebés, PS de esquerda e outros mitos

Quando eu era pequenina, a solução para qualquer problema económico era simples. Esperava-se por Dezembro e o Pai Natal chegaria e daria paz, amor, pão e frigoríficos às famílias. Aliás, eu nem sequer entendia como é que havia gente pobre, se o Pai Natal ia à casa de tod@s @s menin@s. Anos mais tarde, as situações costumeiras da vida levaram-me à verdade, após gozo consentâneo por parte de todas as crianças da minha rua: o Pai Natal não existia, @s adult@s tinham me enganado e eu era absolutamente ingénua.

Enquanto isto acontecia, deleitava-me o meu pai com inefáveis histórias de cegonhas que iam para Paris buscar sementes de crianças. Após o terror surgido aquando da percepção da minha qualidade de planta, vivi feliz e despreocupada, acreditando que, um dia, o príncipe encantado também iria ter os seus negócios com a tal cegonha, de modo a trazermos à família Pedrosa a Maria e o Gabriel. A ilusão acabou quando o meu pai, como @s restantes adult@s, mais uma vez passou por mentiroso e quando me contaram uma história terrorífica sobre a produção de crianças. Mais uma vez, fui a última a saber. A cegonha não conseguia voar até Paris, @s adult@s tinham me enganado e eu era absolutamente ingénua.

Hoje, anos mais tarde, com 20 anos e 173 belos centímetros, sei que o Pai Natal é uma ilusão e que as cegonhas, apesar de adoráveis, não trarão a pequenada que eu quero na minha vida. Sei que é a mamã quem compra as prendas na azáfama de Dezembro e a minha professora de Ciências do sétimo explicou-me tudo direitinho acerca do processo de manufacturação que culmina numa Maria ou num Gabriel.

Nestes campos, não sou mais ingénua.

Mais: estou decidida a não ser ingénua em mais campo nenhum. Chega de gozarem com a minha graciosa credulidade. Não me venham, portanto, com mais mitos, que eu já não sou tão fácil.

Que saibam o Daniel Oliveira, o Elísio Estanque, o Rui Tavares e outros que tais que eu já não sou assim fácil e não crerei no mito que apregoam. O PS de esquerda não existe, @s adult@s não mais vão enganar-me e eu já não sou ingénua.

E seria bom que toda a gente visse que o PS de direita existe, que @s adult@s não mais (se) enganassem e que o povo não mais fosse ingénuo.

31 de janeiro de 2011

Os espelhos, as desconstruções e os incómodos.

Olhando para a história, e para a história das opressões e das emancipações, que a Esquerda tanto reclama conhecer, interpretar, e que tanto orgulho tem em dizer: "nós soubemos evoluir, (re)interpretar as opressões e explorações; nós não ficámos presos na história; soubemos aplicar o melhor do Marxismo, que é a perspectiva de leitura sobre o real, e sobre as dominações e as relações de força dos nossos tempos", vemos que o contributo das Ciências Sociais foi enorme. A sociologia, a história, a antropologia, a economia deram enormes contributos para a desconstrução daquilo que nos parecia (e parece) visível e inevitável, mas que na verdade não era tão visível nem tão inevitável quanto isso. A história das Ciências Sociais também uma história de desencantos, mas é, por outro lado, e sobretudo, uma história de avanços e de contributos para o desenvolvimento das sociedade e para emancipação dos dominados em tantas e tantas frentes.

Espanta-me, por isso, que tanta gente de Esquerda e politicamente lúcida, não compreenda por exemplo porque é que a Sociologia era proibida no fascismo. Espanta-me, por exemplo, uma certa tendência que muitos à Esquerda apresentam para renegar os contributos das Ciências Sociais para os avanços e transformações sociais. E espanta-me, ainda mais, um certo desprezo encapotado que tantos à Esquerda têm pelas Ciências Sociais afirmando-a que estas não têm grandes contributos a dar para a compreensão do Mundo, da realidade, das relações de força e de dominação. Quero acreditar que é por desconhecimento… mas não sei se acredito.

Contudo, a economia é considerada como estando sempre fora dessas "ciências sociais que não têm grande coisa a dizer", como se, na verdade, não houvesse (e não fossem predominantes) pensadores economistas liberais e que estão na base do statuo quo. Na verdade, os economistas sempre tiveram um espaço intocável na política portuguesa e não é por isso que continuamos a andar a passo de caranguejo. Como em tudo, há bons e maus economistas, como há bons e maus antropólogos, como há bons e maus sociólogos, como há bons e maus historiadores. A questão é falaciosa, porque o problema não é a especificidade da ciência, mas o destino dos conhecimentos que ela produz.

Boaventura Sousa Santos ganhou uma bolsa de 2,4 milhões para um projecto chamado "Alice: Espelhos Estranhos". Muito basicamente o projecto centra-se na promoção de auto reflexividade da Europa, não com base nos seus olhares e perspectivas, mas com base nos espelhos que a Europa deixou historicamente no Mundo, ou seja, é uma imagem devolvida. Será Boaventura Sousa Santos um perigoso teórico reaccionário ao serviço da burguesia? Será um teórico social que não passa de um académico e numa perspectiva interventiva nenhum contributo tem a dar? Ou será que Boaventura Sousa Santos disputa diariamente a hegemonia do conhecimento oficial, das lógicas de pensamento instituídas, que são a base da ordem dominante que legitima a inevitabilidade, o determinismo e as relações desiguais de força na sociedade?

Na verdade, a disputa faz-se em todos os campos. E ser-se Marxista, ou ter-se sobre o Mundo um ângulo de análise Marxista, implica abandonarmos qualquer tipo de arrogância intelectual. Implica saber olhar o Mundo na sua complexidade, saber descodificar os sistemas de dominação, o simbolismo da opressão e as visões oficiais de pensamento. Ter-se uma perspectiva Marxista sobre o Mundo implica saber lê-lo, avaliá-lo, descontrui.-lo para o podermos transformar com todas as armas que temos, com todas as armas que temos a capacidade usar. E as Ciências Sociais são uma delas, quando usadas com uma perspectiva crítica e transformadora. É estranho que Ciências que incomodam tanto o poder incomodem ainda mais quem o tenta transformar.


Publicado aqui

26 de janeiro de 2011

E agora?

Uma plataforma de governo saída destas presidenciais juntaria a tese e a sua antítese, provocando uma síntese pulverizadora para a esquerda. Recuando a luta social e a mobilização anti-liberal em mais de uma década. Todas as pontes, esperanças e alternativas, que se têm cimentado ao longo destes anos, cairiam como um baralho de cartas.

O resto pode ser lido aqui.

17 de janeiro de 2011

O branco ficou mais vazio

O MRPP reconsiderou o seu apelo ao voto em branco, passando agora a apoiar Alegre. Esta mudança poderá significar pouco para a candidatura do poeta, no entanto, deixa aos puramente líricos o espaço do isolamento, o lugar de quem não contribui para a luta de classes em Portugal. Dos que preferem ficar em branco, ao invés de fazerem algo pela alteração radical da cor da tela.

Apontamento diário para AComuna.net

12 de outubro de 2010

Um capital de oportunidades!


Olhando para o momento político em que nos encontramos, facilmente concluímos que a esquerda tem em mãos um dos cenários mais gravosos a que podíamos estar submetidos, mas tem também em mãos uma oportunidade única para criar movimento social e exigir transformações sociais concretas. O cenário é evidentemente negro, foi anunciado o novo pacote de austeridade, recessivo e que estabelece uma escolha política, a de ir buscar recursos a quem menos tem, os cortes na acção social para o ensino superior são uma realidade já no terreno, a guerra imperialista avança a ritmo desenfreado, o PSD ganha base eleitoral e planeia hipoteticamente o seu sonho – um governo, um presidente, uma maioria -, para avançar com a revisão constitucional que planeiam há anos. E perante tudo isto como reage a esquerda e como reagem os movimentos sociais?


Não sou daqueles que acha que quanto pior, melhor, quanto pior viverem as pessoas melhor, porque mais revolta irá surgir e mais acção daí irá advir. Mas sou daqueles que acha que perante o estado em que nos encontramos, chegámos ao momento em que a esquerda e os movimentos sociais têm que provar a sua existência. Chegou, até, o momento de quebrar o medo. Todos os dias pessoas estão a ser despedidas, os subsídios sociais estão a ser cortados, os impostos aumentados, os serviços públicos a ser privatizados, o Estado a entregar ao mercado a vida das pessoas. As pessoas não podem ter medo, porque tudo o que elas receavam já está acontecer e portanto só existe uma solução, sair à rua e lutar por outras respostas.


Dia 24 deNovembro, temos em mãos uma greve geral, que tem que ser vitória. E a esquerda deve empenhar-se fortemente nessa luta e ampliar um consenso social de luta por futuro melhor. Dia 17 de Novembro, temos em mãos, uma manifestação nacional pelo ensino superior, mais uma oportunidade de dizermos não ao desinvestimento no futuro e à elitização das Universidades e do conhecimento. Dias 19 e 20 de Novembro temos a Contra Cimeira da NATO, uma ocasião impar para resistir contra a guerra e as políticas belicistas da NATO. Pelo meio a Cultra organizará um debate sobre o papel da NATO, a resistência às portagens nas SCUT vão continuar, e muitas outras formas de luta vão emergir.

Todas estas lutas, bem diferenciadas, mas que põem em cheque o modelo de desenvolvimento escolhido vão mobilizar milhares de Portugueses, e isso não pode ser em vão, todas estas jornadas tem de ser aproveitadas para uma mobilização crescente contra o este modelo de desenvolvimento que é errado, que prejudica sempre os mesmos, e que é conivente com a guerra aos povos.

É neste quadro de lutas, a candidatura do Alegre pode ser fulcral. Ter um presidente de esquerda capaz de condenar a destruição do Estado social, dos serviços públicos, a elitização do ensino e as acções imperialistas ao invés de um presidente de direita, conversador, que não só é conivente como apoia integralmente estas políticas, é uma oportunidade ouro. E nós não a podemos perder, não hoje, não agora!

Vamos à luta!

Publicado originalmente aqui.

30 de setembro de 2010

Chávez diz que vida do presidente do Equador está em perigo!

NOTÍCIA - REUTERS

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse nesta quinta-feira que a vida do presidente do Equador, Rafael Correa, está em perigo e pediu que o Exército equatoriano não apoie um "golpe" contra ele.

Chávez afirmou à televisão estatal venezuelana que os policiais equatorianos em protesto estariam fazendo exigências a Correa em um hospital em Quito onde o presidente equatoriano estaria "sequestrado".

Chávez também alertou nesta quinta os países da Alba e da Unasul de que estão tentando "derrubar" seu colega equatoriano Rafael Correa e garantiu em uma conversa por telefone que terá total "apoio" e "solidariedade" da Venezuela.

"Estão tentando derrubar o presidente Correa. Alerta aos povos da Aliança Bolivariana! Alerta aos povos da Unasul! Viva Correa!", disse Chávez, na sua página da rede social Twitter.

Segundo um comunicado divulgado posteriormente pelo Ministério de Relações Exteriores em Caracas, Chávez e Correa conversaram por telefone nesta quinta-feira e o presidente equatoriano confirmou "que se trata de uma tentativa de golpe de Estado" causada pela "insubordinação de um setor da Polícia Nacional às autoridades e às leis".

Correa vive nesta quinta-feira a maior crise em quase quatro anos de governo, com protestos de policiais e militares que rejeitam uma lei governista que prevê cortes nos benefícios.

Chávez "manifestou seu apoio ao Presidente Constitucional de nossa irmã República do Equador e condenou, em nome do Povo da Venezuela e da Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América (Alba), este golpe na Constituição e no Povo do Equador", indicou o comunicado oficial.

O governo venezuelano também expressou "sua confiança" de que Correa e o povo do Equador "derrotarão esta tentativa de golpe de Estado".

Correa foi levado para um hospital de Quito, depois de ter sido agredido e denunciou que um grupo de manifestantes tentava entrar em seu quarto. Em seguida, o governo decretou estado de exceção.

Protestos
Os distúrbios registrados no Equador tem origem na recusa dos militares em aceitar uma reforma legal proposta pelo presidente Rafael Correa para ajustar os custos do Estado. As medidas preveem a eliminação de benefícios econômicos das tropas. Além disso, o presidente também considera a dissolução do Congresso, o que lhe permitiria governar por decreto até as próximas eleições, depois que membros do próprio partido de Correa, de esquerda, bloquearam no legislativo projetos do governante.

Isso fez com que centenas de agentes das forças de segurança do país saíssem às ruas da capital Quito para protestar. O aeroporto internacional chegou a ser fechado. No principal regimento da cidade, Correa tentou abafar o levante. Houve confusão e o presidente foi agredido e atingido com bombas de gás. Correa precisou ser levado a um hospital para ser atendido. De lá, disse que há uma tentativa de golpe de Estado. Foi declarado estado de exceção. Mesmo assim milhares de pessoas saíram às ruas da cidade para apoiar o presidente equatoriano.

27 de setembro de 2010

O meu café com Vital Moreira

Na passada terça-feira, cumprindo a rotina, fui tomar aquele café àquele sítio do costume. E mais uma vez questionei-me o porquê de continuar a fazê-lo dia-após-dia e ano-após-ano, não é que o espaço e o ambiente não sejam agradáveis, mas aquele líquido que servem em chávena fria não pode de todo ser apelidado de café.

E o que tem isto a ver com política? Tudo. É que no meio deste meu lamento diário dei de caras com Vital Moreira, é verdade, ali estava ele, na página 37 do jornal "Público". Foi remédio santo, encontrei não só um parceiro para o queixume, como uma outra alma farta do sabor azedo das coisas.

Obviamente que a solução para o meu dilema é muito mais simples do que para o dele. A mim basta-me deslocar para o estabelecimento ao lado, coisa que para o Vital é bem mais complicado, pois significaria ir para o PSD - coisa que acho, que não quer.

Observações à parte, Vital Moreira conta-nos de forma bastante revoltada que a social-democracia europeia está em crise.

(- Bom dia Vital, mais vale tarde do que nunca.)

Entre os 27 membros da União Europeia, apenas 4 têm governos social-democratas (Portugal, Espanha, Grécia e Eslovénia), e na maioria dos outros países, a social-democracia não tem hipóteses de disputar o poder.

E como chegamos aqui?

Diz-nos o autor da crónica que as razões são predominantemente duas "é a recessão económica e as suas consequências sobre o emprego e as políticas sociais; outra estrutural, que tem a ver com a erosão das condições económicas, sociais e financeiras do Estado social e do modelo social europeu (...) que esteve na base da recessão económica, ter sido gerada essencialmente pelas políticas neoliberais dominantes desde dos anos 80 quanto à desregulação financeira e à desintervenção económica do Estado - que a esquerda sempre denunciou com maior ou menor veemência".

É certo que a crise económica deve-se à desregulação e ao enfraquecimento generalizado do papel do Estado, que foi promovido pelas políticas neoliberais dominantes. A esquerda sempre denunciou isto? Sim, a maior parte da esquerda social-democrata é que não. Ora vejamos, Vital Moreira identifica como auge do domínio das políticas neoliberais os anos 80, que ao contrário do que se quer fazer crer, não foram governados sozinhos pelos conservadores, mas sim , com conivência e participação dos partidos social-democratas. O mesmo sucedeu na década seguinte, onde o mundo conheceu Tony Blair, Gerhard Schröder, Bill Clinton, Felipe González, António Guterres… Seguindo o doce canto da Sereia, que a Terceira-Via, o social-liberalismo e o amor ao mercado proporcionavam, limitaram-se a ser uma força de continuidade, alterando pouco ou nada ao legado conservador que lhes antecedera.

A social-democracia europeia não travou o desmantelamento do Estado, muito pelo contrário, fez e faz parte dessa tarefa, tal como não se opôs ao ascenso do mercado sobre todos os aspectos da vida social.

Tal como hoje, em tempos de austeridade, faz parte do problema e não da solução, corta nos direitos sociais e laborais, como qualquer outro governo conservador. Que não se admire que vá esvaziando à esquerda e ser comparada à direita e com isto perca força eleitoral e apoio popular.

É como o meu café, posso aguentar o seu sabor azedo durante mais uns tempos, mas mais tarde ou mais cedo mudo de estabelecimento em procura de melhor.
Publicado no esquerda.net

24 de setembro de 2010

Eleições: “Para o Brasil seguir mudando?”


No Brasil, a julgar pelas sondagens, a dúvida repousa mais na realização de uma segunda volta do que em quem vai suceder a Lula nas eleições presidenciais que se disputam a 3 de Outubro. Com Dilma Rousseff a ultrapassar os 50% nas intenções de voto, tudo indica que o máximo que o líder da oposição e candidato repetente, José Serra, poderá conseguir é adiar a derrota até o segundo turno. Esse clima de “já ganhou” tem contribuído para uma campanha vazia e programaticamente monolítica entre os dois principais oponentes, com debates em ritmo de propaganda cronometrada e claro, com a imensa sombra de Lula que, do alto dos seus 80% de aprovação, vai ditando mais política que os candidatos.

Continua a ler no www.esquerda.net

15 de setembro de 2010

12 de setembro de 2010

A Esquerda sou eu e és tu

As principais linhas do discurso de Manuel Alegre no CCB:

Nesta eleição presidencial, os portugueses terão de fazer uma escolha. E será uma escolha de racionalidade e de justiça:
- Por ou contra a defesa da nossa Constituição e do nosso Estado Social;
- Por uma saúde pública universal e tendencialmente gratuita, financiada pelos impostos, ou por uma saúde privada para os ricos e uma saúde pública descapitalizada e residual para os mais pobres e desvalidos;
- Por ou contra uma escola pública e republicana para todos, exigente e essencial para a promoção da igualdade de oportunidades;
- Por ou contra o aumento da precariedade nas relações laborais;
- Por ou contra o risco da instabilidade política e o cenário possível de um Presidente e de uma maioria de direita;
- Por ou contra uma visão moderna de Portugal sem qualquer forma de descriminação e intolerância moral em relação a minorias;
- Por ou contra a aplicação de políticas que agravariam as desigualdades num dos países que ainda é, infelizmente, um dos mais desiguais da Europa;
- Por ou contra o direito à igualdade, incluindo a igualdade de género e a não discriminação por razões de sexo, raça, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, condição social ou orientação sexual;
- Por uma visão de Portugal com cultura e sentido histórico ou por uma visão contabilística, em que os números se sobrepõem às pessoas, aos valores e à solidariedade.

«Estarei do lado do elo mais fraco, do lado dos mais frágeis, do lado dos que precisam, do lado de todos aqueles que são a razão de ser da nossa vida e do nosso combate»

E é por isso Alegre que a Esquerda está do teu lado.
Como diria o Felipão vai ser um jogo de «mata-mata» entre a Esquerda e a Direita, entre Alegre e Cavaco.
Será sem dúvida um combate difícil, vamos ver os «puros» a inventar mil e um subterfúgios para não estarem presentes nesta batalha.
No entanto, assim que o candidato da Esquerda passar à segunda volta e tudo estiver mais facilitado, não faltará o apoio oportunista dos «puros».

Ora arranjem as desculpas que quiserem, os nomes que quiserem, as fantasias que quiserem.
Quem foge ao combate é cobarde, quem tira dividendos do trabalho dos outros é oportunista e quem tenta dividir a Esquerda numa altura destas ou é Cavaquista ou há muito que perdeu a noção de realidade.
Vamos arregaçar as mangas e eleger Alegre.

Vens?

10 de setembro de 2010

Contem a história dos vossos heróis, mas contem-na toda.

"À notícia do DN de 11-07-2010, sendo colorida na descrição, falta ambição. Podia ter ido mais longe no elogio do heróico fuso. Podia ter informado ou apenas lembrado – à malta mais antiga – que o comandante Alpoim Calvão foi o chefe operacional do ELP/MDLP, organização que se distinguiu pela execução de 7 atentados mortais, 62 atentados contra habitações, 52 automóveis destruídos, 62 acções terroristas não especificadas, 102 sedes de partidos de esquerda atacadas e 70 destruídas. Aquela organização terrorista, cujo chefe político era o general Spínola (talvez por isso foi tornado Marechal), especializara-se na colocação de bombas. Foram eles que me mataram um amigo: o padre Max, candidato a deputado pela UDP, a 2 de Abril de 1976. Dia esse em que, curiosamente, era promulgada a Constituição Política mais avançada do mundo, a nossa, fruto da luta política e social do PREC, que o ELP/MDLP pretendeu sufocar."

Alpoim Calvão e a consolidação do regime
Por Mário Tomé

Jornal "Sol"

Recordando outros ajustes com a história:

O Presidente da República elogiou hoje a “grande coragem” do marechal António de Spínola na luta por um Portugal “verdadeiramente democrático”


O CDS/PP apresentou à votação um texto de pesar pela morte do cónego Melo. Foi aprovado, mas só os centristas e o PSD votaram a favor, com o PS a optar pela abstenção - e alguns deputados "laranja" e muitos socialistas a deixarem a sala ainda antes do voto. PCP, PEV e BE foram contra e os bloquistas abandonaram o hemiciclo durante o minuto de silêncio.



7 de setembro de 2010

"Vamos!" - Quebrar o silêncio sobre as injustiças e as mentiras da crise. Vamos à luta.



Manifesto

Não nos calaremos!
Não fomos nós quem fez esta crise.
Há outras soluções.

Vamos quebrar o silêncio sobre as injustiças e as mentiras da crise.

Desemprego acima de 10%, precarização generalizada, cortes em todos os apoios sociais e nos serviços públicos, ataque ao subsídio de desemprego, aumento da pobreza...Pode-se viver assim? Como aceitar sempre mais sacrifícios para vivermos sempre pior? Como chegámos aqui?

Os banqueiros e os especuladores jogaram com o nosso dinheiro: crédito fácil, especulação imobiliária, fraudes de gestão. Quando ficaram a descoberto, em 2008, não gastaram nada de seu. Chamaram os Estados e, dos nossos impostos, receberam tudo quanto exigiram. Então deram o golpe: com o dinheiro recebido a juros baixos, compraram títulos da dívida pública, a dívida do mesmo Estado que os salvou. Agora, o Estado, para pagar os altíssimos juros dos títulos da sua dívida, vai buscar dinheiro aos bolsos de quem trabalha: mais impostos, menos salário, cortes de todo o tipo, privatizações...

Estamos perante uma gigantesca transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos. Dentro de cada país. E dos países mais pobres da Europa para os países mais ricos - numa Europa submissa e agachada defronte dos mercados especuladores. Duas palavras enchem os nossos dias: "dificuldades" e "sacrifícios". São palavras para nos silenciar. Pois não nos calaremos. Não fomos nós, trabalhadores de toda a Europa, quem fez esta crise. Quem a fez foi quem nunca passa por "dificuldades" e recusa sempre quaisquer "sacrifícios". Foram os especuladores que nada produzem, os bancos que não pagam os impostos que devem, as fortunas imensas que não contribuem. Para eles, a crise é um novo e imenso negócio.

Agora que a desesperança se espalha, que a pobreza alastra e que o futuro se fecha, trazemos à rua o combate de uma solidariedade comprometida com os desfavorecidos. Há alternativas ao empobrecimento brutal da maioria da população. O projecto de um Portugal e de uma Europa num mundo que cresça com justiça social e prioridade aos mais pobres. Que defendam o emprego digno, os serviços públicos e os apoios essenciais para garantir o respeito por cada pessoa. Essa é a verdadeira dívida que está por pagar.

Vindos de muitas ideias e de muitas experiências, juntamo-nos pela igualdade e contra as injustiças da crise. Conhecemos as dificuldades verdadeiras de quem está a pagar a factura de uma economia desgovernada.

Não aceitamos a cumplicidade financeira da Comissão Europeia e do BCE no sofrimento e na miséria de milhões, não nos conformamos com um país que se abandona à pobreza, com uma sociedade que aceita deixar os mais fracos para trás.


Uma sociedade civilizada não protege a ganância acima do cuidado humano, o cuidado de um por todos e de todos por um.

Vamos quebrar o silêncio sobre as injustiças e as mentiras da crise.
Vamos à luta.
Vamos!