28 de setembro de 2010

A massa como alienada e possante barreira reaccionária


Na acção de litígio pela vox populi, é importante a análise de tudo o que as massas desejam e que a elite não apoia. Importante entender as razões pelas quais os direitos não são reivindicados e fundamental saber de onde vem o tumultuoso som anti-democrático que abafa a voz da revolta popular.

Sendo demasiadas as acções de fortificação da alienação, complicada se torna a missão da esquerda em fazer com que um possante grito de revolta exista. Agregar a raiva popular, nestes tempos em que a extrema-direita se espraia por toda a Europa, torna-se indispensável e obrigatória tarefa desta esquerda. A crise afecta, o capitalismo maltrata, as condições para o enaltecimento da consciência de classe existem. A razão pela qual o crescimento da esquerda revolucionária não acompanha o crescimento da extrema-direita simplista é ainda, e contudo, um tema a tratar.

A extrema-direita, porque alberga o populismo fácil, a revolta desprovida de consciência de classe, a raiva sem argumentação, porque carece de moral e de honestidade, tem conseguido cativar para as suas crescentes fileiras uma massa que, por também sofrer as consequências de um neoliberalismo selvagem, que por ser a principal fonte de riqueza, não tendo, no entanto, os benefícios económicos que, por esse facto, deveriam advir, devia ser nossa.

O desafio deve ser, por tudo, a conquista da vox populi. E essa conquista deve ser feita utilizando as armas de sempre: o despertar da consciência de classe, o dedo apontado à culpa da crise. Devemos vocacionar a nossa ira contra quem detém o capital e desmistificar todas as tentativas desonestas da extrema-direita, que tão imoralmente atrai votos através da estupidificação das massas e apelando ao racismo, à xenofobia e a todas as outras discriminações, usando o que é diferente da maioria como recipiente de raiva e desrespeitando e desprezando valores tão básicos quanto a igualdade e a liberdade.

Temos, na nossa história, a capacidade de mobilização à esquerda, seja no movimento estudantil ou nas lutas pelos direitos laborais, na oposição à guerra ou na solidariedade internacional. Hoje, no entanto, a capacidade de enraizamento político nas massas esgota-se na dificuldade de argumentar a política entre elas. O desinteresse, o conformismo, a retirada da esperança, a alienação possante pelo aparelho político podiam, realmente, explicar este fenómeno, ou esta ausência dele, mas isso não nos traria uma solução para o problema. Fundamental será também entender que o movimento não existe enquanto bloco imutável e intemporal e que já há anos não se mostra como agente de consentânea intervenção.

A ira transformada em conformismo, a consciência feita em alienação, a falta de intervenção política colectiva – tudo é consequência da não passagem, por razões adversas, do testemunho da mobilização que se fez ver e ouvir durante anos que fervilharam. Esta imobilização social, aliada a uma elite dirigista que aposta em fazer valer o capital, que não tem pudor em corromper e endrominar, dificultam o enraizamento da consciência política e mostram-se como uma potente barreira reaccionária. Contra esta, há que lutar, há que argumentar a esquerda e pensar politicamente, não deixando que a dialéctica nos distancie da metafísica. A revolta popular deve partir das massas e é nelas que devemos actuar. São elas aquilo que devemos ser.

Despertar a consciência de classe deve, por tudo o que foi dito, ser o acto principal para que possa haver uma mutação no centro de gravidade política. Eis a maior parte da luta. Eis a força que deveremos ter na revolta. Eis, finalmente, o caminho para a mudança, o trilho talhado para o socialismo ambicionado.

21 comentários:

  1. Mais um bom texto!

    Apenas discordo teoricamente da afirmação "não deixando que a dialéctica nos distancie da metafísica". Mas no sentido político e poético em que a empregas, concordo e subscrevo.

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  2. porque carece de moral (algo muito subjectivo, logo deve ter alguma moral

    e de honestidade....a poética da política
    ou a política da poética

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  3. a política como fonte de alienação

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  4. moral
    (latim moralis, -e, relativo aos costumes)
    adj. 2 gén.
    1. Relativo à moral.
    2. Que procede com justiça. = correcto!, decente, honesto, íntegro, justo, probo ≠ desonesto, errado, imoral, indecente
    3. Não físico nem material (ex.: estado moral). = espiritual
    5. Conforme às regras éticas e dos bons costumes.
    s. f.
    6. Conjunto dos princípios e valores morais de conduta do homem.
    7. Bons costumes.
    8. Conjunto de regras e princípios que regem determinado grupo.
    9. Filos. Tratado sobre o bem e o mal.
    10. Susceptibilidade! no sentir e no proceder.
    s. m.
    11. Estado do espírito. = ânimo, disposição
    moral da história: lição ou ensinamento que se pode retirar de um acontecimento ou história narrados. = moralidade

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  5. in http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=moral

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  6. despertar a consciência de classe, apelando ao voto em Alegre??? não percebo

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  7. A extrema/direita não é um perigo em Portugal!

    O PNR vale 1/2 dúzia de milhares de votos.

    "Despertar a consciência de classe deve, por tudo o que foi dito, ser o acto principal para que possa haver uma mutação no centro de gravidade política."

    Concordo, mas questiono: Há sindicalistas do BE nas fábricas? Não. Do PCP, sim. O BE ainda é um partido urbano de classe média com votos, mas sem militância.( 8 mil !)

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  8. filipe,
    Como se lê no Manifesto de K.Marx e F.Engels, sobre a "Posição dos Comunistas para com os Diversos Partidos Oposicionistas", "Lutam para alcançar os fins e interesses imediatos da classe operária, mas no movimento presente representam simultaneamente o futuro do movimento."

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  9. josé manuel faria,

    Considero que a classe trabalhadora está na fábrica e para além da fábrica. E vejo que a proletarização atinge cada vez mais sectores e que as precárias e os precários dos vários sectores também ocupam uma posição proletária na sociedade. O teu entendimento pode ser outro, o meu é este. E o partido é plural e democrático.
    Seja como for, se estás mais preocupado em dar nomes desses ao Bloco, estás a fazer muito pouco pela luta de classes e militância dessa, do mal-dizer, não se recusa mas também não se deseja.

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  10. subscrevo os comentarios do bruno.
    mais uma coisa: essa meia duzia de votos do pnr sao o suficiente para criarem o perigo de 10 de junho na martim moniz. de qualquer forma, o meu texto vem mais na contextualizaçao do crescimento da extrema-direita da europa em geral do que no contexto portugues. temos os casos da holanda e da suecia, por exemplo. noruega e' outro que tal.

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  11. então apelar ao voto em Alegre é, na tua opinião, no movimento presente representar simultaneamente o futuro do movimento???

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  12. o voto no alegre e' o voto na derrota do cavaco. e' tao simples quanto isso. o alegre, nao sendo perfeito, tem o que e' essencial num presidente da republica. ficarmos fechad@s num sectarismo doentio so' para nos dizermoes defensoras/es da esquerda pura e' infantil e irresponsavel. a revoluçao deve ser vista na capacidade de mudança, nao na teimosia de nos dizermos @s mais radicais, @s mais 'a esquerda, @s mais pur@s. eu recuso-me a adoptar esse papel. e empenhar-me numa coisa concreta que pode levar 'a derrota do cavaco, especialmente agora que o psd avança com o desejo sedento de destruir o estado social, mostra a minha preocupaçao com a necessidade de mudança na politica nacional.

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  13. Caro Bruno,
    Opinar é dar nomes ao BE?

    - Onde estão os bloquistas activos dentro das fábricas: não é isto a luta de classes?

    - O centro da revolução socialista não é a classe operária?

    - Há algum mal em dizer que o BE tem poucos militantes e que os seus eleitores são maioritariamente funcionários públicos?

    Antes pelo contrário! Fica-se a saber para onde crescer.

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  14. Ana Bárbara,

    Que eu saiba nunca na história, nenhum partido de esquerda (e digno de ser chamado "de esquerda", que tenha realmente transformado ou mudado alguma coisa na vida dos trabalhadores) apoiou um candidato que fosse simultâneamente apoiado pelo governo burguês em exercício de funções. A menos que consideres que vem aí o fascismo ou a guerra civil. Nesse caso, consigo perceber que se apoie um candidato deste género para conseguir evitar esse mal terrivelmente maior que é o esmagamento de todas as liberdades políticas e individuais.

    Em todas as campanhas eleitorais, normalmente na última semana de campanha, o PS faz esse apelo demagógico, "realista" (da realpolitik), chantagista e profundamente falso, que é: "Votem PS, a ÚNICA maneira de derrotar a direita, de derrotar a destruição do Estado Social, etc, etc, etc." Agora, o BE faz o mesmo com um discurso muito parecido: "Votar Alegre é o voto na derrota do Cavaco" (como se fossem sinónimos). Há inclusive camaradas teus que publicamente afirmam que não votar Alegre é votar Cavaco. Devo concluir então que em 2006 o meu voto em Louçã serviu apenas para eleger Cavaco?

    Gostava de saber o que é que para ti é essencial num presidente da república. A inevitabilidade dos PEC's? A sacralização da "estabilidade política" ao invés de defesa incondicional da melhoria de condições sociais para a maioria da população? Passar 30 anos na AR a votar todas as leis que vieram destruindo devagarinho (sem propostas de grande revisão constitucional que não fossem previamente acordadas com o PSD) o Estado Social e garantindo devagarinho que todos os interesses instalados dos grandes grupos económicos obtinham e aumentavam a sua renda?

    Chamo a atenção que a ameaça do PSD de destruir o Estado Social (como que se o PS não andasse também a destruí-lo paulatinamente há décadas) é, na tua opinião, mais uma razão para votar Alegre.
    Quando o "senhor que se segue no PS" (seja ele Sócrates, Costa ou Seguro) vier fazer campanha contra o BE, dizendo que só o voto neles é que derrotará a direita e garantirá que haja um governo "de esquerda", o que fazer?

    Talvez a tua resposta seja também "empenhar-me numa coisa concreta que pode levar 'a derrota da direita, especialmente agora que o psd avança com o desejo sedento de destruir o estado social, mostra a minha preocupaçao com a necessidade de mudança na politica nacional". Talvez essa resposta seja votar PS, não? Entre a cópia (BE) e o original (PS), talvez o original seja mesmo melhor "para derrotar a direita". É essa a conclusão desse pensamento?



    O resto do teu "paleio" não percebo. Passo a citar: "ficarmos fechad@s num sectarismo doentio so' para nos dizermoes defensoras/es da esquerda pura e' infantil e irresponsavel. a revoluçao deve ser vista na capacidade de mudança, nao na teimosia de nos dizermos @s mais radicais, @s mais 'a esquerda, @s mais pur@s. eu recuso-me a adoptar esse papel."

    Não sei se faz parte da cartilha que dentro do BE usam para combater quem não vota Alegre.

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  15. faria,
    Já te disse a minha perspectiva sobre o proletriado e a crescente proletarização.
    E até parece, de acordo com o que dizes, que os funcionários públicos (administrativas, varredores, auxiliares das escolas, professoras...) não são trabalhadores. Não conheço a origem dessa tua estatística, ainda assim: Qual é o problema de termos funcionários públicos a apoiar o Bloco?

    quanto ao "filipe", seja ele ou ela quem for, permito-me um comentário: foste tu que introduziu a questão do alegre e nós não nos baralhamos no objectivo que mais convém à defesa dos interesses das trabalhadoras e dos oprimidos: lutar para a eleição daquele que será o presidente mais à esquerda desde o 25 de Abril.

    A luta pela eleição desse presidente é fundamental, no momento em que a verdadeira "guerra civil" é o ataque às conquistas civilizacionais do pós-guerra, um ataque ao Estado Social, aqui e por toda a Europa.
    Aos mais distraídos: as próximas eleições são "presidenciais" e, não se enganem a marcar o ano (e)lectivo: estamos em 2010/11, não em 2005/06.

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  16. extrema direita = populista ????( LOL), desisti aí de ler .

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  17. filipe, perdeste qualquer credibilidade com essa do BE ser uma copia do PS. e nao percebo muito bem a ligaçao entre as presidenciais e o meu texto, nao.

    1143, tendo em conta que a extrema-direita em portugal nao consegue juntar duas frases coerentes ou dizer meia frase inteligente, nem se esperava outra coisa ;)

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  18. Ana Bárbara disse...
    moral
    (latim moralis, -e, relativo aos costumes)
    adj. 2 gén.
    1. Relativo à moral.
    2. Que procede com justiça
    és um dicionário?
    se és deves ser dos baratinhos

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  19. perdeste qualquer credibilidade quando atacas o que eu sou
    eu sou o Bárbaro Bloco
    logo inatacável
    conheci alguns que sairam do Bloco por isso
    Monolitismo no discurso e no pensamento

    Bem e Mal francamente...és o Walt Disney do BE?

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  20. pois, aos fazeres questão de dizer que os outros não são credíveis, que são irresponsáveis ou infantis, nota-se bem o desespero em colar na lapela a credibilidade, a responsabilidade e a maturidade. são adjectivos que tu (ou o BE) bem procuram. não são adjectivos que me preocupem.

    não percebes o que é que o teu texto tem a ver com as presidenciais? o teu texto fala de uma revolução... o apoio a alegre é tudo menos isso. coincidências curiosas. nada mais.

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  21. curiosas
    mas não coincidências

    e a Maria de Lurdes Pintassilgo destas eleições é a AMI
    e um Freitas mais desfalcado é Alegre

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