11 de dezembro de 2010

Os Donos de Portugal




Ainda não se falou aqui deste livro que conta, como os próprios autores assinalam, com o importante contributo de uma militante desta casa, a Mariana Mortágua. Os Donos de Portugal: Cem anos de poder económico (1910-2010), escrito por Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas é, além de uma análise lúcida sobre a formação, as estratégias e alguns dos percalços da burguesia portuguesa, um livro necessário.

É daquelas obras que num primeiro folhear rápido nos dá vontade de começar pelo fim, ou seja, pelo último e mais demolidor capítulo, “A recomposição da burguesia (1974-2010)”. O retrato de uma burguesia parasitária e acoitada pelo Estado, alicerçada em incessantes estratagemas e ardis pelo controlo e rentabilização segura do sector financeiro é apresentado de forma bastante clara. O verdadeiro pavor pelo investimento produtivo de risco presente nesta elite reflecte-se na busca por um poder político amigo, íntimo e prestativo. PSD e PS encontram no BES, BCP e BPN um aconchego seguro para os seus quadros. E o Cavaquismo, claro, aí aparece como a concentração de forças que derrubou os limites políticos para o ataque conjunto aos monopólios e serviços públicos, movimento continuado por Guterres, Barroso e Sócrates. Quem recuar e se concentrar nos primeiros capítulos poderá perceber que esta é uma elite que se forjou desde há muito, e tem nas suas origens um cruzamento (sexual e matrimonial) das principais famílias: os Champalimaud, Mello, Ulrich, Roquete, Espírito Santo, entre outras.

Não resisto a deixar aqui apenas 3 trajectórias, apresentadas no livro, de homens fortes da burguesia portuguesa:


Álvaro Barreto








1959-1968: Profabril, chefe de projectos
1969-1971: Lisnave (Mello), director administrativo
1971-1974: Setenave, administrador-delegado
1974-1978: Lisnave (nacionalizada), administrador-delegado
1978-1979: Ministro da Industria e Tecnologia do Governo Mota Pinto
1979: TAP, presidente
1980-1981: Ministro da Industria e Energia do Governo AD (pelo PSD)
1981: Ministro da Integração Europeia do Governo AD (pelo PSD)
1982-1983: Soporcel, Presidente CA
1983: Ministro do Comércio e Turismo do Governo do Bloco Central (pelo PSD)
1984-1990: Ministro da Agricultura dos Governos do Bloco Central e do PSD
1990-1997: Deputado
1990-2000: Plêiade CA não-executivo
1990-2002: Sonae, conselho consultivo
1990: Soporcel, presidente
1990: Somincor CA não executivo
1990-2007: Grupo Mello: Nutrinveste e Mellol (na Tabaqueira com Philip Morris) CA não-executivo
1990-2007: Portugália, Presidente AG
1990-2007: Tejo Energia, Presidente não-executivo
1990-2000: Cometna AG Presidente
1991-1997: Câmara de Comêrcio Luso-Britânica, Presidente
2002-2004: Deputado
2004-2005: Ministro de Estado da Economia e do Trabalho do Governo do PSD-CDS
2004-2006: Semapa (Queiroz Pereira) CA
2005-2007: Portucel e Soporcel CA
2007: BPP Privado Holding, conselho consultivo
2010: Integra a Comissão de Honra da candidatura de Cavaco Silva às presidenciais de 2011. [acrescento meu]


Joaquim Ferreira do Amaral













1978: Director Geral das Indústrias Electromecânicas
1979: Secretário de Estado das Industrias Extractivas e Transformadoras do Governo AD (pelo PSD)
1981: Secretário de Estado da Integração Europeia do Governo AD (pelo PSD)

1982-1983: INDEP armamento (pública), vice-presidente, Instituto do Investimento Estrangeiro, vice-presidente; EDIG European Defense Industrial Group, vice-presidente.
1984-1985: Secretário de Estado do Turismo do Governo do Bloco Central (pelo PSD)
1984-1985: Ministro do Comércio e Turismo do Governo do Bloco Central (pelo PSD)
1985: Assembleia Municipal de Cascais, Presidente
1986: IFADAP, Presidente
1987-1990: Ministro do Comércio e Turismo do Governo PSD
1990-1995: Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do Governo PSD
1991-1999: Deputado e membro do Conselho Superior de Defesa Nacional
1997-2001: Câmara Municipal de Lisboa, Vereador
2000: Candidato à Presidência da República
2001: Cimianto CA
2001: Deputado
2002-2005: Galp CA chairman
2005-2010: Lusoponte, Presidente
2006-2010: Semapa CA e comissão de auditoria
2009-2010: Consultor do Dresdner Bank, da Transdev transportes e da Lisboa Vista do Tejo.
2010: Integra a Comissão de Honra da candidatura de Cavaco Silva às presidenciais de 2011. [acrescento meu]


Joaquim Pina Moura




1972- 1991: Militante do PCP [acrescento meu]
1976-1979: Dirigente da União dos Estudantes Comunistas (UEC) [acrescento meu]
1992: Docente universitário
1995-1997: Secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro do Governo PS
1997-1999: Ministro da Economia do Governo PS
1999-2007: Deputado
2004: CA BCP consultor do CA para a Energia
2004-2007: Galp CA
2004-2010: Iberdrola Portugal presidente
2007-2009: TVI MediaCapital chairman
2009: Pina Moura declara publicamente que o programa eleitoral do PSD para as Legislativas é mais “claro”, “divisor de águas” e “mais duro e focado” do que o programa apresentado pelo PS. [acrescento meu]

Aníbal "O sem vergonha"



Alguns de nós sofrem de carência alimentar porque alguns de vós andam a comer o que é nosso, um deles é o teu amigo Joaquim Ferreira do Amaral, que na altura em que foi para ministro era bem mais magro.

Tenho vergonha que os meus concidadãos há anos votem e continuem a votar no Aníbal de Boliqueime.
Foi 1º Ministro anos a fio e desbaratou os fundos comunitários pelos seus companheiros.
Conspurcou as instituições portuguesas com nomes como Dias Loureiro e deu início ao buraco que agora se tornou a economia do País.
Destruiu a indústria, as pescas, a agricultura, fez de nós um país de humildes mordomos que vivem de alugar quartos no Verão a turistas que nos olham com um paternalismo quase ternurento e nos deixam boas gorjetas por perceberem o quão pobres e atrasados somos em relação ao resto do Ocidente do qual supostamente fazemos parte..
Tenho vergonha porque ele foi eleito Presidente de TODOS os portugueses após anos a governar em prol de um GRUPO de portugueses.
Já não falo do episódio em que foi enxovalhado (na Polónia salvo erro), aliás fomos enxovalhados porque o Aníbal representa-nos a TODOS.

Tenho vergonha Aníbal porque falas de cor de um país que não conheces.
Um país onde as pessoas que votam em ti muitas vezes o fazem porque isso significa uma casa, um emprego ou 20€.
Um país onde a cultura é o La Féria e a educação são as Novas Oportunidades.
Tenho vergonha Aníbal porque encheste a Assembleia da República de Antónios Pretos dos quais tens nojo e queres distância na tua superioridade moral, mas os quais te elegiam e elegem campanha atrás de campanha.
Tenho vergonha porque ajudaste a criar uma rede clientelar à volta das autarquias, rede cujo teu autarca modelo como lhe chamaste era Isaltino Morais, talvez porque sabias que ele era o modelo a seguir.
Ainda mais envergonhado fico quando a ANMP continua a ser a quinta do Fernando Ruas, outro que devia ter vergonha na cara.
Não a culpa de todos os males da Nação não é só tua mas a tua impressão digital está por todo o lado.

Resumindo, eu tenho vergonha Aníbal o problema não é esse, o problema é que tu não tens vergonha nenhuma.

10 de dezembro de 2010

Intervenção no Martim Moniz

Pouco passava das 3:00 pm quando o Martim Moniz foi invadido por mais de 200 agentes da PSP, SEF, Inspecção Tributária e ASAE, identificando mais de 700 pessoas e detendo outras tantas dezenas cuja situação no país é tida como “irregular”(à data ainda não existem números concretos).

Os agentes actuaram nos estabelecimentos comerciais do Martim Moniz, pedindo que lhes fosse facilitado o título de residência e um documento de identificação válido. Quando tal não era possível, as pessoas eram encaminhadas para postos de controlo, onde era efectuado um rastreio e, desse modo, conhecida a situação do indivíduo em Portugal.

Curiosamente, esta rusga acontece no mês em que a associação SOS Racismo festeja 20 anos de existência, mostrando – infelizmente – que ainda há muito trabalho e muita luta pela frente no que toca à integração/inserção social (e a tudo o que a ela diz respeito: direitos salvaguardados, educação, saúde, etc.) das comunidades migrantes em Portugal

É premente – senão urgente – levar estes assuntos (imigração, integração, direitos dos imigrantes) até à praça pública e discuti-los sem preconceitos e demagogias. Somos seres humanos e não “gado”, i. e. temos – ou deveríamos ter – direitos independentemente da nacionalidade. Afigura-se-me triste que, enquanto tantos outros lutam pela humanização de todos estes serviços, o Governo seja o primeiro a dificultar/travar a legalização de milhares de imigrantes que procuram dias melhores.

Por isso e muito mais, entristeço-me quando assisto ao discurso de uma opinião pública de um país SUPOSTAMENTE de tradição emigrante, que não só apoia a força policial e medidas xenófobas consentidas pelo Poder Dominante, como pelo facto de desconhecer PROFUNDAMENTE a realidade em que a maioria de nós – e bem está de ver, da alteridade – vive.

Pode alguém ser livre se “outro” não o é?

Eu acredito que não. E os imigrantes não o são. Livres.

Precisamos mudar de políticas. Precisamos ser humanos. Precisamos de um novo paradigma. Reinventemo-nos, portanto.

CDS-PP: O Embuste da Acção Social Escolar

Ontem na Assembleia da República, vários partidos apresentaram à discussão projectos de lei sobre as propinas e as bolsas de acção social. O Bloco de Esquerda apresentou um novo regime de bolsas de acção social, que reponha regras de justiça contra o que vem estipulado no Decreto Lei 70/2010, que aumenta o valor de bolsas e alargue o universo de bolseiros. O PCP apresentou um projecto de lei sobre o financiamento do Ensino Superior.

O mais espantoso, foi o projecto de lei apresentado pelo CDS-PP, que retira o valor da bolsa de cálculo de rendimento do agregado, mantendo todas as regras do Decreto Lei 70/2010. Espantoso porque, não é isso que o CDS-PP tem vindo a afirmar nos meio de comunicação e que prometeu aos estudantes na Manif de dia 17 de Novembro. Isto é tudo um grande embuste.

O CDS-PP tem vindo a reafirmar, através do Deputado Michel Seufert, que o Projecto de Lei 461-XL, ontem apresentado na AR, vem retirar as bolsas da Acção Social do Decreto de Lei 70/2010. Isto é, que as bolsas não vão ser submetidas as novas regras de cálculo do rendimento do agregado nem à nova formula de capitação. Na sua essência, o Decreto de Lei 70/2010 não se vai aplicar ás bolsas de acção social.

Mentira. Se olharmos com atenção para o Projecto de Lei apresentado pelo CDS-PP, não é nada disto que está lá dito. A única alteração que é proposta é a eliminação da Alínea H, do Artigo 3º “Rendimentos a Considerar”. Isto é, que as bolsas não são consideradas como uma forma de rendimento. No cálculo das bolsas excluem-se os valores referentes a bolsas de estudo e de formação, o resto continua tudo igual. As bolsas não saem do Decreto de Lei 70/2010.

Existe uma enorme discordância entre o discurso do CDS-PP e o Projecto de Lei apresentado. Estão a vender gato por lebre. Estão a enganar todos os estudantes.

Há cada vez mais pessoas a pensar como nós? Ao vender gato por lebre, sim. No meio de tanta desonestidade política, sim.



Nuno Moniz

Ricardo Sá Ferreira

9 de dezembro de 2010

A quadratura ainda dura!

Mais de 20 minutos a discutir a balela da excepção nos Açores. Pacheco Pereira, Lobo Xavier e António Costa fazem com que a conversa se estique ao máximo como se não estivesse a acontecer mais nada no país. Como se o governo não se preparasse para facilitar os despedimentos ou para recuar no aumento do salário mínimo! São 23:31 e o tema ainda é o mesmo. Lobo Xavier chega a um cúmulo quase xenófobo como se os Açores não fossem Portugal - diz que nós pagamos os Açores e "eles" não têm "solidariedade" para com "a gente".
O problema aqui são os cortes no país todo. Como o próprio António Costa admitiu, a maior parte da Administração Pública recebe muito mal. Foi ele que o disse.

Abaixo a quadratura! Como esta ideia de fazer opinião, não para um público massificado, mas para quem escreve, escreverá e comentará estes assuntos.
Este programa segue a regra que o Pacheco Pereira bem conhece dos seus profundos estudos comunistas - serve para "dar a linha", para explicar quais são as perguntas que temos autorização de fazer.

Obrigado aos quatro quadraturicultores do círculo e espero que na próxima semana, a esta hora, não vos ouça. Não são novidade absolutamente nenhuma. São a cassete que acusam outrxs de serem.

Seca. Metam-lhes o Triângulo (das avarias)!
Enviada do dispositivo sem fios.

PS: 35 anos de sindicatos... de votos!

O Partido Socialista mostra como se ganham eleições.
Abusando da miséria das pessoas para a qual os seus (des)governos contribuem ano após ano, constituem verdadeiras redes organizadas de conquista informal de votos.
O militante aparece neste vídeo a contar como lhe pagaram as cotas e lhe indicaram qual o candidato em que deveria votar.
Na revista Sábado contam mais: para além de 90 euros de cotas em atraso fizeram um donativo da mais 90 euros em nome deste militante.
Todos aqueles que conhecem o mínimo de política autárquica sabem quantas casas em bairros municipais dependem do voto no "partido da mãozinha" e no "partido das setinhas".
Por isso depois vemos no parlamento a qualidade, o carácter e o nível dos deputados...
De referir que estas eleições foram ganhas por 2 votos e o sr. que as venceu afirma à revista Sábado saber que estas práticas existem, são comuns e que o adversário também faz.
Entretanto este senhor escolhe os deputados pelo PS pelo distrito de Coimbra...
É caso para dizer, em Coimbra nada de novo.
Para quem (ainda) não conhecia como funcionam os caciques aviso desde já que nunca mais vão olhar as eleições e os eleitos da mesma maneira.
Para os outros, vamos rir para não chorar.
Vale a pena comprar a revista esta semana, entretanto veja mais vídeos aqui.

PS: 35 anos a lutar pelos trabalhadores!



Governo propõe aos sindicatos que as minutas dos contratos de trabalho explicitem que o salário de uma pessoa está directamente ligado à sua produtividade ou à qualidade do trabalho.


Um Minist(ério)(istro) vegetativo...

 A minha primeira notícia de hoje começou assim:

“A esmagadora maioria dos estudantes do ensino superior ainda não começou a receber o valor definitivo das bolsas de estudo. O Governo deu indicações às universidades para começarem a pagar os apoios em meados de Outubro, mas os alunos estão a receber apenas as bolsas mínimas” (público online)


As bolsas não chegam para tod@s @s estudantes, isso, toda a gente já percebeu, e estudos como o de Belmiro Cabrita evidenciam esse facto de forma claríssima. Contudo estas não deixaram de existir e os e as estudantes com mesmo muita dificuldade continuam a ter acesso a bolsa. Contudo, pelos sucessivos cortes cegos, as bolsas só chegam mesmo a esses estudantes com mais dificuldades e no meio da incompetência, da burocracia e da insensibilidade do Ministério e de Mariano Gago , hoje, passados mais de dois meses do começo das aulas, tirando um ou outro caso, as bolsas ainda não foram entregues. Ou seja, os estudantes que vão ter acesso a bolsa estão há mais de dois meses a estudar sem nenhum apoio.

Conseguem a imaginar a situação precária em que estes e estas estudantes se encontram? Das dificuldades com que se têm deparado? Dos sacrifícios que os pais e familiares têm feito para manter os seus filhos a estudar enquanto o Ministério se preocupa não se sabe bem com o quê?

E entretanto, enquanto estudantes passam fome, não têm como pagar fotocopias, e vivem numa situação de enorme debilidade, Mariano Gago passeia-se por ai em aberturas solenes e regabofes políticos…

… Hoje vai ser discutida uma petição no parlamento de 4 mil estudantes pela igualdade no ensino superior.

Irão o PS e o Governo assumir a responsabilidade democrática ou manter-se-ão como agentes políticos em estado vegetativo?!


A austeridade é uma ideia perigosa!

Liberdade para Manuel Godinho



Se não prendem o Vara e o resto da cambada que andava a viver à conta do pobre homem que para trabalhar tinha de pagar "protecção" à Máfia, ao menos libertem o Manuel Godinho.
Deixem de fingir que a Justiça funciona.

8 de dezembro de 2010

numa loucura propositada por ti

"vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim"

valter hugo mãe

A coragem de tomar partido


Esquerda.net aloja Wikileaks em Portugal

Que cem espelhos do wikileaks floresçam, que cem denúncias se confrontem.


6 de dezembro de 2010

Foi pela independência da Catalunha


O recorde do Guiness para o Lipdub mais participado do planeta.

RSI e o Combate à Pobreza

Não há nada mais útil para a fragilização das medidas sociais do que a promoção de representações sociais desfasadas da politica social e dos seu beneficiários. Não há nada mais eficaz para a destruição de uma medida social, do que colocar os grupos socioeconómicos mais carenciados, uns contra os outros. O ataque ao RSI é um ataque ao Estado-Providência.

O RSI é, essencialmente, uma medida para combater a pobreza extrema. São 418,000 beneficiários, num pais com 2 milhões de pobres. Com uma média de 89 euros por beneficiário por mês, é só fazer as contas. Dá uma média de pouco mais de 2,5 euros por dia. A função desta medida nunca foi, e nunca será, resolver o que as políticas de emprego deviam resolver. Por dois motivos. Primeiro, devido aos salários de miséria existentes, o emprego não é suficiente, em Portugal, para se sair da pobreza: 1/3 dos benificiários do RSI trabalha e ganha tão pouco que precisa daquele apoio para sobreviver. Segundo, porque sem políticas orientadas para o pleno emprego, a ideia dos planos de inserção no emprego, promovidos pela Segurança Social junto dos beneficiários, são uma mistificação: mesmo que se esforcem ao máximo para trabalhar, não existe emprego para toda a gente.

A exigência de transparência, assim como o combate à fraude, devem ser compatíveis com as medidas de política social. Contudo, uma fraude de 14% como no RSI, não pode ser um argumento para atirar a maioria dos beneficiários (os restantes 86%) à pobreza absoluta. Da mesma maneira que existe fraude na utilização da baixa médica, não se deve acabar com ela. Da mesma maneira que por haver abusos na prescrição de tratamentos com cobertura da ADSE, não se deve acabar com a garantia da prestação de cuidados de saúde. Aqueles que, para incitar o ódio social, tratam o RSI como o “rendimento dos preguiçosos” querem no fundo associar pobreza á preguiça, os pobres como culpados das misérias do capitalismo. Esse raciocínio, que é o de Paulo Portas, é pura preguiça intelectual.

O RSI não precisa de mais fiscalização, ou do policiamento apresentado pelo CDS/PP. O RSI precisa de ajustamentos concretos. Não necessita de um corte, necessita é de um acompanhamento técnico orientado. Precisa de mais equipas técnicas e não de inspectores. O PEC, em vez de corrigir, ataca fortemente as políticas sociais. É exactamente isso que o PEC faz, o contrário do que seria preciso. O CDS propôs cortar 130 milhões de euros no Rendimento Social de Inserção, e os 130 milhões foram cortados.

É importante a sociedade assumir o compromisso deste debate e desmistificar o discurso demagógico apresentado pela direita. É importante ganhar este debate e para isso é importante que beneficiários, especialistas, estudiosos e técnicos se unam em posições comuns.

O Fascismo é uma Minhoca, não é?

"A Associação Ajuda de Berço , fundada em Lisboa a 12 de Março de 1998, no 5.º Cartório Notarial de Lisboa, por um grupo de amigos, tem como Missão testemunhar o respeito pela Vida Humana (...)"


Não acho que devamos fazer propaganda ou menos ainda alinhar nas actividades desta Associação. Ainda que possa existir na Ajuda de Berço gente com boa-vontade, esta associação segue propósitos muito concretos. Foi criada para dar continuidade à campanha que as pessoas que defendem a criminalização do Aborto venceram em 98.

Qualquer crescimento ou apoio dado a esta gente é contrário à emancipação das pessoas e à liberdade das mulheres. Espero que a Ajuda de Berço e a sua direcção tenham todo o insucesso real possível e que guardem eventuais vitórias politicas para quando chegarem ao céu.

A Ajuda de Berço, com a tentativa de parecer feminista, com senhoras mui bem falantes (e endinheiradas) que defendem a liberdade das mulheres ricas abortarem em Espanha ou outro país, e acham que as portuguesas mais pobres devem ser detidas, é dos grupos mais reaccionários e fascizantes que existem por aqui.


O aborto não é crime. Nem será. E o fascismo não passará!


(a propósito de ter recebido um convite para uma Festa de angariação de dinheiro para esta malta)

Fogo cruzado


O Incêndio em Israel foi finalmente controlado.
No meio deste enorme desastre é de louvar a ajuda enviada pela Autoridade Palestiniana, só mostra que é possível um Mundo em que Israelitas e Palestinianos se entendam, cooperem e atinjam objectivos comuns.

Lê mais aqui

5 de dezembro de 2010

Bons Filmes: O caso Farewell

O caso Farewell (estreou em Agosto em Portugal), de Christian Carion, com Emir Kusturika a protagonista é no mínimo um filme interessante. Só no retrato geral que faz do caso de espionagem que abalou a URSS no início da década de 80, logo após a invasão do Afeganistão pelas tropas soviéticas, já compensa o preço do bilhete. O filme pode resvalar para um certo cliché na leitura urbana e moral que faz da Moscovo de há 30 anos, mas a forma corajosa como o realizador apostou no destaque de um Reagan muito estúpido e um Mitterrand extremamente arrogante é de louvar. Mas o filme vale também por Kusturika. O seu estilo um tanto ou quanto vacilante e meigo destoa da imagem clássica de um agente destacado do KGB, no entanto ele ocupa todo o plano e capta todas as atenções.

Disponível em qualquer torrent perto de si.

3 de dezembro de 2010

A dor da gente não sai no jornal.



No muito do que se falou nesta última semana sobre Rio de Janeiro, dos directos da RTP à blogosfera, foi possível observar que na maioria desses relatos, crónicas e comentários preponderavam dois lados: os traficantes e a polícia – mas apenas um local: as favelas cariocas. Dessa análise binária e comezinha teceram-se as já velhinhas e batidas conclusões de analistas sociais preguiçosos, da teoria do Estado paralelo à exultação da alegria e paz no coração dos cariocas (e de muitos dos comentadores) provocadas por cada puxar do gatilho do BOP e do Exército. O cúmulo do grotesco pertenceu mesmo à RTP. Quem assistiu às suas reportagens realizadas directamente do sopé do Morro do Alemão não pode deixar de notar um excitado enviado especial, João Pacheco Miranda, que, com uma emoção tão sincera como bacoca, ia relatando o avanço da civilização contra a barbárie morro acima. Mas, bem vistas as coisas cabe dizer que, no caso do Rio de Janeiro, o buraco é mais em baixo.

Esta invasão de favelas no Rio de Janeiro, com o exército no comando das operações, não é acontecimento singular na história da cidade e a sua repetição traz-nos o entendimento simples que esta, apesar da sua dimensão desproporcionada, está bem longe de ser a definitiva. Esta mesma invasão também não é fruto de uma subtida conscientização do poder público, como muitos teceram, operada a partir de uma decisão política de impor a presença do Estado, na sua vertente social e autoritária, aonde um perigoso poder paralelo ascendeu nos últimos anos. Existe sim uma decisão por parte do PT e do seu mais íntimo aliado PMDB que se traduz numa ofensiva policial e militar de contenção. Contenção mais do que necessária, aos olhos de homens da gema de Sérgio Cabral, na geografia de recursos mais desigual da América Latina, onde a pressão urbana se torna insustentável perante uma procura imobiliária feroz e onde o governo prepara o espectáculo mediático e politicamente lucrativo da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.


“Mas e o poder paralelo que existe e oprime?” Indignam-se os comentadores de serviço. “O que tem a esquerda a oferecer para além de apontar, com seu discurso gasto, as opressões estruturais que explicam (ou desculpabilizam) o caminho do crime?”. Tem tudo. Esse poder existe e é muito mais subalterno do que paralelo. Mas, se as suas diferenças e ramificações históricas estendem-se muito para lá do que estes eméritos analistas gostariam de investigar, a questão mais pungente continua a passar por perceber até onde vai o comando do crime organizado. Porque designações sonantes como PCC ou Comando Vermelho perdem alguma força quando sabemos que falamos de adolescentes, crianças de 14, 15 e 16 anos cujo crime é intermediar a venda de droga e cuja a recompensa é morrerem, na sua esmagadora maioria, antes dos 25 anos, sentindo o sabor de terra e sangue na boca. A liderança do crime organizado brasileiro, a estrutura que dá suporte à sua actividade e permite a reprodução do sistema, não está nas favelas nem nos presídios. Está longe das vielas sem esgoto e dos barracos cheios de nada. Dorme confortavelmente em Copacabana, passeia nas ruas de riqueza obscena do Leblon (onde o metro quadrado ultrapassa os 5 mil euros). São cidadãos do mundo e representantes de duas corporações mundiais de respeito: da droga e das armas.


E aí vem a pergunta: “mas e os 99% de habitantes trabalhadores das favelas, não sofrem com esse poder?” Sem dúvida que sim, e se o sofrem é precisamente porque o Estado não está ausente ou suplantado por um outro “paralelo”, está bem presente. É o Estado que empurra as pessoas morro acima para morarem em condições execráveis e as faz descer para trabalhar muito e por muito pouco. E, sobretudo, é o Estado que divide e que delimita os espaços. Que concentra o conflito e tenta agora não o deixar alastrar às “zonas sãs”.


O que muitos não fizeram neste conflito foi olhar para o outro lado, deixando escapar a causa e a solução do problema. Basta observar como as televisões mostraram, em êxtase, o luxo, improvisado pois sempre passageiro, das casas dos traficantes na favela. Mais do que dizer que as banheiras de hidromassagem e as piscinas são fruto de uma actividade criminosa, interessa passar a ideia que é inconcebível encontrar esse luxo na favela, subvertendo a lógica que ele só tem e só pode ter lugar em Ipanema ou na Lagoa, quando muito em Botafogo. E é pela manutenção dessa desigualdade espacial, que mantem o fluxo diário do trabalho e que separa a riqueza descomunal da zona sul da miséria restante, que o Exército luta hoje nos morros do Rio.


Uma política de esquerda que enfrente os barões das armas, combata o tráfico com a descriminalização das drogas, e, acima de tudo, imponha uma luta pela justa distribuição da riqueza no quarto país mais desigual do mundo continua a ser a resposta necessária. Mas nesse caso o ponto de partida é o Leblon, não a Favela do Alemão. Entretanto, o vai e vem quotidiano de milhões de pessoas na dura realidade das zonas pobres do Rio continuará, muitos perdendo mais de três horas diárias em transporte e chegando ao final do mês com um vazio na carteira, mas como tão bem cantou Chico Buarque: "a dor da gente não sai no jornal".

É mais feliz quem ouve Mercedes Sosa!

Mais de um ano se passou sobre a sua morte, tempo de recordar e viver!