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28 de agosto de 2011

disparate é fechar os olhos e fingir que não vê


 Falando em múmias políticas em estado semi-vegetativo tinha pano para mangas. Podia falar do Soares que diz já não ser contra o capitalismo e que o socialismo é a mera rejeição do capitalismo de casino e  que o socialismo democrático é a possibilidade real de regulação desse capitalismo (?). Ou do Alberto João que diz que já não é tão pró capitalismo, que hoje está muito mais à esquerda. Ou falar do Cavaco que entre as agências de raiting, os impostos sobre os ricos e a política de sacrifícios já deu mais cambalhotas políticas que o Durão Barros o ao ir do MRPP para o PSD em tempo recorde. Mas porque não falar dessa múmia política (quase) intocável que é Medina Carreira?



Medica Carreira, homem de curriculum e responsabilidades políticas, saltou de casa para a televisão à pala da sua teatralidade profética. Qual messias sagrado… Medina Carreira faz um papel muito melhor: é um profeta do apocalipse, competentíssimo, independente, sério e inteligentíssimo a que a classe política deveria ter dado ouvidos. Poderíamos perguntar ao doutor se sempre teve o dom do profetismo, porque é que quando foi ministro não previu o fracasso das políticas de desmantelamento do estado? Porque é que não previu a solidificação de uma elite corrupta que domina a política e que está ancorada no partido do poder? Porque é que não previu que a degradação da política era a degradação dos problemas estruturais da economia portuguesa e com isso a degradação da situação financeira do Estado Português? E que havia muita gente a quem tudo isto dava jeito?

Pois de independente Medina não tem nada. E pode agora lançar livros às dezenas à lá Zizek e Nicolas Sparks mas Medina só escreve em livro a peça de teatro que encena na TV e que vemos em cena tantas e tantas vezes, assemelhando-se a sua análise mais à de um papagaio repetitivo que à de um “analista” político.
Mas sobre a análise política, deixo-vos a pérola que me fez escrever este texto sobre tão ilustre pensador: “taxar os ricos é um disparate”. Medina carreira até pensou nisso há uns anos mas pelos vistos mudou de opinião. Ainda assim, poderia o doutor explicar se taxar os ricos é um disparate o que é cortar o subsídio de natal? E o que é cortar pensões e cortar nos subsídios sociais como o RSI ou subsídio de desemprego? E o que é cortar nos salários dos trabalhadores/as e nas bolsas de estudo? E o que é aumentar os transportes públicos? E o que é privatizar serviços públicos essenciais e que até dão lucro ao estado?
Sobre isto nada diz o doutor Medina Carreira? 

Ou pensará também que estes são disparates inevitáveis? Pois respondo-lhe como respondeu o José Luís Peixoto, se nos dizem que é impossível, dizemos que o que é mesmo impossível é não viver! E que taxar seriamente os ricos é uma questão de democracia, disparate é fechar os olhos e fingir que não vê.

23 de junho de 2011

colete de forças


Maria João Rodrigues teme uma crise de legitimidade democrática na UE, que funciona, neste momento, mais como um "colete de forças" do que enquanto parte da solução para a crise.
Nada que muita gente não tenha dito já, há anos.

A configuração institucional da União Monetária, para além de profundamente anti-democratica, não deixa outra solução aos países membros a não ser a austeridade.
Há vários problemas a ser resolvidos, e este modelo não traz resposta a nenhum.

1. a estrategia neomercantilista da Alemanha (e semelhantes) de contracção dos salários internos e controlo da política do banco central garantirá a acumulação de défices comerciais nos países periféricos, em troca de crédito pedido aos bancos alemães. Este problema só poderá ser resolvido com um mecanismo de transferencias automáticas dentro da UME e com o aumento dos salários na Alemanha.

2. uma vez que os países perderam o controlo sobre a sua política monetária, é impossivel emitir moeda para financiar despesas ou desvalorizar o seu valor para promover o nivel de exportações. Porque não existe a possibilidade (vontade) de emitir euro-obrigações ou do BCE emprestar directamente aos países, resta-nos a total dependecia dos mercados financeiros para obter financiamento - o que oferece às agencias de rating e investidores financeiros o poder da chantagem sobre os governos nacionais.

3. Por causa do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que limita os nossos níveis de défice e divida, é impossível para um Estado membro sair da crise através da promoção da procura na economia, ou seja, da promoção do investimento e do consumo (o que depois terá efeitos no emprego e por aí adiante).

Colete de forças: a unica saída, neste contexto, é mesmo a austeridade - cortar drasticamente o custo do trabalho, aumentar os impostos, vender bens e serviços públicos. Mas a austeridade só pode ser imposta com autoritarismo, o que nos leva à crise de legitimidade democrática na UE. E se Bruxelas não perceber isto rapidamente, o futuro do projecto Europeu está de facto em causa.

11 de junho de 2011

sobre preconceitos ideológicos e outras coisas mais - a minha resposta a Paulo Pedroso

Caro Paulo Pedroso,

Independentemente dos contornos que discussão técnica possa tomar, parte do meu argumento prende-se justamente com o meu repúdio pela forma como os números têm sido utilizados para a construção de uma única ideia – a da inevitabilidade da austeridade. Assisto com tristeza, para além da apropriação criativa a variada de conceitos económicos para “cientificizar” verdades politicas, a uma absoluta contaminação do espaço público pelo pensamento único – debatem-se argumentos vários, mas apenas os que servem para justificar o corte salarial como parte dos inevitáveis sacrifícios para sair da crise. Sobre seriedade, manterei a discussão em post-sriptum.

Para além de procurar trazer pluralidade ao debate, a minha segunda preocupação foi, e continuará a ser, a de contrapor um diagnostico da situação portuguesa que considero errado, porque ignora os vários factores responsáveis pelo atraso estrutural e perda de competitividade do país. Certamente não serei detentora de todas a respostas, mas sei que quando o diagnóstico está viciado, as soluções são ineficientes.


Em primeiro lugar

É hoje claro, penso eu, que os problemas de competitividade da economia portuguesa não se prendem com o custo do trabalho mas com 1) uma integração europeia desequilibrada; 2) um enviesamento interno para os não transaccionáveis, em parte devido à estruturação dos grupos económicos em Portugal e modelos de privatizações; 3) uma estratégia neomercailista Alemã, de compressão de salários internos, que pressiona o resto da UE; 4) outros factores – preço da energia, sistema de justiça, entre outros. Como bem explicava Alexandre Abreu neste post, no limite, o problema de competitividade da economia portuguesa está na remuneração do capital, que tem vivido acima da suas possibilidades.

Perante este cenário, centrar o discurso na redução dos custo unitários do trabalho com o objectivo de reduzir os salários (que poderá eventualmente até empolar a competitividade de curtíssimo prazo), é ignorar a essência do problema. Pelo contrário, aprofundá-lo-á porque nos torna uma país mais pobre. E esta análise – sobre os salários - não é só minha, é partilhada por vários economistas e personalidades tão insuspeitas como Maria João Rodrigues ou João Ferreira do Amaral.

Quanto aos “outros factores”, discordo profundamente da ideia de que possam derivar unicamente de obstáculos corporativos e da escassa concorrência. Se nos “obstáculos corporativos” estiver a incluir a nossa elite de banqueiros então a nossa discordância diminuirá. O argumento da concorrência, sem mais, parece-me apenas uma justificação rápida para a privatização de sectores essenciais para o desenvolvimento do nosso sector produtivo, que em nada garante mais eficiência ou melhor prestação de serviços.


Em segundo lugar

Não pretendi no meu anterior post, e estou certa que não o fiz, debater com pormenor o modelo de crescimento (ou não) Alemão. Clarificar apenas que a Alemanha cresceu à custa das exportações, estagnando a sua procura interna por via da compressão salarial. Não lhe valeu uma grande taxa de crescimento, como se pode ver, e certamente não é modelo replicável em todo o lado, porque se todos exportássemos como a Alemanha não haveria ninguém para importar.

É sempre possível crescer artificialmente comprimindo os salários, mas foi exactamente esse tipo de estratégias anti-social que a esquerda rejeitou durante as ultimas décadas.



Em terceiro lugar

A União Monetária Europeia, e a própria União Europeia, assumem um papel crucial neste debate. Não só pelas desvantagens criadas às moedas mais fracas no momento da sua criação, como também pela sua configuração institucional de características profundamente antidemocráticas, da Comissão Europeia ao BCE passando pelo tribunal constitucional, que favorece o capital financeiro em detrimento do crescimento sustentável das economias e do bem estar dos seus cidadãos.

E se, sem sobra para dúvidas, “a entrada sobrevalorizada do escudo no euro foi uma das ultimas prendas que a política económica do hoje presidente Cavaco Silva deixou ao país”, a verdade é que o desenho institucional da UE, ao qual reconhecemos variados defeitos, pertence aos partidos socialistas por essa europa fora, e também ao português.

Lamento que os preconceitos relativamente à minha possível filiação política possam ter deturpado a sua análise relativamente aos meus argumentos, porque o que defendo não é, muito claramente, a saída do euro, ou "terceira via", como lhe chama. (e o termo não me ofende de todo, nutro por ele a simpatia intelectual até).

Uma saída na União Europeia neste momento não beneficiaria de modo nenhum os trabalhadores em Portugal, pelo contrário. Sempre defendi que seria desastroso fazê-lo, até ao momento em que os custos da nossa manutenção superem aqueles de uma eventual saída. Não penso que esse momento tenha chegado.

Porque atribuo à configuração institucional europeia uma grande responsabilidade nos desígnios nacionais, acredito na reestruturação das suas instituições, da Comissão ao Banco Central. Mais democracia, uma integração mais completa, um maior orçamento comunitário, um Banco Central focado no crescimento e não na inflação. Mas isto daria só por si várias páginas.
A nacionalização de toda a economia é um disparate, não posso acrescentar mais nada em relação a isso.


Em quarto lugar

Não tenho preconceitos em relação a debates que se centram nos diagnósticos, são necessários. Tão pouco tenho pressa em apresentar um pote de certezas, soluções milagrosas para o país. “o lado negativo da dialética”, quando bem aprofundado, levar-nos-á às alternativas.

Não me quero estender. Para sair do atoleiro é preciso, urgentemente, rejeitar a austeridade. Estou convicta disso. É urgente aplicar profundas reformas a nível europeu. Em Portugal há muito a fazer, a começar por uma reforma fiscal a sério, que promova a justiça e não sobrecarregue insistentemente o trabalho em detrimento do capital. É necessário ter política industrial, no seu verdadeiro sentido, investimento publico em sectores chave da economia. Impõe-se renovar um sector agrícola e piscatório em decadência, em parte por imposições europeias, responsáveis por parte da nossa dependência externa. Impõe-se um Banco Publico, é claro, que sirva os interesses do país, e possa financiar a actividade produtiva a preços controlados, fora das lógicas especulativas.

E mais, muito mais. A relação do Estado com a Economia, defendo uma é certo, mas não esta, a das PPP, dos contratos ruinosos e troca de favores. A nível internacional, outras tantas – sector financeiro, para começar.
Poderíamos facilmente ter um longo debate sobre cada uma destas propostas, mas elas só nos aparecem como prioritárias, e são, quando deixamos para trás o diagnostico facilitista, e errado, que coloca os custos unitários do trabalho no centro do problema.






p.s. Não encontro qualquer problema em retirar alguma ofensa que possa ter considerado de cariz pessoal, não foi com certeza essa a intenção. Estava na verdade a falar na falta de seriedade de todo um discurso construído de forma a ocultar propositadamente (ou talvez por desconhecimento?) um conjunto de informações relevantes para o debate, nomeadamente a falácia dos custos unitários do trabalho. Mas tão pouco me parece de grande delicadeza colocar nos meus dedos ideias que não me pertencem – não defendo, nunca defendi, a saída do euro e muito menos a nacionalização de toda a economia – numa tentativa de descredibilização pela colagem ao estereótipo de uma qualquer esquerda mais radical.
A titulo de informação, o Bloco de Esquerda não defende a saída do Euro, muito pelo contrário. E não defende a nacionalização de toda a economia. Estou certa que o Paulo Pedroso conhecerá melhor que isso as ideias do BE, caso contrário aconselho a leitura do manifesto, documento de interesse. Em qualquer dos casos não falo pelo BE, tal como não espero que fale pelo PS, e por isso mantive o partido socialista fora do meu primeiro post.

(resposta a este artigo de Paulo Pedroso)

18 de maio de 2011

extremismo de gravata


Ainda há dias Sócrates acusava o Bloco de Esquerda de querer dar o calote, a propósito da proposta de reestruturação da dívida portuguesa, hoje, é Jean-Claude Juncker, presidente do europgrupo, a admitir a necessidade de uma “reestruturação ligeira” da dívida grega. Não quer isto dizer que Junker passou para o lado das esquerdas europeias. Significa apenas uma coisa, que a renegociação é inevitável e a única alternativa à falência destes países.

Mas há quem insista em fingir que não vê o óbvio. Os casos da Irlanda e da Grécia permitem-nos hoje extrair um manual do que não fazer em caso de crise. Ambos os países implementaram planos de austeridade, tal como nós; ambos tiveram de recorrer a empréstimos externos, tal como nós; em ambos o desemprego aumentou, tal como nós; ambos enfrentam duros períodos de recessão económica, tal como nós. Nem a Grécia nem a Irlanda conseguiram suportar os juros impostos pela UE/FMI e ambos encetaram processos de renegociação das suas dívidas. O que é que nós faz pensar que será diferente no caso de Portugal?

É inegável que a dívida pública portuguesa aumentou nos últimos anos, embora esteja ainda muito longe de atingir os valores da dívida externa privada, aquela que os bancos portugueses devem ao estrangeiro. Mas é importante que percebamos o que é que causou o aumento do endividamento público. As PPP, por exemplo, consomem grande parte da dívida futura, especialmente se levarmos em conta as renegociações dos contratos iniciais, sempre a favor dos grupos privados, sempre com prejuízo para o Estado. Mas há outros contratos, ruinosos para as contas do estado, como os dois mil milhões de euros dos submarinos comprados no mandato de Paulo Portas, ou os cinco mil milhões afundados no buraco do BPN.

Também é importante saber a quem devemos. Sabemos apenas que são instituições financeiras (bancos, fundos de pensões, seguradoras), na sua maioria bancos portugueses, alemães e franceses que estiveram durante os últimos 3 anos a cobrar juros especulativos ao Estado enquanto se financiavam no BCE a taxas de 1%. O valor destes juros também entra para a divida pública, aumentado-a.

Perante a ameaça de não conseguir pagar esta dívida, PS, PSD e CDS aliaram-se para assinar um acordo com a troika. Um empréstimo no valor de 78 mil milhões, com juros a mais de 5%, em que a maior parte vai directamente para a banca e para o pagamento dos tais juros especulativos.

Os planos de austeridade implementados em Portugal são uma forma de conseguir pagar esta dívida. Cortar nos salários e apoios sociais, aumentar impostos e privatizar é a forma encontrada para transferir dinheiro dos trabalhadores para o pagamento da divida, ou seja, para as instituições financeiras a quem devemos. Mas tem consequências, porque quando se retira uma parcela tão grande do rendimento das famílias, isso implica menos dinheiro a circular na economia, menos consumo, mais falências, menos investimento e mais desemprego, ou seja, um ciclo de recessão.

O que nos coloca um outro problema: como é que se paga empréstimos de 5% ou mais quando a economia está em recessão, -2%? A resposta é: não se paga, não é possível.

Cobrar ao povo com austeridade o pagamento de uma dívida que em parte não lhe pertence para garantir as rendas agiotas das instituições financeiras credoras, a isso se chama dar o calote.

Responsabilidade não é pedir emprestado ao FMI para pagar uma dívida que não conhecemos. Para nos defendermos do calote é preciso pedir a factura discriminada, ou seja, uma auditoria à divida. Haverá com certeza uma parte que provém de contratos legítimos do Estado, mas não devemos aceitar pagar por contratos corruptos ou juros especulativos, essa parte não nos pertence.

Seriedade não é hipotecar o crescimento da economia para pagar juros irrealistas e dividas ilegitimas. Seriedade é renegociar a dívida para evitar o ciclo da recessão endividamento em que vemos a Grécia ou a Irlanda.

A ideia de que um país para crescer terá antes de ficar mais pobre não passa de puro radicalismo, extremismo ideológico de quem não quer questionar lógicas rentistas. A única coisa que o separa de outros extremismos igualmente absurdos é que passa em horário nobre e usa gravata.

publicado no esquerda.net

23 de abril de 2011

se na rua um sr da troika te oferecer um doce não aceites (é venenoso)!

É ver as noticias para perceber as consequências das políticas de austeridade.
Na Grécia, além da crise social que estas medidas criaram, o défice não melhorou, a divida aumenta a cada dia que passa assim como o desemprego. O prometido crescimento, nem vê-lo.
a reestruturação da divida é a única opção para os gregos, mas a comissão europeia e o fmi continuam a rejeitar essa possibilidade.

Até que provem o contrário a situação dos Irlandeses não é melhor. Têm a vantagem de não ter precisado de ir ao mercado para se financiar no curto prazo, como a Grécia, mas de resto já começamos a ver o o rasto da austeridade. as condições do empréstimo à Irlanda não são suportáveis, como se viu, tal como as impostas à Grécia e em breve a Portugal.

As políticas da Comissão Europeia, apoiada pelo FMI, já foram implementadas em 2 países, em momentos não coincidentes, mas com resultados semelhantes. O que nos faz pensar... mas eles não aprenderam nada?!

Com austeridade não há crescimento.

Sem crescimento não é possivel pagar a dívida, muito menos os juros especulativos dos mercados ou um bocado menos especulativos do FEEF/FMI.

Sem pagar a divida as hipóteses são:

1) reestruturar (renegociar prazos e juros, auditar a divida para saber o que deve ser pago e o que é pura especulação)
2) simplesmente não pagar(com as consequências que isso acarreta);
3) ficar dependente de empréstimos do FEEF/FMI contra mais medidas de austeridade que impedem o crescimento e o pagamento de divida futura.

A escolha da troika de lá (BCE/FMI/CE) e da troika de cá (PS/PSD/CDS) é, inevitavelmente, o numero 3. Façam a vossa.


31 de março de 2011

sacrifique-se a economia

O Governo Irlandês vai, muito provavelmente, ser forçado a nacionalizar o Irish Life & Permanent, a única instituição financeira que à partida não precisaria de ser nacionalizada.
A injecção de capitais públicos na industria financeira irlandesa ascende a 46 mil milhões - para quem não tem noção da ordem de grandeza, é MUITO DINHEIRO, equivale a 1/4 do PIB português.

A Irlanda foi um bom aluno - cumpriu as ordens do défice, reduziu salários e seguiu a receita FMI deste o inicio - mas os juros no mercado secundário não pararam de subir, e o PIB não parou de encolher. A situação nos mercados financeiros está longe de estar resolvida e deve-se em parte à excessiva liberalização do sistema financeiro existente antes da crise.
A Islândia contornou o FMI. Recusou as condições impostas e implementou as suas. Fez um referendo e decidiu não pagar as dividas do sector financeiro ao exterior, tendo reestruturado as restantes.

Se o FMI não resolve o problema da divida, aumenta o desemprego e a pobreza. Se não resolve o problema dos juros, que continuam a aumentar na Irlanda, nem do crescimento, então para que serve? Na mesma lógica, para que servem as imposições da Comissão Europeia através do fundo de estabilização que, em coligação com o FMI deverá intervir em Portugal?

A consolidação orçamental é um instrumento, um factor a ter em consideração. Quando se torna o objectivo último de toda a política económica, vai acabar a exigir que sacrifiquemos a economia em seu nome.

29 de março de 2011

A = C

O Banco de Portugal acabou de publicar as suas Previsões de Pimavera.

No mesmo documento em que admite uma recessão em 2011 (-1,4%) e a perda de 60 mil postos de trabalho nos próximos dois anos, o consenso da Almirante Reis recomenda mais austeridade ao país para sair da crise.

Não existe fundamento racional para o austeritarismo. As relações de causalidade são sempre complexas em economia, o facto de existir uma correlação entre A e C não significa que A tenha causado C , ou o contrário. Mas neste caso a relação é clara e inequívoca: Austeridade leva ao aprofundamento da Crise.

Ao corroer os salários e o emprego a austeridade não está a resolver nenhum dos problemas estruturais do país. O nosso problema de competitividade não está directamente relacionado com o equilíbrio das finanças públicas e muito menos com a evolução dos salários.

Para a determinação da competitividade concorrem outros custos (como a energia) e a adopção de uma moeda forte, excessivamente valorizada em relação ao escudo, que introduz um desequilíbrio na proporção entre transaccionáveis e não transaccionáveis produzidos. A dependência excessiva do sector não transaccionável tem ainda outra causa, senão a principal, que se prende com o continuo favorecimento por parte do Estado dos grandes grupos económicos portugueses que exploram estes sectores, muitos deles oferecidos a preço de saldo durante os processos de privatização nos anos 90.

É neste desequilíbrio que podemos encontrar uma das causas do nosso endividamento e fraco crescimento, não nos salários excessivos ou no défice orçamental. O Banco de Portugal deveria começar a olhar a identidade A = C.


22 de fevereiro de 2011

Aqui está tudo bem!

Garantiram-nos, os iluminados comentadores políticos, os editores de economia das televisões, os tecnocratas economistas e a classe política na sua generalidade que o ponto mais baixo da Crise seria durante o ano de 2009.

Será esta apenas uma verdade para o resto do mundo e uma excepção para Portugal? Sabemos que não. O valor médio do custo de vida aumenta suportado principalmente pelo aumento do preço dos bens de consumo, redução dos salários, congelamento das progressões nas carreiras, cortes nas reformas, subsídios e benefícios.

Advoga o governo (cada vez mais) minoritário que está a ser vítima dos índices internacionais que nos arrastam para baixo. É tão bom que para umas coisas, como na dos juros da dívida pública que os mercados nos coloquem no mesmo saco da Espanha, mas que depois a culpa do estado do país já passe a ser imputado à Grécia, Espanha, Itália e Irlanda.

O "governo dos três" (Sócrates, Silva Pereira e Teixeira dos Santos) parece cada vez mais barricado, entrincheirado e isolado do restante elenco ministerial, continua na sua postura de bombeiro acorrendo a todos os fogos como pode e resistindo apenas no poder por aguardar um milagre ou uma inversão brutal do rumo da economia mundial. Enquanto isso temos de gramar o discurso esquizofrénico de que está tudo bem. Está sempre tudo bem.

O que é certo é que o mundo está doente ...afectado pela maior crise sistémica de que há memória. As mentes brilhantes de Harvard e Yale com os seus orgulhosos prémios Nobel da Economia, conduziram-nos para o abismo. Os brilhantes tecnocratas mundiais que nos fazem crer que a economia é uma ciência e não um instrumento político regido por princípios matemáticos, levou o capitalismo ao suicídio assistido.

Mas que vemos nós? Como estamos a tentar ultrapassar a crise? Findo este sistema, estamos nós a implementar uma nova ordem sistémica mundial? Não... Continuamos a tentar salvar o sistema cadáver com as mesmas medidas e as mesmas políticas e pressupostos teóricos e práticos que levaram à sua morte. É como um bêbedo querer ficar sóbrio bebendo ainda mais vinho...
Mais capitalismo para salvar o capitalismo. O problema é que com estas medidas se asfixiam as populações e os tecidos produtivos, estas sim as únicas capazes de revitalizar a economia pela sua capacidade produtiva e posterior consumo. Retirando poder de compra a estas pessoas a economia estagna e num quadro como o actual acaba mesmo por regredir.

É preciso dar ouvidos à facção de economistas que defende uma acção dirigida das soluções económicas aos problemas actuais com vista ao aumento da produtividade e dinamismo económico das populações. A solução está no apoio ao povo, ao sector produtivo, na igualdade social e principalmente na igualdade e justiça económica. Esta vertente tem sido brutalmente discriminada e abafada pelos media em Portugal. Tem feito escola junto dos editores de economia dos jornais e das televisões a visão neo-liberal tecnocrata da economia de pessoas como o José Gomes Ferreira, cuja predominância na opinião pública esgota qualquer visão da economia antagónica a esta. É algo que teremos de combater e algo a que teremos de estar a tentos, mas certamente voltaremos a este assunto com outra profundidade.

Mercados, mercados financeiros, juros da dívida pública, bolsa, banca, desemprego, mercados e mais mercados ...que nojo esta tentativa global de ressuscitar o sistema que já morreu. Vamos olhar em frente e procurar alternativas, pode ser?

8 de fevereiro de 2011

O (im)pacto da competitividade e convergência

Ficámos a conhecer este fim-de-semana os planos do eixo franco-alemão para aquilo que a chamaram o “pacto de competitividade e convergência”, apresentados durante a última cimeira de líderes da União Europeia. As propostas apresentadas incluem a consagração dos défices nas constituições dos países da UME e também o fim da indexação entre salários e inflação para certos países. Os presidentes dos dois países explicaram que o objectivo é “alinhar todos os países com o mais bem sucedido”, ou seja, aplicar o modelo de governação alemã a toda a Europa.

Ao apoiar as medidas de governação propostas, o governo português está a subscrever inteiramente o modelo alemão de ajustamento através da redução dos défices e da deflação, ou seja, o ajustamento pela redução dos salários, do Estado Social e dos serviços públicos – o mesmo modelo falhado que o FMI impôs aos países em vias de desenvolvimento.
Este é um modelo falhado porque, para além de deixar os países a braços com taxas insuportáveis de desemprego e graves problemas sociais, não resolve em nada os problemas estruturais crescimento e endividamento externo das periferias da Europa.

Encontramos amiúde nos debates económicos argumentos profundamente ideológicos mascarados por uma falsa “cientificidade inquestionável”, mas há uma simples regra aritmética que parece ser propositadamente deixada de lado neste debate: no jogo dos (des)equilíbrios externos não pode haver apenas vencedores. A única forma de um país ter uma balança corrente excedentária, é haver outros que tenham um défice comercial, e o que se disputa aqui é quem tem condições para ficar do lado dos ganhadores.

Há várias justificações para a Alemanha, em conjunto com outros países da Europa, estar do lado dos vencedores, nomeadamente a sua estratégia neomercantilista (muito bem apresentada aqui por Nuno Teles) que lhe permitiu acumular excedentes, por contraponto aos défices das periferias, incapazes da mesma proeza devido aos seus problemas estruturais e também devido à sua posição cambial desfavorável no momento da entrada na zona euro.

Mas estes e outros factos económicos são propositadamente ignorados, em defesa de um “ajustamento à Letónia”, que já várias vezes foi apontada como um caso a seguir por outros países da UME.

Com o objectivo de entrar na União Monetária em 2014, a Letónia ancorou a sua moeda ao Euro em 2004. Quando, em 2008, a crise atingiu a Europa, a economia da Letónia caiu cerca de 25%. Na impossibilidade de sair da crise através de uma desvalorização da moeda (que estava ancorada ao Euro), o país implementou o mais drástico plano de desvalorização interna pela austeridade, em relação ao qual até o FMI mostrou preocupações, devido ao seu “radicalismo neoliberal”.

A estratégia escolhida pela Letónia para pagar as suas dívidas e ganhar competitividade, e que tem sido vendida como um caso a seguir, teve como consequência a destruição de 20% de emprego e do sistema de segurança social, e um massivo movimento de emigração para fugir da pobreza que, segundo o Nobel Paul Krugman, pode levar a economia da Letónia à autodestruição.

A Grande Depressão, que teve inicio com o crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929, ficou para história porque os Governos não souberam reagir atempadamente para minimizar os seus efeitos. A crise que hoje vivemos corre o risco de vir a ser histórica exactamente pelas desastrosas opções políticas de intervenção dos governos europeus.


Artigo publicado no Esquerda.net


i) A ideia de uma posição cambial desfavorável para os países periféricos no processo de integração europeia tem vindo a ser defendida por vários economistas, como João Ferreira do Amaral, e significa, em termos simples, que os países periféricos perderam capacidade de competir com outras economias devido à valorização excessiva da sua moeda no momento de entrada no euro, devido a pressões das economias fortes, como a Alemanha.

30 de novembro de 2010

Irlândia

A União Europeia aprovou no Domingo um plano de resgate à Irlanda no valor de 85 mil milhões de euros, comparticipado pelo FMI. São 35 mil milhões para salvar a banca, a adicionar aos 17 mil milhões já injectados no sistema pelo Governo Irlandês, e 50 mil milhões para o cumprimento de outras “necessidades orçamentais”, como o pagamento de juros da dívida.

A economia Irlandesa, idolatrada e referenciada pela direita liberal enquanto modelo de crescimento económico (o que, à época, lhe valeu uma visita de Paulo Portas) ruiu sob a fragilidade do seu Estado Social, a flexibilidade do mercado de trabalho e a excessiva liberalização dos mercados financeiros e de capitais.
Há quem venha afirmar convictamente que o colapso se deve unicamente à falência do sistema bancário, fruto da irresponsabilidade de meia dúzia de banqueiros especialmente gananciosos. É, sem dúvida, para além de facilitista e preguiçosa, uma análise pouco ingénua.

A fragilidade e alto risco associados ao sistema financeiro da Irlanda são o resultado do seu modelo de crescimento, que apostou na liberalização e desregulamentação dos mercados financeiros, e se fez à custa de bolhas especulativas, principalmente no sector imobiliário. A estratégia de atracção de capitais pela competição fiscal (redução dos impostos sobre as empresas) teve como resultado uma erosão das receitas do Estado e, por consequência, da sua capacidade de investimento no Estado Social. O enfraquecimento da rede pública de apoio aos mais pobres, reformados e desempregados, quando conjugado com a flexibilidade do mercado de trabalho (implementada também como parte da estratégia de atracção de capitais), tornou a economia Irlandesa pouco resiliente às crises económicas e financeiras, agravadas pelo seu próprio modelo de crescimento.

A este pesadelo em cadeia acrescenta-se o facto de todos os capitais, antes atraídos pela liberalização e crescimento do mercado Irlandês, estarem agora em fuga do país, rumo a paragens mais rentáveis.

As conclusões a retirar da experiência daquele que já foi considerado o “tigre celta” parecem óbvias, mas não são. Para solucionar o problema da Irlanda, que até agora tão bem soube aplicar todas as receitas neoliberais (e veja-se onde acabou), a União Europeia e o FMI exigem mais do mesmo.

Em troca do empréstimo de 85 mil milhões, em que praticamente metade já está destinada a tapar o buraco da banca, a uma taxa de juro de 5,8%, a Irlanda terá que implementar um plano de austeridade que pressupõe o corte nas prestações sociais, no salário mínimo, no subsídio de desemprego e nas pensões de velhice. Está também previsto o aumento da idade de reforma para os 68 anos, bem como novas medidas para flexibilizar o mercado de trabalho e liberalizar determinados sectores ainda não totalmente “competitivos”.

Para os mercados financeiros, à semelhança do que acontece em todos os outros países, resta muito pouco ou nada do ajustamento – para além de beneficiarem de injecções maciças de capital por parte dos Governos, continuam a poder financiar-se a taxas de 1% junto do Banco Central, sem qualquer tipo de contrapartidas.

Porquê receitar a um doente o medicamento que comprovadamente o pôs de rastos? Não há qualquer razão lógica para o fazer, a não ser que exista uma outra agenda, com outros objectivos, nomeadamente o de baixar os “custos” do trabalho, facilitar os despedimentos e proteger o lobby financeiro. É a agenda do FMI e da União Europeia.

Sobre a ortodoxia das soluções apresentadas, Krugman escrevia esta semana numa provocação acerca da Irlanda e da Islândia:

“Em síntese, a Irlanda tem sido ortodoxa e responsável – garantindo todas as dívidas, adoptando uma austeridade selvagem para tentar pagar os custos dessas garantias e, claro, permanecendo no euro. A Islândia tem sido heterodoxa: controlos de capitais, desvalorização e muita reestruturação da dívida – notem a formulação adorável do FMI (...) sobre como 'a bancarrota privada levou a um declínio significativo da dívida externa'. Recuperação através da bancarrota. A sério. E esta: a heterodoxia está a funcionar melhor do que a ortododoxia.” (tirado daqui)

O caminho das políticas neoliberais para sair da crise já provou estar errado. Tiremos as devidas lições da situação Irlandesa, contra o austeritarismo que nos impõem a troco de apenas mais crise.
Artigo publicado no esquerda.net

26 de outubro de 2010

"eu bem tinha avisado"



Há por aí uma ordem de economistas a dominar as nossas praças que insistem neste tipo de argumentos:




A lógica é esta:
Temos um PEC, que impõe medidas de austeridade que conduzem à recessão. Para resolver o problema impomos novas medidas de austeridade. Não é preciso ser sequer economista para perceber que as contas não batem certo!
Economistas consagrados, todos os dias chamados a emitir a sua opinião sobre o estado de (des)graça do nosso país, confundem défice com recessão e ignoram, irresponsável e inconsequentemente, o carácter pró cíclico das medidas que defendem.
Perante a pressão dos mercados financeiros e das potências europeias exigem cortes salariais, menos investimento público e prestações sociais. Quebram não só o poder de compra das famílias mas também as suas possibilidades de guardar algum dinheiro no final do mês. Mas advogam mais dinamismo na economia e poupança interna. Dizem que a economia não cresce mas não lhes vemos uma proposta que vá em direcção contrária. Nunca houve um plano industrial, uma estratégia que fosse. Levantam-se contra o despesismo mas quando tiveram a possibilidade de cortar nas "despesas supérfluas e de luxo", porque muitos deles já foram executivo, não o fizeram.
Os nossos economistas defendem a austeridade como solução para a recessão trazida pela austeridade. Tenho a certeza que quando ela chegar (e a doer) dirão “eu bem tinha avisado”.

29 de setembro de 2010

Os bancos que banquem


Ainda não há muito tempo pudemos ler e ouvir o Presidente da Associação Portuguesa de Bancos a alertar para a frágil situação da banca em Portugal e para a inevitabilidade de uma redução nos níveis de crédito à economia (e aumento dos spreads). Tendência esta acentuada pelo esforço no cumprimento das novas regras internacionais em termos de requisitos de capital. Apesar de preocupantes, estas declarações alarmistas sobre a situação da banca portuguesa não parecem ter um reflexo directo no seu desempenho, a avaliar pelos lucros apresentados nos últimos meses.

É verdade que a banca tem tido dificuldade em obter financiamento no mercado interbancário. No entanto, embora os níveis de endividamento externo sejam elevados (cerca de 55% da dívida total ao exterior pertence ao sector bancário), os analistas são unânimes em afirmar que a situação real dos bancos portugueses está longe de ser desesperante. Aparentemente, mais do que por uma análise real dos seus balanços, os ratings da banca portuguesa estão a descer devido à reputação do país nos mercados internacionais. O mesmo se passa com o Estado português que, independentemente da real situação das suas contas, tem sofrido com as bolhas especulativa e de expectativas que se criaram em torno da sua solvabilidade.

Mas esta é a única semelhança entre a situação da banca e do Estado. De resto, a forma como ambos têm enfrentado esta crise, as suas responsabilidades nela e também as consequências, divergem em tudo. Por causa dos seus défices os Estados estão a implementar programas de austeridade que visam a “consolidação” das contas públicas através do aumento dos impostos, da redução de prestações sociais e dos salários. Ao mesmo tempo que os trabalhadores sofrem para pagar uma dívida que não lhes diz respeito, os especuladores internacionais apostam na falência do Estado, fazendo com que os juros da divida portuguesa aumentem e ganhando dinheiro com isso. Mais juros significam mais dívida no futuro. O aumento dos juros, que se encontram nos 6.420%, significa simplesmente que há mais especuladores a lucrar com a nossa dívida pública e que o país não está em condições de contrariar essa tendência. Prova disto mesmo é o facto de a procura de obrigações portuguesas ter excedido a oferta 4,9 vezes.

Os bancos, tal como os países, também precisam de financiamento e de se conseguir recapitalizar. A diferença é que, ao invés de ter de se sujeitar às taxas praticadas no mercado, a banca pode facilmente pedir ao Banco Central Europeu, que empresta a 1%. Como garantia pelo empréstimo concedido, os bancos podem entregar dívida pública das periferias, obrigações de empresas e até mesmo títulos hipotecários. Segundo o Expresso, a divida dos bancos ao BCE já atingiu os 30% do PIB.

Com uma parte do capital que é fornecido pelo BCE e que custa 1%, os bancos compram dívida pública, que paga juros de 6.4%, encaixando o lucro da operação. Quer isto dizer que a banca se está a encher de divida pública dos países da periferia? Não necessariamente, uma vez que, ao mesmo tempo que empresta capital, o BCE também está a comprar títulos de divida pública aos bancos (mas não directamente aos países).

Através destas operações, possíveis devido à actuação do BCE, os bancos estão a recapitalizar-se e a equilibrar os seus balanços. Existem outras formas de o fazer, que também estão a ser postas em prática: reduzir os níveis de crédito à economia, aumentar spreads e comissões bancárias e explorar ao máximo as técnicas de planeamento fiscal para pagar menos IRC (a taxa efectiva da banca, segundo a própria APB, situa-se nos 5%). Independentemente do método utilizado, fica bem claro que o ajustamento das contas da banca portuguesa também está a ser feito à custa dos impostos e dos salários dos trabalhadores e dos mais pobres. E foi esse o significado da mensagem do presidente da Associação Portuguesa de Bancos.

Uma boa noticia para os bancos nacionais é que existe ainda um outro mecanismo para melhorar os seus indicadores de capital: a redução das margens de lucro. Dói mais, é verdade, mas que doa antes a eles que a nós.

artigo publicado no esquerda.net

16 de setembro de 2010

o monstro

Partilho convosco uma noticia do Jornal de Negócios de 2ª feira:

"Vender lixo está mais barato"

"Enquanto os países "periféricos" enfrentam custos de endividamento cada vez mais elevados para colocar dívida no mercado, os preços para emitir as chamadas "junk bonds" já caiu mais de metade face a 2009. A procura por activos com maiores rentabilidades tem levado os investidores a trocar divida dos Estados com maiores problemas financeiros pelas "junk bonds", obrigações de empresas classificadas como "lixo"."
Mais à frente ficamos ainda a saber que o custo de financiamento destas empresas que emitem "junk bonds" recuaram para menos de metade do registado no ano passado.

Antes de mais, clarificar conceitos. "junk bonds" são obrigações de empresas que foram classificadas como muito arriscadas, ou seja, com elevado risco de falência. Quando uma empresa emite obrigações está basicamente a pedir dinheiro emprestado aos investidores, em troca do pagamento de uma taxa de juro (funciona como os titulo de divida publica, mas para empresas privadas).

O que está a acontecer é: para ter mais lucro, os investidores privados estão a vender os títulos de divida pública dos países periféricos que têm em carteira, e a trocá-los por estes activos de alto risco ('junk bonds') que oferecem taxas de juro ligeiramente superiores (por quanto tempo?).

Como estamos num mercado, e porque há menos investidores interessados nos seus titulos, os países vao ter que pagar mais para conseguir vender divida pública, por outro lado, como há maior procura para as 'junk', o juro que as empresas vão ter que pagar para se financiar desce.

De cada vez que os nossos juros sobem, a divida futura também aumenta. E depois? Bom, depois aumentam-se impostos, corta-se nos subsídios de desemprego, nas bolsas de estudo, privatizam-se sectores estratégicos . . . um sem fim de medidas milagrosas para resolver o problema do aumento da dívida. Para compor o ramalhete ainda nos dizem que a culpa é do Estado Social, é demasiado generoso....os salários?! muito altos... E os desempregados? uns preguiçosos!

A prioridade não é combater a especulação ou libertar o financiamento dos países das lógicas perfeitamente irracionais de mercado. O objectivo é diminuir os custos de trabalho e o "Estado monstro". E os nosso impostos sobem por isso, não para financiar o Estado que é "monstro", não para financiar a saúde e a educação, mas para pagar o aumento dos juros no mercado. Quem é a besta afinal?

Demasiada Democracia é prejudicial aos mercados. Dificulta a apropriação dos rendimentos do trabalho, aumenta os custos e limita as taxas de lucro. Demasiado mercado, inversamente, é prejudicial à Democracia. Aumenta as desigualdades, reduz o espaço de debate politico, cria desemprego…

Existe tal coisa, “demasiada democracia”?! há que ache que sim!

9 de setembro de 2010

causalidades

o Jornal de Negócios escreve hoje:

"O cenário de uma desaceleração forte e prolongada está no horizonte, avisa a OCDE. Governos devem estar preparados para suavizar a redução dos défices e voltar a ajudar a economia, e bancos centrais devem equacionar taxas nulas "durante um longo período"."


Basicamente o que alguns ( já muitos) andam a dizer há meses.
A questão é que, não só a desaceleração da economia é razão para por de lado a obsessão pelo défice, como é o resultado desta propria obsessão. Ainda há quem não veja isto? sim, sim, sim . . .

24 de junho de 2010

Em que Mundo vive Passos Coelho?



Algumas pessoas devem pensar que eu tenho um preconceito ideológico muito forte contra Passos Coelho que leva a escrever quase sempre para ao blogue sobre ele. É verdade, tenho e com imenso orgulho de o ter. Passos Coelho, além de ser um liberal demagogo, o político do marketing e da imagem que a única coisa que tem para oferecer é uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, está-se também a formar como o político que, a seguir a Socrates, mais atrasos civilizacionais pode vir a impor ao país.

A primeira coisa que teve para oferecer ao debate das ideias num tempo de crise financeira, económica, social, de tanta e tanta miséria foi a revisão constitucional. A seguir sucederam-se-lhe algumas pseudo reformas que nem se quer soube concretizar teoricamente (outras que são um perfeito absurdo como a regra de 5 por 1 na função pública). Seguidamente alia-se ao Governo Sócrates e impõe o PEC 1, o PEC 2 e o PEC 3. Posteriormente quis mexer na legislação laboram e penalizar milhares de trabalhadores precários, condenando-os a mais instabilidade e à perda de ainda mais direitos. E agora joga mais um trunfo:

Quer acabar com a garantia constitucional de que a Educação e a Saúde sejam tendencialmente gratuitas e suportadas pelo Estado.

Podemos discordar do papel estratégico do Estado em todas as áreas, agora no garante de condições de Saúde de um sistema de educação público que responda às pessoas pode-se por em causa o papel do Estado?

Isto não só roça a irresponsabilidade como é uma atitude de absoluto desrespeito porque quem neste país não tem condições para encher os bolsos dos donos de hospitais privados e de colégios.

Em que Mundo é que este homem vive?????

23 de junho de 2010

Em que mês Abril é mais competitivo?



O Partido Socialista aprovou na semana passada uma iniciativa para acabar com alguns feriados e transferir outros para junto do fim-de-semana. De acordo com os deputados socialistas, o problema da economia portuguesa está na falta de produtividade e o problema do fraco desempenho produtivo na preguiça do povo, que trabalha pouco e ganha demais.
Quanto ao pouco que se trabalha, arrumemos o assunto de vez:

Número médio de horas de trabalho anual por trabalhador (2008) – OCDE


O PS parece ter descoberto, no 25 de Abril e no 1º de Maio, a razão do nosso pobre desempenho económico, e não vale a pena procurar destinos “cá dentro”, porque o mais provável é não haver sequer subsídio de férias.
Subitamente, as conquistas de Abril e de Maio são contrárias à produtividade, à competitividade e ao crescimento. Por isso, cortam-se salários e prestações sociais, aumentam-se impostos e facilitam-se despedimentos. A estratégia é diminuir os custos do trabalho de forma a aumentar a competitividade nas exportações e a garantir que a consolidação orçamental se faz apenas pelo lado dos salários, sem tocar nos mercados financeiros, nos lucros das empresas ou nas grandes fortunas.
Contudo, ser competitivo não significa necessariamente ser produtivo e muito menos é sinónimo de desenvolvimento económico e de qualidade de vida.

O resto do artigo está no site do esquerda.net e pode ser lido aqui

17 de junho de 2010

Espanha: No futebol como na economia


Depois de Angela Merkel foi Ottmar Hitzfeld que pôs a Espanha em sentido. Podemos ver na foto o esforço que ele faz para "agarrar" o Euro com as duas mãos, não vão os PIGS deixá-lo cair.

"None of the governance reform proposals that are currently discussed even attempt to answer the questions of how Spain is going to get out of this hole, and how the competitiveness gap between the north and the south of the eurozone is going to be closed."
diz Paul Krugman no seu blog.

Vale a pena ler para desenjoar do futebol.

26 de maio de 2010

Momento AXE



Empresas lusas em Wall Street tentam "vender melhor Portugal" a grandes investidores: Em Wall Street, representantes das empresas portuguesas cotadas no PSI20 estão envolvidos numa "acção de charme", num dia em que também se tenta explicar as medidas que o seu Governo tem tomado (1)

Presidente do Banco Alimentar diz que há cada vez mais famílias a pedir ajuda (2)

Juntando a isto o endividamento em 135% por parte das famílias portuguesas, os 2 milhões de pobres, os mais de 10% de desempregados, o milhão de desempregados...

"Espero" que tenham levado desodorizante e perfume suficiente.