31 de março de 2011

eles vão a todas


Podem tirar os Simpsons da luta mas não nunca vão tirar a luta aos Simpsons!


Roubada daqui, a propósito disto

A Evasão Fiscal Instalada




Os traços gerais das estatísticas de IRC que foram ontem divulgadas pela administração mostram a crise de 2009 e a evasão fiscal instalada.

Apesar do número de impresas continuar a subir, em 2009 desceu para 31% o número das que declaram ter tido actividade para pagar IRC. A receita fiscal está concentrada, com 2% das empresas a pagar três quartos do IRC cobrado. Só em 2009, os prejuízos fiscais atingiram os 12 mil milhões de euros. Temos que relembrar, que com as actuais medidas de austeridade, as empresas e a Banca contribuem 1045 milhões de euros, face aos 1487,5 milhões de euros retirado aos pensionistas.

sacrifique-se a economia

O Governo Irlandês vai, muito provavelmente, ser forçado a nacionalizar o Irish Life & Permanent, a única instituição financeira que à partida não precisaria de ser nacionalizada.
A injecção de capitais públicos na industria financeira irlandesa ascende a 46 mil milhões - para quem não tem noção da ordem de grandeza, é MUITO DINHEIRO, equivale a 1/4 do PIB português.

A Irlanda foi um bom aluno - cumpriu as ordens do défice, reduziu salários e seguiu a receita FMI deste o inicio - mas os juros no mercado secundário não pararam de subir, e o PIB não parou de encolher. A situação nos mercados financeiros está longe de estar resolvida e deve-se em parte à excessiva liberalização do sistema financeiro existente antes da crise.
A Islândia contornou o FMI. Recusou as condições impostas e implementou as suas. Fez um referendo e decidiu não pagar as dividas do sector financeiro ao exterior, tendo reestruturado as restantes.

Se o FMI não resolve o problema da divida, aumenta o desemprego e a pobreza. Se não resolve o problema dos juros, que continuam a aumentar na Irlanda, nem do crescimento, então para que serve? Na mesma lógica, para que servem as imposições da Comissão Europeia através do fundo de estabilização que, em coligação com o FMI deverá intervir em Portugal?

A consolidação orçamental é um instrumento, um factor a ter em consideração. Quando se torna o objectivo último de toda a política económica, vai acabar a exigir que sacrifiquemos a economia em seu nome.

30 de março de 2011

1088 Vozes!


Vale a pena ler as folhas que uma multidão levou à manifestação da geração à rasca no dia 12 de Março! Os organizadores que as recolheram no Porto disponibilizaram-nas aqui, conjuntamente com uma análise estatística – iniciativa inteligente e consequente. Entre folhas A4, cartazes, desenhos, panfletos e afins, são 1088 documentos. São histórias, relatos e desabafos mas são, sobretudo, um retrato dos motivos de quem sentiu que já era hora de sair à rua.

Motivos diversos de gente diversa, da indignação de quem pergunta “porquê não tenho direito a subsídio desemprego se sempre trabalhei?” ou “adoeci e sou pago a recibos verdes, vou viver de ar?”, passando pela afirmação do direito à luta “ luto por mim, pelos meus filhos e pelos meus amigos” até à proposta concreta, “fim dos falsos recibos verdes”, “fim dos estágios não remunerados”. São testemunhos e propostas que falam entre si, comunicam e se completam, que apontam problemas: a precariedade, o desemprego, os salários baixos, a falta de apoios sociais, um sistema político carente de democracia e transparência.

O que a manifestação de 12 de Março mostrou e que estas folhas (muitas delas escritas ali mesmo, no calor emocional dos Aliados) vêm reforçar é que é na precariedade e no desemprego que se joga hoje o destino de um modelo social e económico, modelo que dita a vida das pessoas, pessoas que nesse dia tiveram uma voz a dizer sobre esse modelo. O 12 de Março inverteu a lógica própria da precariedade e do desemprego que é a individualização e a divisão dos trabalhadores, ganhar a rua foi, naquele dia, comungar e perceber uma identidade que nos é arrancada no trabalho, no ensino e na vida. Naquele dia ser precário e desempregado deixou de ser apenas a nossa realidade pessoal, do colega do lado ou do familiar, para passar a ser uma identidade colectiva e visível. A espera amarga no centro de emprego ou a pesquisa de emprego desesperançada e solitária transformou-se numa nítida sensação de partilha e união pela mudança.

Construir essa identidade é um primeiro passo. O segundo é organizar a indignação e confrontar quem dita as regras. Uma organização da diversidade de quem se encontra em pontos comuns, pontos para ir à luta pelo direito ao trabalho com direitos.

Os (perigosos) Simpsons!


Três cadeias de televisão, da Alemanha, Áustria e Suíça, estão a rever e censurar capítulos da série Os Simpsons que têm alusões a acidentes nucleares. O lobby nuclear nem os desenhos animados respeita.
frase do dia aqui

Mercados: Religião oficial do Estado Português

“Uma mudança de Governo "aumentaria a confiança de Portugal" junto dos mercados e dos demais governos europeus. A convicção é do secretário-geral do Partido Popular Europeu (PPE), a família política do PSD, para quem seria positivo uma coligação que incluísse o PS, mas sem José Sócrates.”


Os mercados são hoje uma divindade que veio substituir as anteriores religiões em termos de definição e controle do poder político.
Os tempos mudam, o clero é hoje representado pela finança e pela banca, são os que definem a ética, a moral e os valores, actuando como a maior força conservadora e castradora da evolução social.
Mantêm a sociedade aprisionada no paradigma da exploração e decretam o fim da história.
Os partidos que defendem a actual linha de pensamento dominante deixaram de ser agentes políticos para passarem a sacerdotes dos mercados.
Passos Coelho e José Sócrates receberam as credenciais em Bruxelas que lhes conferem a ambos o poder de governar o país, segundo as leis desta religião.
São os dois bispos que concorrem para o lugar de cardeal patriarca.
PS e PSD trazem a mesma doutrina, o evangelista é que difere.
Citando Marx: “o governo não é francês, nem inglês nem alemão; o governo é o capital”.
Nas próximas eleições é impreterível que os portugueses não votem no seu evangelista preferido, mas que votem por um Estado Laico.

A cisão faz a união?



Para Gil Garcia parece que sim! Não interessam as declarações de Jerónimo:" Temos divergências em questões de fundo, em relação à União Europeia e em matéria económica, designadamente.". A unidade com um PCP que não a quer deve ser imposta pela criação de "uma nova força política que obrigue o PCP e BE à unidade". Será desta a saída dos que nunca entraram?

Há namoros que são eternos

Parabéns! Lenine



Um ano depois do primeiro post e depois de mais de 700 posts, convido-vos a comemorar este primeiro aniversário adeusleninista vendo o filme ;)

Pensei em escrever algo mais demorado sobre o primeiro aniversário mas entre tantas lutas e reflexões a que o momento obriga, deixo apenas este convite a (re)ver o filme (ou no mínimo to trailer)e uma frase que sugiro para acompanhar o visionamento do filme "To repeat Lenin is to repeat not what Lenin did, but what he failed to do, his missed opportunities".

Abraços às militantes e aos leitores adeusleninistas!

29 de março de 2011

para além das hipóteses académicas

Por outro lado, não há, em Portugal, uma esquerda à esquerda dos socialistas disponível para participar em soluções de poder. Uma originalidade nacional. Por essa Europa fora partidos ecologistas ou mais à esquerda mostraram, em vários momentos históricos, disponibilidade para governar. E nunca como agora essa disponibilidade foi tão urgente. O que está em causa na Europa é resistir a uma avalanche que ameaça não deixar pedra sobre pedra no edifício do Estado Social. Ser de esquerda tornou-se num sinal de radicalismo. A social-democracia consequente é hoje de uma ousadia extraordinária.

Mas Portugal tem outra originalidade, em que é acompanhado pela Alemanha e mais um ou outro país europeu: a esquerda à esquerda dos socialistas representa quase vinte por cento dos eleitores. Se quisesse usar a sua força em funções executívas teria um poder extraordinário.

Daniel Oliveira em A esquerda, o poder e o pântano

Os argumentos apesar de terem sido esgrimidos recentemente, baseiam-se em opiniões antigas e em visões já há muito repetidas.

Portanto, tudo o que se possa escrever em oposição a esta tese, será, por sua vez, igualmente repetitivo.

Só com muita dificuldade é que se poderá verdadeiramente classificar os Verdes na Alemanha e no Parlamento Europeu como uma força de esquerda. Não é por acaso que este partido fora anunciado nas anteriores eleições para o Bundestag, como o partido da nova burguesia.
Deixaram cair as suas principais propostas socialistas, tal como a retórica anti-Nato, por outro lado, participaram de uma coligação governativa com o SPD, que de esquerda também nada teve. Foram favoráveis à invasão do Afeganistão e participaram de um duro programa de cortes e de redução de direitos sociais. E veja-se lá que a governação fora tão positiva e de alternativa social que os governos sucedâneos foram, primeiro de Bloco Central SPD/CDU/CSU e depois maioria absoluta de coligação CDU/CSU/FDP. Abrindo caminho para o que hoje é a senhora Merkel. E fica no ar, uma outra questão, onde está a esquerda dos Verdes alemães quando governam o Estado de Hamburgo com os conservadores da CDU?

Há um outro caso paradigmático, o já muito discutido governo de coligação italiano entre Democratas e Comunistas. Que para além de ter cumprido com régua e esquadro o programa social-liberal, desde reformas laborais à participação da invasão do Afeganistão. Relembre-se os mais esquecidos, que o Partido Socialista e as suas personalidades se opuseram a esta barbárie bélica.
E ainda mais graves foram as consequências políticas para a alternativa de esquerda, Berlusconni não só voltou ao poder, como a Refundação Comunista teve o seu pior resultado da história, e não é por acaso que hoje se pode ler isto nas suas teses:

15.2 Per quanto riguarda le prossime elezioni politche, per le ragioni sopra esposte, non riteniamo esistano le condizioni per un comune programma di governo e per la partecipazione al medesimo della Federazione. La diversità profonda di impostazione programmatca con il PD determinerebbe per la sinistra il rischio della subalternità, oppure di una contnua confitualità.
PRIMO CONGRESSO DELLA FEDERAZIONE DELLA SINISTRA

Eu acredito que ser social-democrata hoje, seja de uma enorme ousadia, pois bem se pode procurar por um partido da Internacional Socialista que o seja, que não se encontra. Daí a extravagância e irreverência da defesa desse campo político e da proposição de coligações e entendimentos entre a ala esquerda da direita e as esquerdas. Pois, na verdade não tem grande futuro para além do orfanato ideológico e do fuzilamento político das forças sociais que se batem pela alternativa.

E que fique assente, que bem se podem rever as teses, que a conclusão é sempre a mesma, não foram as forças socialistas que empurraram os PS's para a terceira-via, as tornaram gestoras do situacionismo e fábricas de apparatchiks apolíticos. As escolhas políticas que tomaram e os traços ideológicos com que se revestiram é que as levaram a ser máquinas famintas de poder e forças simpáticas para a imposição de políticas anti-populares.

A esquerda que se tem erguido por essa Europa, é a mesma, que nega encontrar socialismo em gavetas que já não existem.

A pedido de várias famílias e do @PauloQuerido

@PauloQuerido: @ChicodeOeiras "alguém devia traduzir e mandar a todos os portugueses. Começando pelo PR e pelo líder do maior partido da oposição"

Aqui fica a minha tradução livre:

Um conselho de amigo para Portugal

Querido Portugal, daqui escreve a Irlanda. Sei que não nos conhecemos muito bem, embora tenha ouvido dizer que alguns dos nossos investidores estão por aí a cavalgar a recessão.

Podem ficar por aí um tempinho. Não quero parecer intrometido mas tenho lido umas coisas sobre ti nos jornais e acho que posso dar-te um ou outro conselho sobre o que se passa contigo e que vem aí.
A piada que corre é: sabem qual a diferença entre Portugal e Ireland? Cinco letras e seis meses.

Adiante; reparo que estás sob pressão para aceitar um resgate exterior mas os teus políticos afirmam estar determinados a não aceitar. Só, dizem eles, por cima do seus cadáveres. Na minha experiência, isso significa que está para breve, provavelmente a um Domingo.
Primeiro deixa-me explicar-te um pouco as nuances da língua Inglesa. Devido ao facto de o inglês ser a tua segunda língua, poderás pensar que as palavras “bailout” e “aid” implicam que irás contar com a ajuda dos nossos parceiros comunitários para sair das tuas actuais dificuldades.
O Inglês é a nossa primeira língua e isso foi o que pensámos que “bailout” e “aid” significavam.
Permite que te avise: não só este “bailout”, quando te for inevitavelmente imposto, não te livrará dos teus problemas actuais, como irá prolongá-los por gerações e gerações.

E ainda esperam que fiques grato. Se quiseres procurar a tradução correcta de “bailout”, sugiro que pegues no dicionário de Inglês-Português e procures palavras como: moneylending, usury, subprime mortgage, rip-of (empréstimo, usura, hipoteca, roubo). Assim terás uma tradução correcta do que te vai suceder.

Vejo também que vais mudar de governo nos próximos meses. Desculpa ter de sorrir. Sim, coloca uma demão fresquinha de tinta por cima das rachas da vossa economia, e aprecia o perfume enquanto dura.

Nós também tivemos um governo novo, aliás até é divertido ao princípio.
O novo governo chegará envolto numa leve euforia. Terá prometido todo o tipo de coisas durante a campanha sobre deitar fogo aos capitalistas e assim enquanto a UE sorri benevolamente ante a converseta.

Mal tome posse, o novo governo irá à Europa tentar fazer boa figura. Poderás até ganhar umas partidas contra o teu velho inimigo, seja ele quem for, ou atrair visitas de alguns dignitários estrangeiros como o Papa ou isso. Vai haver boas vibrações no ar e toda a gente vai refugiar-se nessa ilusão por um tempo.

Aproveita enquanto puderes, Portugal. Porque assim que a diversão acabar a realidade vai intrometer-se no teu caminho. A única coisa boa disto tudo é que jogar golfe se tornou muito atractivo aqui. Espero que o mesmo sucededa por aí e poderemos então combinar um jogo.

Com amor

Irlanda

O original aqui

A = C

O Banco de Portugal acabou de publicar as suas Previsões de Pimavera.

No mesmo documento em que admite uma recessão em 2011 (-1,4%) e a perda de 60 mil postos de trabalho nos próximos dois anos, o consenso da Almirante Reis recomenda mais austeridade ao país para sair da crise.

Não existe fundamento racional para o austeritarismo. As relações de causalidade são sempre complexas em economia, o facto de existir uma correlação entre A e C não significa que A tenha causado C , ou o contrário. Mas neste caso a relação é clara e inequívoca: Austeridade leva ao aprofundamento da Crise.

Ao corroer os salários e o emprego a austeridade não está a resolver nenhum dos problemas estruturais do país. O nosso problema de competitividade não está directamente relacionado com o equilíbrio das finanças públicas e muito menos com a evolução dos salários.

Para a determinação da competitividade concorrem outros custos (como a energia) e a adopção de uma moeda forte, excessivamente valorizada em relação ao escudo, que introduz um desequilíbrio na proporção entre transaccionáveis e não transaccionáveis produzidos. A dependência excessiva do sector não transaccionável tem ainda outra causa, senão a principal, que se prende com o continuo favorecimento por parte do Estado dos grandes grupos económicos portugueses que exploram estes sectores, muitos deles oferecidos a preço de saldo durante os processos de privatização nos anos 90.

É neste desequilíbrio que podemos encontrar uma das causas do nosso endividamento e fraco crescimento, não nos salários excessivos ou no défice orçamental. O Banco de Portugal deveria começar a olhar a identidade A = C.


Socialaicos

A empresa dona desta rede social diz que "o seu principal objectivo procura promover o encontro entre políticos, políticas e cidadãos".

É só a mim que isto soa a imbecilidade?


Bit of friendly advice, Portugal

Dear Portugal, this is Ireland here. I know we don't know each other very well, though I hear some of our developers are down with you riding out the recession.

They could be there for a while. Anyway, I don't mean to intrude but I've been reading about you in the papers and it strikes me that I might be able to offer you a bit of advice on where you are at and what lies ahead. As the joke now goes, what's the difference between Portugal and Ireland? Five letters and six months.

Anyway, I notice now that you are under pressure to accept a bailout but your politicians are claiming to be determined not to take it. It will, they say, be over their dead bodies. In my experience that means you'll be getting a bailout soon, probably on a Sunday. First let me give you a tip on the nuances of the English language. Given that English is your second language, you may think that the words 'bailout' and 'aid' imply that you will be getting help from our European brethren to get you out of your current difficulties. English is our first language and that's what we thought bailout and aid meant. Allow me to warn you, not only will this bailout, when it is inevit-ably forced on you, not get you out of your current troubles, it will actually prolong your troubles for generations to come.

For this you will be expected to be grateful. If you want to look up the proper Portuguese for bailout, I would suggest you get your English-Portuguese dictionary and look up words like: moneylending, usury, subprime mortgage, rip-off. This will give you a more accurate translation of what will be happening you.

I see also that you are going to change your government in the next couple of months. You will forgive me that I allowed myself a little smile about that. By all means do put a fresh coat of paint over the subsidence cracks in your economy. And by all means enjoy the smell of fresh paint for a while.

We got ourselves a new Government too and it is a nice diversion for a few weeks. What you will find is that the new government will come in amidst a slight euphoria from the people. The new government will have made all kinds of promises during the election campaign about burning bondholders and whatnot and the EU will smile benignly on while all that loose talk goes on.

Then, when your government gets in, they will initially go out to Europe and throw some shapes. You might even win a few sports games against your old enemy, whoever that is, and you may attract visits from foreign dignitaries like the Pope and that. There will be a real feel-good vibe in the air as everyone takes refuge in a bit of delusion for a while.

And enjoy all that while you can, Portugal. Because reality will be waiting to intrude again when all the fun dies down. The upside of it all is that the price of a game of golf has become very competitive here. Hopefully the same happens down there and we look forward to seeing you then.

Love, Ireland.

Sunday Independent


Via @brancoalmeida

Cavaco Silva garante "compromisso inequívoco" com o PEC


Alto e para o baile. Cavaco Silva vai falar.


O Presidente da República ainda não falou ao país, mas já anda a ensaiar uma resposta para os mercados internacionais. Cavaco Silva garantiu ontem à Bloomsberg que o PSD, PS e CDS vão assumir as obrigações do Estado Português.

"Os três maiores partidos asseguraram ao Presidente o seu compromisso inequívoco em relação à consolidação orçamental e os objectivos da redução do défice anunciados pelo Estado Português por forma a garantir a trajectória de sustentabilidade da dívida pública"

Se houvesse margem para dúvidas, fica bem claro que a austeridade selectiva vai-se intensificar. Austeridade ao Povo, pois claro. E os bancos, pá?


Humanismo tem de rimar com imperialismo?



A partir de amanhã, a NATO está na Líbia. Isto deve ser lido à luz do seu novo conceito estratégico, que diz repetidamente que a NATO tem recursos limitados e só intervém onde lhe interessa e onde quer que lhe interesse. O “humanismo” nunca impediu os governos "norte-atlânticos" de fazer negócios com Kadafi.

Este é apenas um breve comentário meu (também publicado aqui). Sugiro, sobre a NATO, e porque está problemática (repito) deve ser lida à luz do seu novo conceito estratégico da NATO, a (re)leitura do artigo da Joana Mortágua "O braço militar da hegemonia dos EUA" (publicado no Esquerda.net).

Garotices

PSD rejeita responsabilidade nos cortes do 'rating'

Para Marco António Costa, "o ministro Vieira da Silva anda distraído e não tem estado cá no último ano para assistir ao que se tem passado com as agências de 'rating' ou então tem memória curta que não se recorda que antes da crise ter ocorrido já uma agência tinha diminuído o 'rating'".

O líder do PSD/Porto disse mesmo que "o PSD tem tanta responsabilidade neste abaixamento do 'rating' do Estado português como tem na última tempestade que se abateu sobre o Pacífico, é exactamente o mesmo paralelo de responsabilidade".


A responsabilidade dos cortes nos ratings é do Bloco de Esquerda e da sua moção de censura, ou então da rotatividade entre BE e PCP à frente dos sucessivos governos desde 1975.
Marco António Costa, o Nuno Markl do PSD, ou anda distraído e não tem estado cá nos últimos 36 anos, ou tem memória curta e não se recorda que em todo este tempo o PSD tem contribuido largamente, em conjunto com o PS e o CDS para o actual estado do Estado.

25 de março de 2011

Queres pão?



maismenos

E eu, agora, é pá, vou almoçar, pá!



Vale a pena ouvir tudo outra vez... Sócrates não teve este humor.

"... não, não, não, não... essa dos padeiros com certeza.. aa... sim talvez, e daí talvez. talvez a aa a frequência das manifestações tivesse no subconsciente dos ministros levantado esse problema. tem razão... olhe, não me lembrava da dos padeiros... E eu, agora, é pá, vou almoçar, pá!"

(uma vez mais, foram os Homens da Luta que me recordaram isto)

O que eu fui encontrar no Facebook dos Homens da Luta



Esta noite, os Homens da Luta quiseram recordar no seu facebook o "Alerta", canção concorrente ao Festival RTP da Canção de 1975, onde mereceu o 5º lugar, com 42 pontos.

A música e interpretação são de José Mário Branco e a letra é do Grupo de Acção Cultural (GAC).

24 de março de 2011

Resumo do derby

Tristezas não pagam a dívida pública.

Caia também a governação falhada (II)


Caiu aquele que era o governo "de facto" PS/PSD/CDS, mas a governação austeritária persiste. Num golpe de salvação do que lhe sobra e para se safar, o PS voltou em força à tática da vitimização.
A esquerda parlamentar, por iniciativa do Bloco de Esquerda, censurou o Governo. Os sindicatos e comissões de trabalhadores de vários sectores, com muitas jornadas de luta, censuraram o Governo. E todas as gerações de um país precário, corporizadas em 300 mil a 400 mil pessoas nas ruas do 12 de Março, já tinham censurado o Governo e a governaçao falhada.
Todos os comentadores da direita e do centro gritavam que em nome de um qualquer "interesse nacional", não podia haver uma "crise política" que se juntasse à crise económica.
Falavam e falam de "interesse nacional" como se os interesses da maioria deste "país precário" não fossem diferentes e contrários, por exemplo (!), aos de uma certa minoria famílias portuguesas (Lima Mayer, Mello, Champalimaud, Espírito Santo, Pinto Basto, Bensaúde, Ulrich, Azevedo) a que se junta uma família angolana (a do presidente José Eduardo dos Santos). Os "donos de Portugal" não gostam nada dos incómodos que lhes causa a participação popular na democracia.
Queriam, em rigor, os tais comentadores, esconder o facto de que é a estabilidade da política austeritária (que serve aqueles poucos) que condena a esmagadora maioria do povo a vidas precárias e instáveis, a vidas em crise.
Também menino de boas famílias políticas, há muito vendidas ao liberalismo, o PS sabia para onde, com o forte apoio do PSD e do CDS, nos estava a levar. O PS sabia que de PEC em PEC era o FMI que ia entrando de assalto na casa de cada um e cada uma e não queria pagar sozinho os custos políticos dessa traição ao povo. Censurado à esquerda no parlamento, censurado nas ruas, querendo ou passar a factura aos companheiros de PECado (PSD e CDS) ou partilhá-la com eles, o PS só viu uma hipótese de se safar: desviar as atenções para um novo conflito interno no Bloco Central, para que o povo se "esqueça" que o conflito maior é entre o a política austeritária e os interesses do povo explorado.
Perante a queda do Governo, sabemos que todos os PECadores querem que a mudança seja para que tudo ficar na mesma, no mesmo caminho de lapidação da democracia e do roubo do salário em várias vertentes. E, também por isso, há muita gente de esquerda que hesita perante eleições por ter deixado condenar o seu pensamento e ação à inevitabilidade da alternância sem alternativa entre PS e PSD. Esses não queriam eleições por temer a vinda da direita. Mas é preciso sair da prisão dessa lógica miserável do melhorismo e do menos-mauismo. Uma esquerda de coragem e confiança, deve aprender com a luta popular e não ter medo de eleições.
É com essa coragem e essa determinação a esquerda vai continuar a lutar pelos interesses das trabalhadoras, dos precários, das imigrantes, dos estudantes, das pensionistas pobres e dos jovens a quem o futuro é roubado. É a hora da democracia, de devolver a palavra ao povo. É preciso chumbar a governacão falhada!

Também publicado n' A Comuna.net

Foi bonita a festa, pá!

A moção de censura tinha poupado tempo e dinheiro ao país, mas por outro lado a festa não seria tanta.



(Legitimidade, um "piqueno" problema da Democracia, como diria Manuela Ferreira Leite)

23 de março de 2011

Caia também a governação falhada

Caiu este governo "de facto" ps/psd/cds, mas a governacão austeritária persiste.
Num golpe de salvação do que lhe sobra e para se safar, o ps voltou à tática da vitimização.
A esquerda parlamentar, sindicatos de vários sectores e todas as gerações de um país precário já tinham censurado o governo e a governação falhada. O ps só viu alternativa em desviar as atenções para um novo conflito interno no Bloco Centra para que o povo se "esqueça" que o conflito maior é entre o a política ps/psd/cds e os interesses do povo explorado.

Exige a substituição da pergunta 32 dos censos 2011! Faz chegar a tua reclamação ao Provedor de Justiça.





Os movimentos de trabalhadores/as precários/as FERVE, Precários Inflexíveis, Intermitentes do Espectáculo e do Audiovisual e os cidadãos Paula Gil, João Labrincha e Alexandre de Sousa Carvalho exigem a substituição da pergunta 32 dos censos 2011. A forma como é elaborada esta pergunta significa um branqueamento da situação de precariedade em que se encontram centenas de milhares de trabalhadores/as a falsos recibos verdes: «Se trabalha a "Recibos Verdes" mas tem um local de trabalho fixo dentro de uma empresa, subordinação hierárquica efectiva e um horário de trabalho definido deve assinalar a opção "trabalhador por conta de outrem".

Possibilitar o conhecimento do número de falsos recibos verdes em Portugal é não só uma necessidade efectiva para a mudança da situação como uma demonstração de respeito a todas as pessoas que são tratadas pelo Estado como independentes (recibos verdes, segurança social, ausência de direitos) e que agora são informadas por esse mesmo Estado que, afinal, devem se considerar trabalhadores/as por conta de outrem.

Vamos todos exigir a substituição da pergunta número 32!
Os/As precários/as não podem ser invisíveis nas estatísticas.
Envia a tua queixa ao Provedor de Justiça (aqui) e divulga esta informação!
aqui o texto modelo para a reclamação a ser feita.

Abutres!


Bem sabemos que já voam os abutres do “interesse nacional”, mas hoje o único voto possível é aquele que chumba o austeritarismo e abre caminho à democracia. A estabilidade das nossas vidas exige a desestabilização dos vossos interesses!

Frase do dia aqui

Mónica Baptista, "a outra Senhora"

O Centro de Recursos em Conhecimento do Instituto de Segurança Social (ISS) recomenda na agenda do seu boletim, com data de dia 21, um banquete de celebração dos 122 anos do nascimento de Salazar. A sugestão remete para um site com o título “Salazar, obreiro da pátria”.

Contactada pelo PÚBLICO, a coordenadora do Centro de Recursos em Conhecimento do ISS, Mónica Baptista, explica que a agenda é feita com base em solicitações recebidas e que esta terá sido uma delas.

“São-nos enviadas informações sobre vários temas. Foi-nos enviada esta informação e divulgámos. E aquele foi o link fornecido para completar a informação. Também já divulgamos eventos de associações pró-aborto”, explica Mónica Baptista, a título de exemplo.

“Para nós não tem interesse, mas uma vez que nos foi solicitado achamos bem colocar. Estamos em democracia e as pessoas podem seleccionar aquilo que mais lhes interessa”, afirma.


através do @IvoRafaelSilva



Para os que embarcam no pensamento único

"Quer um PS? Com ou sem D?"

21 de março de 2011

Madeira: Onde as Empresas não têm trabalhadores


A Madeira é pioneira nas novas formas de trabalho e das próprias relações laborais. Na Madeira as empresas que não têm trabalhadores.

Do total das 2981 empresas instaladas na zona franca da Madeira, 2435 não possuem qualquer trabalhador declarado ao seu serviço que é cerca de 82%.

As empresas offshore em 2009 apresentaram resultados líquidos de 3,7 mil milhões de euros, mas apenas pagaram 5,9 milhões de euros em vez dos 750 milhões, taxa média de 20% como seria normal.

Mas com este PEC IV, sabemos que os pensionistas vão pagar a crise. O PS e o PDS têm dois pesos e duas medidas.


18 de março de 2011

A nova Morfologia do Trabalho: Conferência com Ricardo Antunes, na Universidade do Minho


Ricardo Antunes é um dos mais importantes especialistas na Sociologia do Trabalho dos últimos 20 anos. Professor e Investigador na Unicamp, publicou livros como o "Adeus ao Trabalho?"(1995) e "Sentidos do Trabalho" (1999). Estará na Universidade do Minho na próxima terça-feira, dia 22. A não perder!

17 de março de 2011

Não há revolução sem música

Há muito, que reflectia sobre uma questão: "Não há revolução sem música". E como a música não se ouvia... Estava longe de adivinhar em que dias iam brotar as canções que seriam apropriadas pela revolta popular: o "Parva que sou" dos Deolinda "E o povo, Pá?" dos Homens da Luta são definitivamente as mais marcantes no 12 de Março.

Esta, dos Blasted Mechanism, embora (ainda?) longe de se afirmar na linha da frente, também gostei dela... anima:



Venham mais cinco ou mais dez, que esta a revolta tem pernas para dançar!

"Eu posso dar aulas de Relações Internacionais a Maria Filomena Mónica"




Disse Maria Filomena Mónica no Público de 13 de Março: "Os promotores da manifestação de ontem [da Geração à Rasca] são todos licenciados em relações internacionais. Isto habilita-os a quê? Alguém se deu ao trabalho de olhar o conteúdo destes cursos? Os docentes que os regem sabem do que falam? Duvido."

MFM, Licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa (1969), Doutorada em Sociologia pela Universidade de Oxford (1978) é investigadora-coordenadora emerita do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, é um nome incontornável nas ciências sociais contemporâneas em Portugal. Contudo, o seu curriculum não torna aceitável e até desaconselha este insulto a todas e todos os estudantes, investigadores, docentes e profissionais das Relações Internacionais.

É motivo de orgulho para as internacionalistas e os internacionalistas ter entre os seus colegas: Paula Gil, João Labrincha, Alexandre De Sousa Carvalho e António Frazão, as quatro pessoas que desencadearam um protesto que levou centenas de milhares de pessoas às ruas, por todo o país, continente, ilhas e até junto de alguns consulados e embaixadas.

Post-scriptum: Adere à comunidade do Facebook:
"Eu posso dar aulas de Relações Internacionais a Maria Filomena Mónica"

16 de março de 2011

A Madrinha Burguesa



A Moody's saúda o PEC4 e a união de facto PS-PSD, mas corta o rating português de A1 para A3 e diz que a austeridade ainda não chega. Como boa madrinha, a Moody's declara também que ou o PS e o PSD assumem a relação e se casam ou é melhor vir o FMI.

Frase do dia em
acomuna.net

Serviço Público?



Foi piada, montagem ou publicidade subliminar?

Aníbal de Boliqueime: O Cineasta Ultramarino

Já tinha postado aqui a minha opinião sobre o Aníbal e a Guerra Colonial.
As recentes e vergonhosas declarações de quem não sabe nem soube o que foi a guerra colonial, porque andava entretido a brincar aos realizadores, não surpreendem ninguém.
Os tiranetes sempre puseram e dispuseram da vida dos cidadãos com o maior desprezo.
Da minha parte já lhe estou a dar demasiado tempo de antena, mas fica a nota:
Aníbal de Boliqueime, o desprezo é mútuo.

15 de março de 2011

#Mar15

Hoje a revolução é na Síria.



Eleições?

Eleições? Belém/São Bento e Passos/Sócrates são disputas relevantes mas internas a um dos lados. O futuro joga-se entre os interesses do povo precário, à esquerda, e a governação falhada, ao centro e à direita. Crise política é não haver eleições. (também publicado aqui)

14 de março de 2011

Ai Renato, Renato...

A luta ideológica, quando feita por meras tentativas de decepar verdades, leva-nos obrigatoriamente ao caminho errado e o anelo de se provar um dogmatismo puro leva-nos à inflexibilidade de pensamento e à cegueira na argumentação. O 5 dias, na voz do Renato Teixeira, para obedecer à sua já ancestral tradição, pouco se preocupa com a verdade, com a difamação, com a falta de vergonha ou simplesmente com a forma vil e cobarde como tenta manchar imagens. Isto, claro, porque tudo serve para dizer que o Bloco de Esquerda é uma farsa. A argumentação é desnecessária, que o ódio é cego e a falta de vergonha também.

À mentira demagógica - e, diga-se de passagem, sem pés nem cabeça - publicada aqui, já o Fabian deixou a resposta da Marisa Matias e do Miguel Portas aqui.

Entretanto, o Renato vai continuar a dizer que somos maus, uma espécie de Lord Voldemort da política ou de um Dark Veder da ideologia. Se não disser que somos maus por ideias fantasiosas relativas à acção d@s eurodeputad@s, vai dizê-lo quando descobrir que o Francisco Louçã come cenouras ou que o Fernando Rosas gosta de nadar. Eu, entretanto, vou sair daqui antes que ele me venha chamar reaccionária por ter lido o Harry Potter.

Sócrates, a crise política e os mercados



Hoje Sócrates falou ao país e daqueles 17 minutos e mais qualquer coisa muita coisa (ou, no fundo, talvez nada de novo) saiu.

Uma das expressões mais utilizadas ao longo do seu discurso foi "crise política". Crise política que os outros estão a querer provocar, desde o PSD ao BE; pois bem, quer-me parecer que a crise política já foi provocada e foi pelo próprio senhor que discursou hoje, bem como pela sua aliança ao PSD, que Sócrates tanto atacou indirectamente hoje.

Esta é um dos sintomas de esquizofrenia mais graves a que eu já assisti. Por um lado, o PSD, como maior partido da oposição foi o único consultado antes da apresentação do PEC IV, como se se tratasse do único digno de tal comunicação. Por outro lado, é o mesmo PSD que Sócrates ataca como querendo provocar uma crise política; mais ainda, ataca o PSD, afirmando que ele têm na mira a vinda do FMI e das suas políticas neoliberais!!

Eu fico (quase) espantada, já que, melhor do que ninguém, Sócrates está a levar a cabo uma política de direita de forma exímia! Para quê tanto ataque ao partido que em termos ideológicos é, hoje em dia, siamês do PS?

Outra coisa que me ficou muito no ouvido deste discurso ao país foi a "confiança". Eu ainda tive esperança, até ao último minuto que Sócrates estivesse a pensar falar em dar confiança aos portugueses.....mas não!! O que Sócrates diz que conseguiu em Bruxelas "ganhar a batalha pela confiança", não dos portugueses, mas dos mercados, do BCE, da Alemanha, etc. E atenção, porque agora a Europa apoia-nos e estamos a evitar a ajuda externa e foi tudo uma vitória.

Infelizmente, tendo sempre em conta os mercados. Sócrates deixou bem claro várias coisas hoje:
1 - a confiança da Europa e dos mercados está a ser feita através do compromisso com políticas neoliberais que estão a prejudicar a maioria da população;
2- apesar do discurso algo agressivo face ao PSD, continua a ser clara a aliança entre os dois nas opções políticas tomadas;
3- Sócrates deixou, definitivamente, de pensar em Portugal (como tanto apregoa) para apenas agradar às instituições internacionais, aos mercados que nos emprestam dinheiro e que não podemos chatear e à Alemanha.

Tendo em conta este cenário, deixe-mo-nos de falinhas mansas: quem anda, de facto, a iludir e confundir os portugueses é Sócrates/PS/PSD com estas políticas que estão a destruir, lentamente, a vida d@s trabalhador@s, d@s estudantes, d@s reformad@s, d@s pensionistas, d@s precári@s, d@s desempregad@s. A política neoliberal é a escolha de um Partido Socialista (?) que já perdeu o rumo há muito tempo, a subjugação aos mercados financeiros é, também escolha do mesmo partido.

E quando escolhas destas são feitas deliberadamente nada mais resta a não ser um pingo de respeito pelo povo, principalmente depois da grande manifestação a nível nacional de dia 12 de Março, e ir de encontro às suas reivindicações!

Muito se gritou no sábado, muitas reivindicações se ouviram...no próximo sábado estaremos de novo na rua...até que estes ataques parem de vez e possamos, finalmente, dizer que estamos num país mais democrático e mais justo social e economicamente.

Estamos mesmo cheios de te ouvir Sócrates!



A mentira tem pernas curtas - Resposta dos eurodeputados do BE à infâmia de Renato Teixeira no 5dias

Sob o título BE vota a favor da intervenção da NATO na Líbia”, Renato Teixeira no blogue 5 dias decidiu promover uma infame campanha contra o Bloco de Esquerda através do ataque aos eurodeputados deste partido. Em situação normal nem comentaríamos. Mas como uma mentira mil vezes repetida faz o seu efeito, aqui vai:

1.

Na semana passada, Miguel Portas representou o grupo da Esquerda Unitária (GUE/NGL) nas negociações para uma resolução de compromisso sobre a Líbia e no debate em plenário.

Para quem não saiba, cada bancada apresenta a sua resolução e depois negoceia-se. Só se votam as resoluções de grupo se não existir compromisso ou este for chumbado. No caso da Líbia, o problema nem se punha: por razões diferentes, todas as bancadas procuraram um compromisso.

2.

A maioria dos grupos - conservadores, direita tradicional, liberais e verdes – queriam que a resolução defendesse explicitamente uma zona de exclusão aérea independentemente de um mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas e da especificação dos contornos dessa putativa decisão. Por outras palavras, existia uma razoável maioria no Parlamento Europeu para aprovar uma moção intervencionista a menos de 24 horas de um Conselho Europeu que iria decidir sobre o assunto. A importância desta Resolução decorria precisamente de poder ser usada como meio de pressão pelos governos que defendiam a intervenção.

3.

O GUE/NGL era o único grupo parlamentar com uma posição contrária à criação de uma zona de exclusão aérea. Os socialistas, por seu lado, encontravam-se divididos. Por isso propuseram uma redacção cautelosa: a zona de exclusão foi apresentada como “possibilidade” e não como “exigência” e subordinada a um objectivo estrito – “impedir o regime de atacar a população civil”. O parágrafo impunha ainda que esta eventual medida fosse “conforme com um mandato das Nações Unidas”, e que devia “assentar numa coordenação com a Liga Árabe e a União Africana (...) que deveriam conduzir os esforços internacionais”.

Entre esta posição – a que constou do compromisso final - e a defesa de uma intervenção militar da NATO, não é difícil descortinar as diferenças. A sério, é a que mede a distância entre a verdade e a calúnia; a brincar, é a que mede a fértil imaginação de alguém que acorda diariamente com uma única obsessão: “como é que eu, Renato, os vou tramar hoje”?

4.

Em face da concreta relação de forças na mesa de negociação, ou a esquerda se desinteressava do assunto – e o resultado mais do que provável seria um parágrafo imposto pelas forças mais à direita, neste caso com apoio dos verdes - ou procurava segurar e melhorar a versão proposta pelos socialistas.

Foi com pleno sentido das responsabilidades que o Miguel Portas optou pelo segundo caminho. O condicionamento da hipótese desejada pela maioria do Parlamento, sujeitando-a a um mandato do Conselho de Segurança, nada tinha de ingénuo. Com efeito, é público que a China, a Rússia e vários governos europeus preferem, de momento, a prudência à aventura.

Se a nossa preocupação fosse simplesmente ideológica e propagandística, o voto não apresentava dificuldade. Mas se o objectivo fosse, como foi, dificultar a instrumentalização do Parlamento em favor de uma operação de contornos mais do que imprecisos e decidida à margem das Nações Unidas, então a táctica que seguimos foi acertada.

5.

Esta decisão impunha, contudo, uma medida adicional obtida nas negociações – garantir uma votação electrónica separada para o parágrafo em questão. Com esta salvaguarda, a esquerda podia deixar bem clara a sua oposição à possibilidade de uma zona de exclusão aérea. Foi o que aconteceu. Ambos votámos contra esse parágrafo, aliás como a grande maioria da bancada. E foi porque o fizemos que pudemos, simultaneamente, dar um voto favorável a uma resolução que condicionava fortemente a possibilidade de uma medida desta natureza.

6.

Podíamos ficar por aqui, mas há mais duas ou três coisas que nos ocorre dizer em face da insultuosa campanha que está em curso. A primeira: o bloco não tem, nunca teve, uma posição de princípio contra intervenções de natureza militar sob mandato da ONU. Já as defendemos em situações de genocídio ou espiral de massacres. A segunda: uma das razões porque fomos contra a possibilidade de criação de uma zona de exclusão aérea é porque o parágrafo não esclarecia o que se queria dizer com isso. Com efeito, uma zona de exclusão aérea tradicional, aplicada a toda a Líbia, impõe, devido às dimensões do país, a destruição das posições anti-aéreas no terreno. Contra esta opção seremos sempre. Mas existe outra variante de “exclusão aérea”, reivindicada pelo levantamento popular armado e pela Liga Árabe: que a comunidade internacional impeça, por meios militares, qualquer tentativa de bombardeamento das cidades sublevadas pela força aérea do ditador. Se a situação se degradar e Kadafi optar pelo massacre da insurgência e das populações civis, esta possibilidade não deve ser posta de lado.

É que há momentos em que o pseudo-pacifismo de quem nunca foi pacifista se confunde perigosamente com a defesa do ditador. Esta atitude não é mais nem menos cínica do que a dos governos europeus que, debitando loas aos Direitos Humanos, apoiaram durante anos a clique de Kadafi. Sinceramente, para peditórios de cinismo é que já demos mesmo.

Miguel Portas e Marisa Matias