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22 de agosto de 2011

São José Operário


São José Operário não era proletário fabril, nem proletário-bolseiro de investigação científica, mas era carpinteiro, vivia como aqueles, vivia do seu trabalho, e ensinou o ofício ao seu filho Jesus de Nazaré. Já Dom José Policarpo está muito longe de ser operário, sendo cardeal: é um príncipe da Igreja Católica. E embora tenha sido o primeiro José quem deu a linhagem davítica a Jesus, é o segundo José (Policarpo) quem enverga o título de príncipe, enquanto aquele tem por título “Operário”.
Vem a propósito das declarações do cardeal patriarca de Lisboa Dom José Policarpo, que disse na homilia em que celebrava o seu cinquentenário de eucaristias que não gosta (sim foi este o verbo, não gosta) que “grupos estejam a fazer reivindicações grupais, de classe”, neste tempo de medidas difíceis. Falou dos sindicatos como fazendo parte desses grupos que colocam “interesses egoistas” à frente do “interesse nacional”, que são “egoistas” num tempo de “medidas difíceis que até nos foram impostas por quem nos emprestou dinheiro”.
O Cardeal coloca-se do lado da Troika, contra os sindicatos e os interesses de classe de quem trabalha. Imaginará o príncipe da Igreja que a esmagadora maioria das cidadãs e dos cidadãos deste país e a esmagadora maioria dos crentes da Igreja Católica espalhados pelo mundo são também elas e eles como São José Operário? ou seja, que vivem do seu próprio trabalho e não da apropriação do fruto do trabalho alheio? É que há bancos chamados Espírito Santo, há Eduardo e Isabel dos Santos, há famílias inteiras Sereníssimos Donos de Portugal que vivem da sobrexploração do trabalho alheio.
Ora, foi em nome do seu interesse de classe que os banqueiros mandaram o governo chamar o FMI e companhia, a dita Troika – lembram-se como o governo do PS foi rápido a atender ao pedido dos banqueiros? Que eficiência! Que belo exemplo de política de classe! E como não recordar, que os prejuízos de um banco de ex-ministros do PSD, que os prejuízos do BPN foram nacionalizados (sem a SLN) e que a Troika exigiu a apressada e ruinosa privatização? Como não recordar que os vencedores desse negócio ruinoso, que esse crime contra o “erário público da Nação”, foi em proveito dos de sempre: dos sereníssimos donos e as sereníssimas donas de Portugal? Só me ocorre o Felizmente há Luar de Sttau Monteiro:
"Se há guerra, se temos o inimigo à porta - Aqui d'el-rei que a terra é todos e todos a temos que defender, mas, batido o inimigo, chegada a época das colheitas, quando se trata de comer os frutos da tal terra que é de todos, então não! Então a terra já é só deles!"

19 de janeiro de 2011

Faz-se o que se pode, quando não se quer fazer por mais

Quando o argumentário chega a este ponto e se estende por este caminho , é necessário levar-se uma lanterna para o debate para se-o poder acompanhar, tal é a baixeza da latitude retórica.

Não procuro colocar ninguém neste blogue, num pedestal ou numa torre de marfim, no que toca à sua forma de discussão e como se entende por estas bandas expor ideias.

Grande parte do que ainda se pode ter a dizer sobre este debate, versará sempre em torno do que muitos disseram na caixa de comentários do primeiro post supracitado, pelo que me ficarei por algumas questões.

"E o Bloco de Esquerda que papel cumpre no actual panorama político? Conseguirá dormir sabendo que apoia o mesmo candidato que uma parte dos coveiros da classe trabalhadora? Dos que lançaram a polícia contra os que lutam?"(1)

Quem apoiou o PCP definitivamente em 1980 e em 1991?

Que Partido/Governo reprimiu estes trabalhadores ? E qual é o partido irmão português?

Se aplicarmos o quadro de referência de Bruno Carvalho, este será culpado pela repressão de cada trabalhador em cada país em que um partido "irmão" do PCP esteja no poder. Da África do Sul à China, sem nunca esquecer Angola e o Laos.

E já agora, também pode ser responsabilizado pelos funerais da classe trabalhadora portuguesa, porque o PCP e Francisco Lopes estiveram na primeira volta com Ramalho Eanes e com Jorge Sampaio. E o que dizer dos trabalhadores lisboetas e das coligações PS/PCP para a Câmara. Sem falar nessas imensas coligações pós-eleitorais com o PSD nas autarquias. E o que dizer da carga policial do dia 20 de Outubro de 2004 no Pólo II da Universidade de Coimbra? Curiosamente o Reitor Seabra Santos é militante do PCP, e já agora, o então Vice-Reitor Avelãs Nunes , foi mandatário da CDU nas Europeias de 2009.

E assim é o debate quando ele não salta fora do simplismo.

Mesmo assim, deixo aqui isto:

"o que se passou ontem foi abuso de poder por parte da polícia"

Manuel Alegre critica confrontos entre polícia e manifestantes junto à residência oficial do PM

17 de janeiro de 2011

O branco ficou mais vazio

O MRPP reconsiderou o seu apelo ao voto em branco, passando agora a apoiar Alegre. Esta mudança poderá significar pouco para a candidatura do poeta, no entanto, deixa aos puramente líricos o espaço do isolamento, o lugar de quem não contribui para a luta de classes em Portugal. Dos que preferem ficar em branco, ao invés de fazerem algo pela alteração radical da cor da tela.

Apontamento diário para AComuna.net

24 de setembro de 2010

Estamos em Guerra





A voracidade dos dominantes é tal que a guerra aos povos é cada vez mais evidente.

(Artigo escrito a propósito do Dia Internacional da Paz/21setembro)

Venderam-nos (e comprou quem quis) a ideia do “Fim da História”, do triunfo da triologia da democracia liberal, economia de mercado e (“consequente”) paz mundial. As guerras “étnicas” ou “humanitárias” dos anos 1990 eram apenas “excepções”, últimos vestígios dos modelos ultrapassados.

Com o 11 de Setembro, veio a declaração da guerra geral ao “Terrorismo” (conceito “utilmente” indefinido no Direito Internacional) e sob essa bandeira suspenderam-se direitos e garantias, na esfera interna – o caso do Acto Patriótico nos EUA – e invadiram-se estados: o Afeganistão e o Iraque.

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, a realidade não é a do “Fim da História”, o “Choque de Civilizações” não impede “negócios da China” ou das Arábias, o “Império” sem centro de Negri é pura miragem face ao papel fundamental do estados e suas organizações na guerra, na desregulação financeira, no socorro à banca e no endossar de ataques especulativos como aquele que está em curso contra o euro e os povos europeus.

É igualmente verdade que o mundo de hoje já não é o da teoria do imperialismo de Lenine, o imperialismo do choque entre potências que derivava da existência das burguesias nacionais monopolistas. Hoje, na era das corporações transnacionais, existem burguesias com interesses transnacionais que, ainda assim, não abrem nem podem abrir mão do poder que exercerem através dos vários estados. Note-se que os americanos vêem, hoje, com bons olhos e sem desconfiança o investimento europeu na defesa (querem dividir os custos da guerra e até lucrar mais alguma coisa na venda de material bélico). E as outras potências e organizações internacionais são vistas como parceiros necessários e desejáveis.

O imperialismo persiste, mas sob outra forma. Alcançou a dimensão Global, aperfeiçoou-se, mas também encontrou novas contradições e novas rivalidades. A tendência não é para a Guerra entre potências imperiais (como era no tempo de Lenine); agora a tendência é para ‘a guerra unida das potências contra todo o mundo, contra todos os povos’: desde a guerra entre a Finança Global e as economias nacionais às guerras coloniais no Iraque e na Palestina ou mesmo à guerra ao Estado social e à perseguição de minorias étnicas, como ilustra o recente caso dos ciganos em França.

Os impérios e a hegemonia burguesa trazem às subjugadas e aos subjugados uma aparente paz que mais não é que a cristalização/normalização das violências da ordem estabelecida. Mas nem mesmo essa 'paz aparente' dura. A voracidade dos dominantes é tal que a guerra aos povos é cada vez mais evidente. A luta política e social pela hegemonia das exploradas e dos oprimidos é fundamental para a defesa e o aprofundamento da democracia e para a conquista de uma paz que abra caminho a um mundo onde o livre desenvolvimento de cada um e cada uma será condição para o livre desenvolvimento de todas e todos.

Nota: também publicado aqui.

10 de setembro de 2010

O último dos cangaceiros

Morreu na última segunda-feira, aos 100 anos de idade, o último dos homens do cangaço liderados por Virgulino Ferreira, o Lampião. Há 72 anos António Inácio da Silva foi um dos poucos que conseguiu escapar à chacina de que foi vítima o grupo de Lampião, em pleno sertão do Estado brasileiro de Sergipe. Depois de decepadas pelas forças do exército federal as cabeças dos cangaceiros foram mergulhadas em aguardente e cal e expostas um pouco por todo o país. As cabeças de Lampião e de sua mulher, Maria Bonita, foram as mais ostentadas. Com a morte de Inácio da Silva desaparece o último elo vivo com o cangaceiro que se transformou num poderoso mito.

Longe de se enquadrar no tipo de bandido nobre, como Robin Hood, Lampião é, ainda hoje, tema de polémica pelos seus feitos de mais de 20 anos de cangaço, onde a violência extrema para com líderes locais e mesmo para parcela dos camponeses nas inúmeras pilhagens de vilas e vilarejos no nordeste brasileiro se contrabalança com a imagem romântica de um cangaceiro de óculos, autor de poesias e exímio bordador. Entre criminoso cruel e sanguinário ou justiceiro social, líder das vítimas de um sistema opressor, Lampião foi conquistando o seu espaço na história e na imaginação colectiva de um país.

O tema do banditismo social foi magistralmente abordado por Eric Hobsbawm em Primitive Rebels: Studies in Archaic forms of Social Movements in the 19th and 20th centuries (1959) e Bandits (1969). Em ambas as obras Lampião e seu bando são alvo de referência, tornando-se a base da conceptualização proposta por Hobsbawm para o tipo de bandido Vingador. Um tipo de banditismo que atinge proporções políticas pela função que exerce na relação de forças sociais e pelo produto violento que é de um sistema de exploração, uma revolta dos debaixo que encontra no facão o seu instrumento de organização.

Se Lampião se enquadra de facto na conceptualização que inspirou é algo longe de alcançar consenso mas, como bem assinalou Hobsbawm, na historiografia do banditismo social importa também analisar o papel do mito nas formas de legitimação do Estado e consequentemente no seu senso de legalidade (ao próprio Lampião foi oferecido um período de legalidade em 1926 em troca do seu apoio no combate à Coluna Prestes). Como já se sabe, o passado também se conquista.

7 de setembro de 2010

"Vamos!" - Quebrar o silêncio sobre as injustiças e as mentiras da crise. Vamos à luta.



Manifesto

Não nos calaremos!
Não fomos nós quem fez esta crise.
Há outras soluções.

Vamos quebrar o silêncio sobre as injustiças e as mentiras da crise.

Desemprego acima de 10%, precarização generalizada, cortes em todos os apoios sociais e nos serviços públicos, ataque ao subsídio de desemprego, aumento da pobreza...Pode-se viver assim? Como aceitar sempre mais sacrifícios para vivermos sempre pior? Como chegámos aqui?

Os banqueiros e os especuladores jogaram com o nosso dinheiro: crédito fácil, especulação imobiliária, fraudes de gestão. Quando ficaram a descoberto, em 2008, não gastaram nada de seu. Chamaram os Estados e, dos nossos impostos, receberam tudo quanto exigiram. Então deram o golpe: com o dinheiro recebido a juros baixos, compraram títulos da dívida pública, a dívida do mesmo Estado que os salvou. Agora, o Estado, para pagar os altíssimos juros dos títulos da sua dívida, vai buscar dinheiro aos bolsos de quem trabalha: mais impostos, menos salário, cortes de todo o tipo, privatizações...

Estamos perante uma gigantesca transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos. Dentro de cada país. E dos países mais pobres da Europa para os países mais ricos - numa Europa submissa e agachada defronte dos mercados especuladores. Duas palavras enchem os nossos dias: "dificuldades" e "sacrifícios". São palavras para nos silenciar. Pois não nos calaremos. Não fomos nós, trabalhadores de toda a Europa, quem fez esta crise. Quem a fez foi quem nunca passa por "dificuldades" e recusa sempre quaisquer "sacrifícios". Foram os especuladores que nada produzem, os bancos que não pagam os impostos que devem, as fortunas imensas que não contribuem. Para eles, a crise é um novo e imenso negócio.

Agora que a desesperança se espalha, que a pobreza alastra e que o futuro se fecha, trazemos à rua o combate de uma solidariedade comprometida com os desfavorecidos. Há alternativas ao empobrecimento brutal da maioria da população. O projecto de um Portugal e de uma Europa num mundo que cresça com justiça social e prioridade aos mais pobres. Que defendam o emprego digno, os serviços públicos e os apoios essenciais para garantir o respeito por cada pessoa. Essa é a verdadeira dívida que está por pagar.

Vindos de muitas ideias e de muitas experiências, juntamo-nos pela igualdade e contra as injustiças da crise. Conhecemos as dificuldades verdadeiras de quem está a pagar a factura de uma economia desgovernada.

Não aceitamos a cumplicidade financeira da Comissão Europeia e do BCE no sofrimento e na miséria de milhões, não nos conformamos com um país que se abandona à pobreza, com uma sociedade que aceita deixar os mais fracos para trás.


Uma sociedade civilizada não protege a ganância acima do cuidado humano, o cuidado de um por todos e de todos por um.

Vamos quebrar o silêncio sobre as injustiças e as mentiras da crise.
Vamos à luta.
Vamos!