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3 de novembro de 2011

Isto não é neoliberalismo!

EUROPE-PEOPLES-RISE-UP111Compreender os fenómenos políticos que se entrelaçam na Grécia são a chave para apreender as mutações dos nossos tempos.

Atenas e os seus territórios circundantes são identificados como o berço da civilização como o concebemos na esfera ocidental. Não é por acaso, que o Império Romano quando invade Atenas é aculturado pelos ocupados.

Mas o que no passado longínquo serviu de ensaio inspirador para novas experiências democráticas e de progressos científico, cultural e intelectual é contemporaneamente um imenso laboratório político e económico.

Vamos por partes. A soberania popular, a democracia pluripartidária, as liberdades colectivas e individuais e o ideário do progresso e desenvolvimento constante formaram o grosso do espírito político dos Estados no período pós-guerra. O Ocidente adoptara esse modelo como o seu e atribuiu-lhe carácter normativo, todos os outros seriam embutidos de vícios e de comportamentos desviantes. O triunfo do neoliberalismo e consequentemente do neoconservadorismo, vieram alterar algumas peças a esse modelo, apesar das transformações (essencialmente na criação de novos espaços de acumulação e na desregulação total das relações sociais) o essencial como modelo para o imaginário colectivo manteve-se.

A explosão da bolha imobiliária, as crises financeira e das dívidas soberanas, deram o mote para a procura de um novo modelo social e económico capitalista, é arriscado totalizá-lo mas podemos perfeitamente identificar os rumos que pretende tomar e defini-lo como austeritário – austeridade e autoridade permanente no campo social e económico. Se o capitalismo de pacto capital/trabalho do pós-guerra foi sucedido pelo neoliberalismo (e demais derivações), este último está de todo em fase de mutação para ganhar forma no supracitado. E se o anterior foi testado no Chile, podemos afirmar que o posterior tem como sua primeira grande experiência a Grécia.

O país encontra-se há dois anos sob um apertado plano de austeridade, o erário público foi completamente esventrado, os direitos sociais aniquilados, o tecido produtivo destruído e o desemprego encontra-se nos 16%. O panorama geral é de total regressão civilizacional e de descrença global nas orientações económicas impostas pelo governo grego e pelas instâncias internacionais e europeias. Diversas sondagens demonstram que larga maioria do povo rejeita as receitas aplicadas enquanto a popularidade do executivo nunca esteve tão baixa. Ao que se somam imensas greves gerais, protestos, tumultos e uma luta popular constante.

No calor desta conjuntura Georgios Papandreu, anunciou a realização de um referendo sobre a nova “ajuda” financeira. Os mercados, o eixo franco-alemão, partes do próprio governo e do PASOK não gostaram. O primeiro-ministro retirou a proposta e anunciou negociações para a criação de um governo de unidade nacional (em princípio constituído pelo PASOK – no governo - e pela Nova Democracia – oposição de direita).

Regressemos ao modelo. A Grécia assemelha-se a uma província colonial, comandada pela metrópole Berlim-Paris, mercados financeiros e instituições estrangeiras, as suas decisões políticas autónomas nada valem se não condizerem com as orientações exteriores. A soberania popular é meramente fictícia. Os direitos sociais e económicos são puramente formais e o mais relevante de tudo, o desenvolvimento progressivo e a promessa de um futuro melhor foi substituído pelo empobrecimento necessário e sacrifício geracional, o que não se coaduna a longo prazo com a convivência democrática. É a sua completa antítese e a demarcação mais clarividente da ideologia neoliberal - que sempre prometeu futuros gloriosos, baseados nas leis do mercado, na iniciativa privada, desde conjugada com esforço e mérito.

Apenas regimes ditatoriais conseguem governar a longo prazo, com este grau de agressividade e brutalidade, contra o seu povo, sustendo o descontentamento com repressão, perseguição, medo e terror, a história assim o demonstra cruelmente.

Quer isto dizer que regressaremos aos inícios do séc.XX? A história não se repete e o determinismo puro como grelha analítica não ajuda. No entanto, os rumores de movimentações de generais, aliados a avisos passados da CIA sobre tentativas de golpe de estado, não auguram nada de bom. Mas se o muscular institucional é inevitável para manter este programa de extorsão social - os governos de unidade nacional em situações de crise são uma manifestação clara disso – a redacção do futuro às massas pertence.

Uma coisa é certa, isto não é neoliberalismo!

Publicado na comuna.net

3 de agosto de 2011

cegueira ideológica


Depois de ter caído o carmo e a trindade devido à descida do rating da República e toda a direita ter mudado de posição sobre as agências de notação (| e ||), a Europa do directório ter acordado a reestruturação da dívida grega (mesmo que tenha sido ao sabor dos credores) há quem resista aos sinais dos tempos e continue apostado a resistir com a sua vulgata.

O que me leva a duas possíveis conclusões, o editorial de política da revista focus está envolto numa bolha actimel que a impede apreender os dados do exterior ou está apostado em ser o Vaticano do liberalismo português.

"valha-nos" Bruno Faria Lopes:

Agência de rating, reestruturação da dívida e Europa: o que antes era a coutada da esquerda radical está a entrar na opinião dominante do regime

Moody's. A direita indigna-se, a esquerda diz "bem-vindos a bordo"

12 de janeiro de 2011

"esquerda democrática" dizem eles... uma prenda de natal atrasada para A.Santos Silva

Augusto Santos Silva tem-se apresentado como ideólogo da derrapagem mais à direita que o Partido Socialista já conheceu. Há uns meses editou um livro onde sumariou a base teórica do que gosta de aclamar de esquerda democrática, contando com o selo de qualidade do Câmara Corporativa, o que é sempre um bom indicador do que de liberal se afirma dessas bandas.

Lido o livro, a Revista Comuna decidiu escrutinar a doutrina do ministro, o resultado dessa tarefa foi hoje publicado, podendo ser lido aqui

28 de outubro de 2010

Orçamento modelo T


As agências de comunicação ao serviço do PS e do PSD, vulgo comunicação social vieram contaminar todo o debate sobre o orçamento de Estado.

Desde o início que há uma ideia abertamente transmitida: Ou há este orçamento PS com ou sem voto favorável do PSD, ou o orçamento será gerido por duodécimos.
Propositadamente ou não, a discussão ainda não incidiu sobre que propostas apresentam os outros partidos, inclusivé o PSD poderia apresentar um orçamento diferente e não apenas umas alterações que o mais significativo que têm é o seu cheiro eleitoralista.

Chegados aqui podemos partir para outra questão: as agências de comunicação, vulgo comunicação social, notíciam de megafone na mão que este orçamento é apenas para acalmar os mercados, aliás tal como todo o governo e opinion-makers do establishment afirmam "ter" de ser...

Mas então quando os mercados perceberem que o orçamento é uma leviana maquilhada de senhora séria será que vão acalmar?
Não seria melhor ter um orçamento sério em vez de um que pareça sério?

Entretanto os mais pessimistas que fiquem descansados, a senhora Merkel já tem um orçamento para nós feito á medida dos seus interesses e preocupações.

"Portugal pode ter o orçamento que quiser, desde que seja neo-liberal."



*parabéns ao José Vitor Malheiros por ser um dos verdadeiros jornalistas que resistem.
Para quem ainda não leu recomendo o seu artigo sobre a comunicação social.

12 de junho de 2010

Sobre a constitucionalização do défice: terceira via oneway ticket only



Luís Amado insiste de forma veemente na constitucionalização do défice, pois, quando a Alemanha o fez, durante o governo de Bloco de Central, "deu-se bom sinal aos mercados".

Esta afirmação do Ministro dos Negócios Estrangeiros deixa-nos algo bem claro: a social-democracia europeia já nada tem de social nem de democracia.

Quando se abdica da capacidade de endividamento do Estado, abdica-se igualmente de políticas sociais, de serviços públicos universais e do papel interventivo do Estado na economia.

Por outro lado, quando se pretende constitucionalizar o limite ao endividamento para fazer sorrir o mercado, em ano de celebração do Centenário da República, põe-se na gaveta um valor essencial do republicanismo: o primado da política sobre a economia. Optando-se claramente pela ditadura do mercado sob todos os outros aspectos da vida. São os princípios do contratualismo do Estado que são postos em causa, a vontade geral e a soberania popular que são desclassificados enquanto que a irracionalidade do mercado é posta no pódio.