25 de janeiro de 2012
Fazer como na islândia?
Islândia, e agora?
A Islândia é frequentemente citada no debate público, quer a propósito dos resgates do FMI, quer sobre o “default” da dívida, o “não pagamos”. Sob a ameaça da “dividocracia”, o que se passa realmente na Islândia”? Separar factos de mitos parece essencial na discussão de alternativas ao “regime de credores”. De que país falamos? (ver mais) Artigo de Luís Fazenda
22 de junho de 2011
Socialismo sem muros

Era segunda-feira, 30 de maio, faltavam poucos dias para as eleições. Estava na sede nacional, no meio de uma série de tarefas de campanha e em campanha todo o tempo é pouco. Mas houve uma ótima razão para interromper toda essa agitação. Tocaram à porta uma rapariga e um rapaz que vinham da Áustria e queriam conhecer o Bloco de Esquerda.
Falaram-me da política austríaca, nomeadamente da não existência de um partido socialista e anti-capitalista com expressão nacional na Áustria. A jovem e o jovem de que vos falo fazem parte de um pequeno grupo de esquerda chamado Linkswende (Left Turn) ligado à International Socialist Tendency, corrente trotskista da qual é figura destacada Alex Callinicos e que tem como figuras histórica Tony Cliff, fundador do britânico Socialist Workers Party. Contaram-me as dificuldades dos grupos de esquerda na Áustria em gerar uma força de esquerda capaz de conseguir levar a sua voz e as suas propostas ao parlamento nacional. Desses pequenos grupos, os que chegam a conseguir apresentar-se a eleições nacionais têm frequentemente muito abaixo do 1%: os 0,05% (zero vírgula zero cinco por cento) do Sozialistische LinksPartei, nas legislativas de 2006, por exemplo.
Um dos motivos imediatamente apontado pela jovem e pelo jovem para a fraqueza da esquerda socialista austríaca foi o sectarismo.Recomendei-lhes a leitura do artigo do Francisco Louçã: "Sectarismo: um fantasma que ameaça a esquerda" (http://combate.info/media/
A experiência do Bloco de Esquerda interessava-lhes muito. Falei do Começar de Novo (http://www.bloco.org/media/
À data da visita daquela jovem e daquele jovem da Áustria que anseiam por um partido que faça a diferença, que lhes dê voz, esperança e futuro, eu já tinha a percepção da derrota que se aproximava. Dias antes, falava com uma camarada sobre isso. Qual é o pior resultado que nos dão nas sondagens? perguntei-lhe. Respondeu-me um número desagradável que nem estava muito longe do que veio a verificar-se. Depois, questionei a camarada e se tivermos esse resultado no dia 5, o que é que temos no dia 6? A resposta dela foi que tínhamos força para lutar e para dar a volta a isto. E a minha resposta foi esta: que temos um partido para lutar e conquistar o futuro. A história da esquerda é feita avanços e recuos, conquistas e derrotas. O que eu vi na noite de dia 5, na sede nacional, foi muita unidade e muita força, uma estranha força que intrigou os jornalistas.
Nos dias seguintes, a história pública e publicada é sobejamente conhecida e agravam a situação de um partido saído da sua primeira grande derrota. Mas para além disso e sem fugir a essas controvérsias, há um trabalho minucioso, diário, demorado, do debate profundo e multi focado das razões do crescimento e do recuo do Bloco. Tenho participado em muitos desses momentos, formais e informais, de debate e principalmente escutado. Militantes e simpatizantes de vários lugares e com diferentes opiniões têm-me ensinado a ver a questão de vários prismas; estas análises não são simples. É com elas e com eles, com as suas opiniões, o seu trabalho diário e o seu contributo que vamos seguir em frente.
O frenesim das minhas tarefas de campanha parou por um momento, naquele dia. Como socialista, como europeísta de esquerda, tive a percepção de que era importante trocar ideias e experiências com jovens que, como eu, estão comprometidos com a busca de uma alternativa democrática e socialista ao capitalismo. Faço votos para que tão breve quanto possível se possam orgulhar, na Áustria, de ouvir de uma bancada sua uma saudação como a da Catarina Martins à queda do Muro de Berlim: http://youtu.be/7sEc447PWKY.
(também publicado em www.acomuna.net)
22 de maio de 2011
Zizek e o "fazer qualquer coisa"
Luís Fazenda escreve (a pag.s 39-45 de A Comuna nr. 25) sobre Slavoj Zizek, nomeadamente analizando criticamente o livro Da tragédia à Farsa:"Slavoj Zizek é um pensador a reter, hábil no modo como desconstrói a ideologia dominante através da exposição crua dos seus lugares-comuns culturais, eficaz quando utiliza a razão lógica para pôr em cheque muitos dos absurdos que são tomados por racionais na ordem mediática.
(...)
"Zizek deixou de lado da análise marxista tudo o que releva da economia: a exploração capitalista da força de trabalho, a anarquia do mercado, o processo de centralização da propriedade de meios de produção e troca, o imperialismo como guarda da posição dominante de mercado. A produção do ambiente, a privatização da propriedade intelectual, a alienação do controlo biológico, alguns dos expoentes do capitalismo dos dias de hoje, e expressão da selva na civitas, não são outra coisa que o desenvolvimento do lucro privado sobre o trabalho social acumulado.
(...)
"Zizek até reconhece como foi funesto para o "socialismo realmente existente" ter ignorado a democracia. Não fixa, porém, sobre isso qualquer necessidade própria, nem indicação teórica, para o papel da democracia no combate ao capitalismo, nem garantias sobre a soberania popular que o socialismo há-de ter.
(...)
"É, de facto, preciso trazer novas "luzes" ao pensamento revolucionário para actualizar o marxismo, quer com as metamorfoses do capitalismo, quer com a correcção dos erros do socialismo que o deixaram a perder. (...) Zizek "não sabe o que devemos fazer", sublinha-se a honestidade do conteúdo. Mas antes de fazer qualquer coisa, caro leitor pense e pense com os sujeitos colectivos da luta de classes."