24 de outubro de 2011

Outubro é mês de Primavera

Em contra-ciclo com as leis da natureza o mês de Outubro ficará como marco do desvanecer do povo português. O sufoco que prendia o país parece finalmente ceder.

Vamos por partes. O cenário pós-eleitoral, a derrota da esquerda, a ressonância gritante da inevitabilidade da austeridade, a santidade do acordo da troika e o fortíssimo aparelho de propaganda mantiveram durante largos meses as forças políticas e sociais alter-austeritáritas em standby.

Quem ousou durante esses tempos traçar alternativas à política da troika era atestado de lunático ou submetido ao exílio mediático. Falar de renegociação ou auditoria à dívida tornou-se sinónimo de fechar as portas ao país e de o mudar imediatamente de continente – querem que aconteça a mesma coisa que na Argentina (!) gritavam os especialistas. Nunca a ditadura sobre o pensamento fora tão clara e o medo uma arma tão eficaz.

Cavalgando a onda, a direita – com a conivência do PS - apressou-se a mostrar serviço e pôs em prática o seu verdadeiro ideário político. O empobrecimento geral do país com a promessa de uma aparente prosperidade sebastianista numa manhã em dois mil e qualquer coisa mais tarde. E um brutal ajustamento de contas com o Estado Social e as formas mais amplas de democracia que em Portugal ainda subsistem.

Ficou claro que as garantias eleitorais tinham expirado após a contagem dos votos, as afamadas artimanhas das “gorduras do estado” eram na verdade os salários, impostos, trabalho, serviços públicos e qualidade de vida dos trabalhadores.

Grande parte do agressivo plano do governo que até agora conhecemos decorreu durante o solstício do denominado “estado de graça”. A agitação e a mobilização resguardava-se e grande parte da sociedade acatava-se entre o pavor e o horror da aparente cura.

O presente mês veio pôr termo a essa pax austeritária. A manifestação da CGTP, o sucesso do 15 de Outubro a níveis inesperados à escala nacional e internacional, a sua promessa de continuidade de luta contra o situacionismo podre e o anúncio de Greve Geral conjunta, demonstraram que existe um amplo bloco social anti-troika que despertou e demonstrou vontade e energia para a resistência social.

A importância destes acontecimentos e desta ruptura comportamental de uma alargada fasquia da sociedade portuguesa podem ser medidos a duas escalas. No imediato e no futuro. A primeira, porque abriu brechas fortes no discurso dominante, disputou a opinião pública, preencheu o espaço público, cimentou a esperança de uma alternativa, reanimou as forças mais progressistas e democráticas e requalificou o crédito da rua. A segunda, porque colocou definitivamente em jogo o outro lado da barricada e lançou pedras para um realinhamento das forças e poderes sociais que se podem reflectir em mutações institucionais vindouras.

O grande desafio que adiante todos intervenientes têm é de se congregarem unitariamente, de se colocar um fim ao divórcio entre os vários grupos, dos formais aos mais informais, que representam a resistência democrática à destruição da democracia social, política, cultural e económica. Só um movimento amplo, democrático, popular, descomplexado e unitário poderá na rua resgatar todas as vítimas da tempestade de austeridade.

Esquerda.net

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