Após ter lido este texto do José António Saraiva, uma série de ideias passou-me pela cabeça. Passam agora neste blog em regime de paráfrase.
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À minha frente, no computador, mais um texto execrável de José António Saraiva, dos seus 487 ou 488 anos. Pelo modo como escreve, espirra as mais cruas boçalidades e não parece aperceber-se da frieza ignorante do que diz, percebo que daqui vem mais do mesmo.
José António Saraiva descreve um momento de epifania da sua vida em que contactou com um ser humano que lhe parece, imagine-se o choque, gay. Tal aconteceu no edifício da FNAC do Chiado. Saraiva trabalha naquela zona e, pelo menos duas vezes por dia, sobe e desce a Rua Garrett, que deixou de ser mais uma rua lisboeta para se tornar no local preferido para uma espera tão colorida quanto o arco-íris.
Ao ler o texto de Saraiva, apercebi-me de que provavelmente em todos os países haverá gente baixa, reles, torpe, vil, miserável, pouco inteligente, estúpida, desumana, desconhecedora, ignorante, cega, incolor, etc, etc, etc, a escrever em jornais. Obviamente, Portugal não é excepção. Não sei as razões que conduzem a que tais idiotas tenham tempo de antena, mas o facto é que até já chegaram à Internet. O site do Sol é uma dessas zonas – e, de facto, cruzamo-nos aí constantemente com “pessoas” de uma estupidez enorme, atingindo esta o seu sublime e etéreo cume com Saraiva.
Julgo ser um facto notório que a estupidez de Saraiva cresce de dia para dia. Há quem afirme que não é assim – e o que se passa é que o autor tem cada vez menos receio de se assumir, cada vez menos receio de revelar as suas inclinações, tendo orgulho (e não vergonha) de ser como é.
Talvez esta explicação seja parcialmente verdadeira.
Mas, se for assim, é natural que a estupidez de Saraiva esteja mesmo a crescer. O assumir da estupidez publicamente acabará forçosamente por ter um efeito multiplicador, pois funciona como propaganda e como auto-incentivo.
Até à passagem de Maria de Lurdes Rodrigues pelo Ministério da Educação, a estupidez era reprimida socialmente, pelo que grande parte das pessoas estúpidas teria pejo de assumir a sua própria estupidez - acabando algumas por ler uns livros, estar caladas ou mesmo fingir que entendiam piadas para afastar eventuais suspeitas. Conheço vários exemplos desses: a Vânia, por exemplo, que andou na escola comigo, raramente entendia as minhas piadas elmanistas, arrisco a dizer que nem sequer sabia quem era Elmano, mas ria para que ninguém desconfiasse da fraqueza dos parcos neurónios que povoavam aquele cérebro.
Ora hoje passa-se o contrário: mesmo cronistas não têm uma estupidez evidente acabam por ser atraídos pelo mistério que ainda rodeia a estupidez em público e pelo fenómeno de moda que ela assumiu em determinados sectores. Não duvido de que há estúpidos que nascem estúpidos. Bem pelo contrário. Saraiva até me parece um deles. Mas também há estúpidos que se tornam estúpidos – por influência de amigos, de Saraiva, por pressão do meio em que se movem (no ambiente do Sol isso é claro) e por outra razão que explicarei adiante e me levou a escrever este artigo.
Ao ler o texto de Saraiva que motivou este meu texto, pensei: será que há 20 anos ou 30 anos ele teria a mesma atitude, assumiria tão ostensivamente a sua estupidez? E, indo mais longe, se ele tivesse sido jovem nessa altura seria assim tão estúpido?
Não tive dúvidas. Quando não há inteligência, não há realmente nada a fazer. Tive a percepção clara de que a sua forma de estar, assumindo tão evidentemente a estupidez, correspondia a uma evidente falta de sexo homossexual e, com aquela cara de parvo, não estou mesmo a ver que menino o quereria encostar a, por exemplo, sei lá, uma parede do elevador da FNAC do Chiado e fazer o amor com ele.
Mas certos mitos desabaram e nasceram formas de recusa do modelo de sociedade em que vivemos.
Ora uma delas é a estupidez. Já quando eu era miúda toda a gente queria ser inteligente. Para alguns cronistas, contudo, a estupidez surge não só como uma forma de ganhar dinheiro sujo mas também como uma forma de mostrar a sua ‘diferença’, de manifestar a sua recusa de uma sociedade inteligente, de lutar contra a hipocrisia daqueles que não têm coragem de se mostrar como são, de demonstrar solidariedade com aqueles que são discriminados ou perseguidos pelas suas parvas capacidades intelectuais.
Ser estúpido, para muitos cronistas, é tudo isto. É uma forma de insubmissão. E, está claro, é um desafio aos gays. Se antes os cronistas desafiavam os pais tornando-se poetas, hoje desafiam-nos recusando a ‘família gay” e mostrando-lhes que há apenas uma forma de relacionamento e de constituir família. Aliás, assumir-se como estúpido talvez seja, por muitas razões, o maior desafio que um cronista pode fazer aos gays.
Todas as gerações, desde os idos de 60, tiveram os seus sinais exteriores de revolta. Foram os cabelos compridos, as drogas, as calças à boca-de-sino, as barbas à Fidel Castro, os posters de Che Guevara colados na parede do quarto.
Ora a exposição da estupidez é hoje uma delas. E a opção estúpida é uma forma de negação radical: porque rejeita os direitos humanos, ou seja, o respeito e a felicidade da espécie. Nas relações com gente estúpida, há um niilismo assumido, uma ausência de utilidade, uma recusa do futuro. Impera a ideia de que tudo se consome numa ausência de cérebro – e que o amanhã não existe. De resto, o uso de palavras negras, a fuga da cor e o ódio ao arco-íris vão no mesmo sentido em direcção ao nada.
O fenómeno da estupidez como forma de contestação deste modelo de sociedade em que vivemos, de afirmação radical de uma diferença – enquadrada num fenómeno contestatário iniciado nos anos 60 –, nunca foi abordado.
Mas olhando para aquele texto que li e que estava à minha frente no computador Samsung, percebi que era isso que movia Saraiva quando escrevia uma série de frases boçais. Ele dizia a quem o lia: «Eu sou diferente, eu não sou como vocês, eu recuso esta sociedade hipócrita, eu assumo que sou estúpido.».
PS Que ninguém fique com a ideia de que discrimino “gente” estúpida. A minha “opção sexual” é que é menina para meter mais facilmente uma menina no meu quarto do que “gente” assim.
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10 de abril de 2012
4 de agosto de 2011
o partido dos casamentos gays e a minha quase perene heterossexualidade
Diz-nos o inefável Alberto João Jardim que o Bloco de Esquerda é o partido dos casamentos gays e ainda nos pediu que casássemos uns com os outros (certamente à espera, digo eu, de um simpático convite que o levasse para o meio da orgia anti-capitalista, entre whisky, marijuana, abortos e loucura).
Mas acho engraçado que o AJJ diga que somos o partido dos casamentos gays, como se nada mais tivéssemos para dar e como se a luta pela igualdade fosse só uma birra caprichosa desta esquerda caviar (acho que são umas coisas pretas dos peixes, não sei bem, nunca comi, nem é que seja vegetariana, mas...). E o inefável senhor atira-nos à cara que sejamos a vanguarda do progresso social e da justiça como se isso fosse um insulto, uma coisa asquerosa da qual devêssemos ter vergonha. Talvez o conservadorismo deste poeta se sinta preocupado, quiçá minimizado, com o progresso que o Bloco simboliza e com a força que o Bloco, resistente a derrotas, é, para seu pesar e para meu glorioso gáudio.
Mas já sei que as minhas palavras vão ser mal interpretadas. As pessoas adoram interpretar mal as palavras de quem é e faz o Bloco de Esquerda. E já sei que me vão dizer que eu até nem tenho nada de político contra o AJJ e que é por ser gay que lá me vou virando contra ele, movida pelo ódio e pela esquisitice que caracterizam tod@s @s gays. Mas é mentira. A minha heterossexualidade nunca esteve em causa. Passei até algumas tardes a tentar entender se a pessoa mais heterossexual do país era eu, o Zezé Camarinha ou o José Castelo Branco. Porém, vi isto

e deixei que a vitória fosse atribuída a um dos dois elementos masculinos. Se contribuo para que o Bloco seja o partido d@s gays, a culpa é somente do tronco peludo de Alberto João Jardim.
12 de fevereiro de 2011
eu odeio o dia das namoradas, dos namorados e d@s namorad@s
... mas esta campanha parece-me pertinente e de bom tom.
5 de fevereiro de 2011
Eu também acho que a homossexualidade é uma doença
Muito boa gente tem dito que a homossexualidade é uma doença. Depois de pensar no assunto, concluo que essa boa gente tem razão. Aliás, tornou-se-me óbvio que a homossexualidade é uma doença. Repare-se: as doenças matam. Certo? O orgasmo, em francês, é conhecido por “la petite mort”. Se o orgasmo mata, é porque é uma doença. E toda a gente diz que o sexo gay é melhor que o hetero, logo, o orgasmo gay será melhor que o hetero. Quer isto dizer que sexo gay mata mais que o hetero. Concluo que a homossexualidade é uma doença como o cancro.
Após esta minha conclusão brilhante, acreditem que desejo ardentemente ser outra mulher qualquer só para me encostar a uma parede e ter sexo gay comigo.
Em relação à badalada adopção por gays e à ecuménica comparação entre o reino animal, eu recuso-me a comentar a ponderada decisão de duas éguas não adoptarem uma cria. E recuso-me a fazê-lo porque não percebo nada de animais e nunca tive uma conversa séria com nenhum acerca das suas capacidades educativas. De qualquer forma, essa gente irracional não me parece gente que se fie. Gente que vive sem telemóvel, ar condicionado ou microondas não poderá jamais ter atitudes pedagógicas em relação a um novo ser neste nosso belo mundo. Além disso, repare-se que há animais que comem @s parceiros sexuais (ok, nós também o fazemos, mas estou a falar do sentido literal), mas ai d@ canibal que se meter a adoptar crianças, que eu fico consideravelmente chateada com a coisa.
Mas não me tomem por homofóbica. Eu não sou contra @s gays. Sou a favor das gays. Só sou contra os gays, mas isso é porque essa gente tem mesmo uma doença. Um homem que olhe para mim e não me queira dar beijinhos só pode mesmo ter problemas hormonais.
Após esta minha conclusão brilhante, acreditem que desejo ardentemente ser outra mulher qualquer só para me encostar a uma parede e ter sexo gay comigo.
Em relação à badalada adopção por gays e à ecuménica comparação entre o reino animal, eu recuso-me a comentar a ponderada decisão de duas éguas não adoptarem uma cria. E recuso-me a fazê-lo porque não percebo nada de animais e nunca tive uma conversa séria com nenhum acerca das suas capacidades educativas. De qualquer forma, essa gente irracional não me parece gente que se fie. Gente que vive sem telemóvel, ar condicionado ou microondas não poderá jamais ter atitudes pedagógicas em relação a um novo ser neste nosso belo mundo. Além disso, repare-se que há animais que comem @s parceiros sexuais (ok, nós também o fazemos, mas estou a falar do sentido literal), mas ai d@ canibal que se meter a adoptar crianças, que eu fico consideravelmente chateada com a coisa.
Mas não me tomem por homofóbica. Eu não sou contra @s gays. Sou a favor das gays. Só sou contra os gays, mas isso é porque essa gente tem mesmo uma doença. Um homem que olhe para mim e não me queira dar beijinhos só pode mesmo ter problemas hormonais.
2 de julho de 2010
Judith Butler denuncia o "homo-nacionalismo" no Pride Berlin
No passado dia 19 de Junho, a filósofa e activista Judith Butler recusou o prémio "Berlin Civil Courage Award" dizendo, corajosamente, "I must distance myself from this racist complicity".
Butler referia-se às campanhas mediáticas que sistematicamente mostram os imigrantes como "patriarcais", "homofóbicos" e "arcaicos", enquanto que organizações de gays dominadas por brancos em Berlim encorajam mais policiamento nos "bairros gay" onde vivem imigrantes, homossexuais ou não.
O grupo SUSPECT, um grupo de activistas de imigrantes LGBT teve uma declaração clara, repudiando esta tentativa cada vez mais forte de substituir uma política de solidariedade e alianças para a transformação social por uma política de criminalização, militarização e xenofobia. A prova de que os movimentos progressistas têm contradições e não são, per si, um catalisador para a transformação social (radical ou não) à Esquerda.
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