31 de dezembro de 2011

ah e tal, mudou o ano

se o natal, para mim, é tempo de amor, com a passagem de ano já não tenho nenhuma relação romântica. anda por aí meio mundo com desejos muito fofinhos para o próximo ano, cheios de harmonia, solidariedade e paz no mundo. quanto a mim, só desejo que o passos coelho se deixe de politiques e descubra a sua vocação. seja pasteleiro ou jogador de futebol (até pode ser do f.c.vizela), não me importa muito. desde que não ande para aí a fazer asneiras, por mim está tudo bem. já agora, que leve o resto dos ministros e o presidente. podem sempre abrir uma pastelaria ou formar uma equipa para jogar à bola.

O PS pede explicações ao PS

E eis que, 6 meses depois, a UGT apercebe-se que o acordo da troika tem o anti-sindicalismo como uma das apostas centrais para a mudança do sistema de contratação e negociação em Portugal. Estão "abertas as portas ao sindicato do patrão", diz João Proença - e quem as abriu João? O PS vai mais longe e quer que o governo PSD/CDS explique ao PS aquilo que o PS escreveu em carta à troika.

"De forma a promover reajustes salariais em linha com a produtividade a nível da empresa iremos: (i) permitir que os conselhos de trabalho negoceiem condições de mobilidade e do tempo de trabalho, (ii) redução do limite abaixo do qual as comissões de trabalhadores ou trabalhadores de outras organizações não pode celebrar acordos colectivos de trabalho para 250 empregados por empresa, e (iii) incluir nos acordos colectivos sectoriais as condições em que os conselhos podem independentemente concluir acordos colectivos de trabalho a nível de empresa."

Governo PS - Carta à troika, Maio de 2011.

PS: Consta que Paula Pedroso foi avistado nas proximidades do Largo do Rato, cartão de militante em Punho e uma raiva a nascer-lhe nos dentes.

30 de dezembro de 2011

"AN OPEN LETTER TO THE OCCUPY WALL STREET PROTESTERS"




Há vidas bem piores do que esta, a autora do vídeo "An Open Letter ...", Julie, sabe-o e afirma-o. (imaginem que tínhamos de padronizar a nossa vida pela sorte de "pelo menos" termos vivido mais que a criança que morreu de subnutrição nos primeiros dias de vida, com a boca no peito seco da sua mãe subnutrida, e há dúvidas sobre se esta criança que morreu ao colo da mãe viveu pior que outras que morreram sem ela; por agora é só para os "menos-mauistas").
Este é o testemunho da Julie sobre o seu regresso aos Estados Unidos. Sobre como é viver num país onde a tua saúde depende de um seguro que não consegues pagar.
Não temos de aceitar os Poor Standards que os clientes da Standard&Poor's ou da Dagong nos queiram impor. O que a Julie reclama para si e para todos, poder pelo seu trabalho receber o suficiente para pagar a renda e ir à mercearia, ter acesso à saúde e à educação e, claro, os meios para o conseguir: a taxação das grandes empresas e fortunas; o que a Julie quer é um mundo a que temos direito, um mundo em que conseguimos preencher as nossas necessidades com dignidade. Temos direito a isso e muito mais.

25 de dezembro de 2011

Leituras de fim de ano II

Leituras de fim de ano

"Entre 1918 e 1968 as forças da revolução e contra-revolução travaram uma batalha incessante no cenário europeu. Na Alemanha e na Espanha, os partidos comunistas dirigidos por Moscovo levaram o movimento revolucionário ao desastre. Nas décadas seguintes à segunda guerra mundial a democracia foi constantemente ameaçada por movimentos de direita, que almejavam restringir fortemente os direitos democráticos. Este "bonapartismo" ameaçou continuamente a democracia em França até à revolta estudantil e operária de 1968, que destruiu as fundações do gaulismo.

Neste livro, Pierre Frank, um líder e participante do movimento revolucionário dá as suas perspectivas sobre estas lutas, ao longo das quais se tornou, provavelmente, o mais conhecido revolucionário anti-estalinista em França."

24 de dezembro de 2011

natal em vizela








ateísmo à parte, criança em época natalícia me confesso. não sou católica, não suporto compras, as multidões trazem-me à lembrança a asma que me arde cá por dentro, fico doida com as esperas nos supermercados, não tenho qualquer apreço por doces de natal, aquelas coisas cheias de açúcar que me deixam o insuportável sabor adocicado na boca, e ai de mim se me põem bacalhau à frente. ainda assim, criança em época natalícia me confesso. se é certo que escrevo hoje, a 24 de dezembro, verdadeiro natal para mim, também não é errado que, para mim, o natal começa em setembro e acaba lá para maio. chega o natal e, olha, de repente tudo é claro, a vida é clara, o norte não traz segredos. vizela não esconde nada, pinta-se nos tons ebúrneos e verdes e as pessoas são inteiras e um livro aberto de passados. a ternura inventada pelas ruas, a solidão que amanhece nestas luzes. a súbita alegria triste e o remorso, a culpa de estar viva. o natal está a chegar e há uma tarde a amanhecer, uma noite que entardece, enquanto se enterra os mortos no açúcar que se esvai. por isso tivemos braços para o adeus, por isso tivemos lábios para sorrir, por isso veio o natal para a acalmia do pesadelo do ciúme. tempo de nostalgia confiante, de edificação tortuosa, alegre na convicção. assim chega o natal e ele acontece no teu corpo e no ritmo dos teus dedos. noite em que nasce a poesia, vida que nasce dos poemas. chega o natal e eu não posso senão amar a agitação palpitante das ruas de vizela, as montanhas que ficam lá em cima, as pessoas que correm e os sorrisos multiplicados nas caras das velhinhas. não posso senão amar o sentimento claro, tão claro como as manhãs de quarta-feira em que o sol penetra as árvores do jardim e o centro se torna num poema prosaico de cesário verde, e a ânsia grande, tão grande, de dar, escondida no embaraço contido de receber. vizela é um mundo à parte do resto do norte, uma imensidão separada do resto de portugal, e lá o natal é mais fácil, acontece mais vezes, mais cedo e dura mais tempo. para mim só há natal porque um dia houve vizela e foi em vizela que o amor nasceu, que fiquei duas horas na varanda da minha avó à espera do pai natal, após ter garantido que daquela vez ele não me conseguiria escapar, vindo depois a descobrir que o malandro tinha entrado pela porta da cozinha e tinha ficado a conversar com os meus pais, que todos os miúdos da rua se riram de mim por ser a única a acreditar no pai natal, que ri de todos os miúdos da rua porque eles achavam que eram o papã e a mamã que compravam as prendas de natal, que fiquei uns três anos a fingir que ainda acreditava no pai natal para que o papá não ficasse triste e achasse que eu ainda era muito pequena, que montei presépios com musgo verdadeiro com metro e meio de comprimento e sujei a cozinha toda, que fui à beira do rio buscar terra para encher o vaso em que ficaria o pinheiro. foi em vizela que vi as primeiras luzes, as da vida e as do natal, e, por curiosidade absoluta, elas fundiram-se e foram sempre as mesmas. a cada dia, um novo ano, mais lento e mais rápido no turbilhão das memórias tão cheias de uma terra que é rainha. a cada ano, um novo dia, porque a vida vai seguindo devagar, ao ritmo vizelense apressado, fugindo das noites que amanhecem. a nostalgia dolorosa e a saudade feliz de ter conhecido um natal em vizela. o remorso indesculpável de o ter perdido para sempre e de saber que ele é meu no cheiro da canela. a culpa, a alegria de estar viva. o natal em vizela é o natal dos sonhos e dos abraços. por ele, os braços que temos para o adeus erguem-se na construção de outro natal. por ele, os lábios para sorrir não perdem tempo com conversas. ternura inventada pelas ruas, o natal acontecerá no corpo dela.


(BRUNO DE GÓIS, COMO É QUE SE MUDA ESTA LETRA, PÁ?!)

23 de dezembro de 2011

Carlos Moedas é sócio de membros do Conselho de Administração da Açoreana Seguros (BANIF), Tranquilidade Seguros(BES), Seguros LOGO.


Já aqui demos conta de como o Secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, o Goldman Sachs boy Carlos Moedas, caridosamente passou a sua empresa do grupo Carlyle para o nome da sua esposa. Carlos Moedas tinha prometido, em Agosto, desfazer-se das participações que detinha em três empresas, por enquanto cumpriu a promessa em uma delas, faltam duas.

Uma é a SHILLING CAPITAL PARTNERS, SGPS, LDA, que se descreve como uma sociedade de "Gestão de Participações Sociais Noutras Sociedades, Como Forma Indirecta de Exercício de Actividades Económicas", traduzindo: especulação bolsista e seguros. O secretário de Estado detém 20% da sociedade, um dos seus sócios é a MOGOPE (18%) - um fundo de investimento que detém participações na SIC, TSF e na Kendall Develops. Esta última é um “veículo de investimento criado por João Rendeiro (BPP)” que até pouco tempo detinha 3,3 por cento da Brisa e 5 por cento da brasileira OHL, e cujo maior accionista é a Privado Holding (dona do BPP).

Outro sócio de Moedas é o Engº. Diogo António Rodrigues da Silveira (20%), Presidente da Comissão Executiva da Açoreana Seguros (BANIF), membro do Conselho de Administração da GIGA - GRUPO INTEGRADO DE GESTÃO DE ACIDENTES e da Associação Portuguesa de Seguradoras.

Segue-se João Peres Coelho Borges (20%), membro do Conselho de Administração de dez empresas, entre as quais podemos encontrar a GENERIS - FARMACÊUTICA, S.A. ( nº 1 no ranking das empresas nacionais em vendas hospitalares e líder nacional de vendas em oncologia) e a MER MEDICAMENTOS.

Por fim, Hugo Mota Canova Canelhas Gonçalves Pereira (2%), que para além de estar no Conselho de Administração da já referida MOGOPE ainda se encontra na direcção da ISQ - SOCIEDADE DE CAPITAL DE RISCO, S.A. que investe sobretudo em ambiente e saúde.


A outra sociedade na qual o secretário de Estado Moedas detém participação é a WIN World, cuja especialidade é a organização de palestras e cursos de formação para empresários (CEO Conference; EGP-UPBS Leadership Grand Conference; Happy Conference and Business Innovation Program). Carlos Moedas juntava, inclusive, a sua participação accionista à função de orador, sendo distinguido o seu “incrível talento para explicar matérias complexas de uma forma fácil e acessível”. Uma opnião de certo partilhada por Passos Coelho.

Como sócio de Moedas na WIN World encontramos: Miguel Maria Pitté Reis da Silveira Moreno, membro do Conselho de Administração da Tranquilidade Seguros (BES), seguros LOGO (BES), Espírito Santo Saúde e a E.S Contact Center, sociedade gestora de Call Centers.

Carlos Moedas é o secretário de Estado responsável pela coordenação do programa da troika, como tal uma das suas funções será supervisionar o processo de privatização dos seguros da CGD. Mas não há problema, quando esse momento chegar provavelmente Moedas já terá cumprido a sua promessa de alienação destas participações, que estarão, seguras e florescentes, na posse da senhora Moedas.




22 de dezembro de 2011

República Popular...



Sabedoria popular.

“Para Marighella, tudo parecia normal enquanto caminhava lentamente em direção ao carro – até estourar a fuzilaria. O primeiro tiro que o atingiu atravessou as suas nádegas; o segundo, acertou-lhe a virilha; o terceiro, feriu de raspão o seu rosto. Caído no meio da rua, imobilizado pelos ferimentos, foi cercado e executado às queima-roupa com um quarto tiro. Em um reflexo defensivo, elevou a mão e teve um dos dedos estraçalhado pela bala que lhe perfurou o pulmão e a aorta, provocando-lhe hemorragia interna e morte instantânea.” Dos filhos deste solo, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio

21 de dezembro de 2011

Carlos Moedas para Grupo Carlyle:" a minha esposa trata disso"

Toda a gente já percebeu a minha queda pelo Moedas. Cada um com a sua fraqueza. A minha é conhecer quem me lixa, mesmo que seja com voz suave e cara de bom aluno. E tenho cá para mim que o Moedas também me conheçe, pois de todos os membros deste Governo este é, com certeza, o que mais pesquisa o próprio nome no google.


Agora, o que eu acho que toda a gente gostaria de saber é porque é que este jovem senhor bem composto, o Secretário de Estado da troika, anuncia em Agosto que se encontra em "processo de alienação de todas as participações que tem naquelas empresas", sendo uma dessas empresas a Crimson Investment Management, empresa do qual era o principal gestor e que funciona como testa-de-ferro de um fundo de 2,2 bi do Grupo Carlyle e, em 10 de Dezembro, na 4º Conservatória do Registo Comercial de Lisboa, esta, que era uma sociedade anónima detida pelo Moedas, Miguel Pais do Amaral, João Brion Sanches, Filipe de Button e Alexandre Relvas, passa a ser detida, em exclusividade pela esposa de Carlos Moedas.




Aceitam-se palpites (quiçá até do próprio Moedas, que honra seria)

nem jovens nem professorxs nem passos coelho. ninguém sai daqui e acabou. oh, pronto, o passos pode ir para a ilha.

se, por um lado, o passos quer mandar o povo lá para fora, por outro, o pessoal de bruxelas não nos quer a vaguear por aí.

eu até compreendo @s belgas. não consigo confiar muito em pessoal que votou num jotinha que, após 6 meses de governo, desiste enquanto pede sacrifícios que persistam.

não vou, no entanto, entrar no jogo inglório dxs jovens que aconselham o governo a emigrar. acho muito injusto, muito umbiguista, muito imaturo da parte delxs. xs desgraçadxs dxs estrangeirxs não têm culpa nenhuma do povo português ter eleito aquele circo. votaram nele, agora aturem-no. não tentem é empurrá-lo para o lado que der mais jeito. eu, se fosse estrangeira, também não quereria aturar disto. sentir-me-ia, aliás, muito magoada se me mandassem aturá-lo só para salvarem a própria pele.

saliento só que eu não tenho culpa nenhuma disto. não seria, portanto, mal pensado que passos coelho, amigxs e votantes fossem para uma ilha deserta qualquer e deixassem o povo decente em paz. deserta. nada de estrangeirxs. elxs são fixes como nós e também não lhe acham grande piada. pelo menos, xs mais inteligentes.

19 de dezembro de 2011

Carta aberta ao Senhor Primeiro-Ministro


Este testemunho que agora partilho, emotivo e verdadeiro, foi publicado no facebook e roubado por mim aqui. Toda a minha solidariedade, respeito e disponibilidade para ajudar a fazer emigrar Passos Coelho.

"Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.

Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro.

E como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.

Myriam Zaluar, 19/12/2011"

Cenas do socialismo real!


"Mulher de Negócios do ano"
Isabel Vaz - Comissão Executiva da Espírito Santo Saúde



"Estima-se que o volume de negócios dos hospitais privados tenha ultrapassado os 700 milhões de euros em 2009 e atinjam os 1 200 milhões de euros nos próximos dois a três anos. Os hospitais privados têm, actualmente, 3 000 camas, devendo atingir as 5 000 com novas unidades de saúde, são já responsáveis pela realização de mais de 25% das cirurgias em Portugal e apresentam um peso crescente em todos os indicadores de produção clínica". Todos estes grupos possuem companhias de seguros especializadas também em seguros de saúde (em Portugal já existem mais de 2,3 milhões de portugueses com seguros de saúde)."


Aconselhamos o governo a emigrar


18 de dezembro de 2011

Repito: Jovens aconselham o governo a emigrar

“Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras” disse Alexandre Miguel Mestre em visita à comunidade portuguesa e de luso-descendente em São Paulo. O secretário de Estado da Juventude e do Desporto junta assim mais uma peça ao discurso do governo: vamos exportar a juventude!

É uma proposta coerente com a estratégia do Governo PSD-CDS. Lembram-se do ato falhado de José Sócrates, quando disse que queira "um país mais pobre"? Pois bem, o que o Governo PS disse entre dentes, o Governo Passos-Portas afirma solenemente como grande estratégia nacional: temos de empobrecer. E porquê? Para "renascer das cinzas", pois claro. Havia de ser para quê? Tudo isso é coerente, o país empobrece e aumenta-se a exportação de pobres. O secretário de Estado (aliás devia ser promovido a ministro!) quer melhorar a qualidade dessas exportações, o que é uma ótima ideia. A sua proposta é corajosa, diz que não devemos ter medo da "fuga de cérebros", que não devemos ser negativistas. Ou seja, exportações de qualidade, os mais jovens, as mais qualificadas. É um plano com futuro, não haja dúvida.

Há apenas um problema. "Vão viver pior que os vossos pais" não anima nem mais novos nem mais velhos. "Os vossos filhos vão viver pior que pais e avós", muito menos. Podem tentar atirar-nos areia para os olhos, com o discursos dos "horizontes de esperança"1 da emigração. Podem insultar-nos de vivermos na "zona de conforto", esse país que condenam a empobrecer. Mas nós é que temos um conselho para o Governo. Os jovens que não querem ser expulsos por traidores, as trabalhadoras que não querem ser condenadas às paredes do lar, os pais e avós que não fizeram o 25 de Abri para aturar esta contra-revolução que de meia hora em 13º mês nos rouba o passado e o futuro: aconselhamos o governo a emigrar e, como dizia o outro culpado, deixem-nos trabalhar!


1 Referência à obra de David Harvey "Espaços da esperança" (Loyola, 2000).

14 de dezembro de 2011

Assalto à EDP


O Governo abdica de ter posição estratégica na EDP, mas a privatização será para empresas controladas por outros governos.
O Conselho de supervisão inclina-se para a China Three Gorges Corporation e para a alemã E.ON, empresa onde Merkel tem poder e influência. Sobram as brasileiras Eletrobras (governo federal brasileiro) e Cemig (governo do estadual de Minas Gerais).
A E.ON decidiu despedir 11 mil dos seus 80 mil funcionários (jura, por agora, que a EDP ficará de fora). E a isto se juntam os baixos padrões chineses de direitos laborais.
No xadrez de interesses estatais externos e com catalisadores da destruição do emprego e direitos laborais, o futuro não é luminoso.

13 de dezembro de 2011

Desamarras. Rostos do Rendimento Social de Inserção do Porto


Para que serve o Rendimento Social de Inserção?
Financia a preguiça ou é uma medida socialmente útil e indispensável?
Que problemas e questões se levantam na vida de quem dele beneficia?
Estas são algumas das suas vozes.

Realização e produção de João Carlos Louçã, Nuno Moniz, Ricardo Sá Ferreira, com a colaboração de esquerda.net.

Projeção e debate:
Setúbal, dia 15 dezembro às 21h30 na Prima Folia, com Isabel Guerra.
Lisboa, dia 21 dezembro às 21h30 na Ler Devagar/Lx Factory, com Renato Miguel do Carmo.
Brevemente no Porto, Coimbra e Braga.

12 de dezembro de 2011

what/who the fuck is gil garcia?




um pequeno município mais populoso do que um novo partido que estará condenado à sua pequenez. à pequenez da sua honestidade, da seriedade intelectual dos seus membros e da sua memória histórica.

mas vá, que sigam lá o rumo até às causas fracturantes, deixando de lado a paridade entre homens e mulheres (que não é de classe), continuando com atitudes inefáveis como lutar contra o referendo sobre o aborto (que o malandro do sócrates também queria), apoiando o voto em branco como arma poderosíssima contra o cavaco (que isto de ser mesmo de esquerda até deixa a direita ganhar).

continue o mundo rupturesco sectário, mas que, pelo menos, não continue parasita dentro do bloco, que isso do entrismo é muito feio.


vamos lá ver se tanta tinta gasta, tanta paciência perdida e tanta desonestidade vergonhosa rupturesca culminarão em mais do que os cerca de 6 mil votos que a FER teve em 1991, já que esta força agregadora d@s revolucionári@s (aka d@s trabalhadoras/es, porque em cada trabalhador/a há um/a revolucionári@) parece querer erguer-se num discurso construtivo que dá a ideia de nascer daquilo que ficou em cinzas, tal qual fawkes, sem se aperceber de que a vida interna do bloco funcionará certamente melhor sem parasitas que não tentam sequer ocultar o seu entrismo indiscreto e o seu infindável apreço pelo sangue do francisco louçã.

eu cá ficarei à espera de ver as desculpas dos próximos meses.

até amanhã, camaradas!

É apenas fumaça…

Pode o CDS-PP mandar pontapés na (já finada) Maria José Nogueira Pinto numa reunião do Conselho Nacional do Partido, uma facção do PSD puxar o tapete aos santanistas e a Menezes estando estes na liderança do partido, o PCP purificar o partido vezes sem conta e o PS ter Mário Soares e os Socráticos a fazer campanha pública contra Seguro. Tudo como tinha de ser. Agora, basta um partido, cujos militantes (dizem que são 200) também estavam inscritos no Bloco de Esquerda (que para o ano alcançará os 10 mil militantes), anunciarem que renunciam a essa condição e aceleram-se os corações nas redacções, um frio ansioso e festivo toma conta dos directores de informação. Que assim seja não causa admiração, o Bloco segue sendo o Bloco, mas também é certo que uma certa interrogação perpassou muitos dos que leram tanto o anúncio da FER assim como o do Bloco, “o que daqui é verdadeiro ou falso?”. E discutir a política pela política é sempre a melhor via para o entendimento

O António Paço anda distraído e pergunta quando e onde a Ruptura/FER apelou ao voto em branco nas presidenciais. Bastava uma rápida pesquisa na net para saber que isso aconteceu, seguido até do acrescento – “ou em Francisco Lopes”. Quanto ao apoio aos Talibã a polémica pode ser consultada aqui. O Zé Neves diz que isso é boca, eu acho que é uma escolha política, uma escolha de quem se diz que quer ser alternativa. Até poderia ser dito mais, como por exemplo o facto da Ruptura/FER distribuir um documento em sessões públicas do BE no qual constava a defesa do apoio aos ataques do Hamas às populações civis de Israel.

Esse era, é certo, um documento (o Correio Internacional como lhe chamam) da sua internacional – a LIT-QI, mas hoje, como sempre na história, quem distribui um panfleto defende esse panfleto. Coisas de pormenor dirão alguns, “não são questões essenciais”. Até poderia ser, não fosse o caso de se poder perceber, por essa via, a questão essencial desta saída: porquê agora?

Porquê depois de anos de entrismo, de em 2007, no seu congresso a facção do Renato Teixeira ter proposto a saída do Bloco (misericórdia Renato, misericórdia), de em 2010 fazer a tentativa (falhada) de recolher 10% de assinaturas para a convocação de uma convenção extraordinária, de em Março ter anunciado a saída para correr a desmentir, de descrever o Bloco tal como assinala o Fabian no texto abaixo, e de há dois anos não participar na vida do Bloco. Porquê agora?

A resposta foi dada aos seus camaradas internacionais um mês antes do anúncio em Portugal. No congresso da LIT-QI, em Outubro passado, a mesma FER que em Portugal sai do Bloco de Esquerda para “por na ordem do dia a necessidade de uma nova revolução social" é a mesma FER que dita que:


Sobre Portugal, também se abordou o caráter da situação política e, a partir dessa definição, como ordenar as consignas dentro do programa a propor às massas. Neste sentido, deu-se outra discussão sobre que localização (na agitação ou na propaganda) deve ter as consignas de poder. Isto é, que papel teriam palavras de ordem como: Por um governo operário e popular. Definiu-se que a situação é pré-revolucionária e que as consignas de poder ainda estão no terreno da propaganda, ainda que sejam muito importantes para ir disputando a vanguarda.


e não me vão dizer que isto foi aprovado à revelia dos camaradas portugueses. Ou seja, a onda mais surfada por Gil Garcia nos últimos dois anos, “um governo BE-PCP”, é isso mesmo, uma onda que corre no terreno da propaganda, mas como a situação é pré-revolucionária (curiosamente o mesmo documento diz que no mundo ela é revolucionária), urge ganhar a vanguarda. Traduzindo: os indignados que se cuidem.

As cortinas levantam-se e vê-se o rabo dos actores: a propaganda justifica-se a si mesmo, não levanta questões, não confronta a urgência da organização nem aponta caminhos. Sair, rápido e em força pois finalmente há uma "vanguarda" a disputar. Por isso não aflige a Gil Garcia o que vai dizer em Março quando criar a recauchutada força política, ou vai propor novamente um governo do PCP (que aqui há poucos anos descrevia como “o partido da aristocracia e da burocracia sindical, o partido que desmobiliza e trai constantemente as lutas operárias e sindicais) e o BE, a quem apelida agora de incapaz? Ou será a FER a alternativa de Governo de um país em situação pré-revolucionária num cenário de suspensão total da dívida e saída do Euro?

Não se sabe, nem interessa. E como tudo cabe na propaganda venha daí o populismo rasteiro dos “financiamentos avultados” (qualquer das principais Associações Académicas do país tem um orçamento superior ao do Bloco) e a tragicomédia de erguer a bandeira das causas fracturantes, o mesmo partido que defendia a primazia do ataque ao Governo sobre a campanha unitária do Aborto e que sempre desvalorizou a MGM ou outras causas.

Para quem está na esquerda, na luta contra a troika e contra a política da bancarrota, há duas perguntas se impõem: 1) o que acrescenta este novo partido dirigido por Gil Garcia? 2) O que este partido contribuiu para os novos movimentos de contestação social? A resposta virá com o tempo.

Pérolas revolucionárias

Desde a oficialização "oficial", vale a redundância, da saída do Ruptura/FER do BE, vieram novamente à baila algumas divergências entre a maioria do Bloco de Esquerda e a corrente Ruptura/FER. Vamos por fases:

A saída do Bloco

1. A FER decidiu sair do Bloco no inicio de 2011 por causa do Alegre e do abandono das causas fracturantes? Isso dizem eles agora, porque, na verdade, era um plano bem antigo..

"Em Portugal, fazemos parte do Bloco de Esquerda e trabalhamos no seu interior sem ilusões sobre a sua evolução. No caso do Governo Sócrates não manter a sua maioria absoluta, a pressão para formar uma coligação PS/BE será muito forte. Em todo o caso, considerando as condições actuais, o trabalho no BE e, mais ainda, a actividade nos movimentos sociais enquanto militantes dos Bloco, representa a melhor táctica para chegar outros sectores militantes e a que oferece melhores possibilidades para a construção de um partido, a partir da nossa inserção na juventude e no sector bancário."

In texto Europeu das Teses do congresso da LIT de 2008, página 10

Original em italiano está disponível aqui: http://www.partitodialternativacomunista.org/index.php?option=com_content&task=view&id=810&Itemid=45

A FER nunca publicou este texto no seu site. A versão em espanhol que esteve disponível no site da LIT omitia este momento de franqueza dos militantes da LIT

2. O Ruptura tinha certeza de uma coisa, que iria sair do Bloco não sabia era quando. Aliás entende desde início que o BE é: "um remake pouco original das velhas e reaccionárias utopias do reformismo europeu". (Teses congresso LIT).

A questão dos Talibans:

A direcção do Bloco na sua nota redigiu o seguinte:

"Os membros do Bloco lembram-se de intervenções tão extravagantes como o apelo à constituição de brigadas para apoiar os talibãs no Afeganistão"

Os membros do Ruptura/FER têm-no negado publicamente, ou como Gil Garcia nas inúmeras declarações públicas que fez, têm evitado abordar o assunto, mas vamos aos factos e às fontes:

1. A LIT, a organização internacional da Ruptura/Fer, com sede em São Paulo, enviou uma carta ao Partido dos Trabalhadores do Paquistão (LPP, Labor Party of Pakistan) intimando os seus dirigentes e militantes a combaterem sob o comando dos talibans no Afeganistão. Farooq Tariq respondeu em nome do LPP lembrando simplesmente que, se os militantes paquistaneses, ateus e revolucionários, se colocassem ao serviço dos talibans, seriam sem dúvida gentilmente assassinados por estes e de imediato, tornando pouco útil o seu gesto generoso. Ler o resto aqui

2. A carta da LIT bem como a resposta de Farooq Tariq podem ser lidas aqui

O livre porte de armas

1. Há uns anos atrás debateu-se internamente a questão do livre porte de armas, a posição do BE foi e ainda é de oposição. O Ruptura/FER divergiu, posicionando-se favoravelmente ao porte de armas, posição que o PSTU (secção brasileira) já tinha defendido em matéria de referendo, juntamente com toda a direita brasileira.
"Vote Não! Pelo direito à autodefesa dos trabalhadores O desarmamento não vai resolver a violência. O objetivo dessa campanha é manter nas mãos do Estado o monopólio da violência e da repressão"

As Presidenciais

1. Na convenção de 2007 o Bloco de Esquerda foi acusado pela FER de não querer ganhar as eleições e de apenas lutar pelo fim da maioria absoluta a José Sócrates. Diziam que para isso bastava vontade da Direcção do BE, a solução passaria por uma coligação: Bloco de Esquerda + PCP + Manuel Alegre + CGTP.

2. Chegado o tempo das Presidências a FER mudou diversas vezes de posição, defendeu Manuel Alegre, Fernando Nobre e por fim o voto em branco ou o voto em Francisco Lopes (Spectrum, 5dias, Ruptura/FER). Fernando Rosas sintetizou bem toda a novela num artigo que pode ser encontrado aqui

Portugal em Estado Pré-Revolucionário (em 2008)

1. "A situação política vivida em Portugal hoje aproxima-se bastante da descrita pelo revolucionário russo Vladimir Lenine como aquela em que “os de baixo não querem e os de cima não conseguem” governar. Para estar à altura desta situação, a esquerda não pode se limitar a fazer o mesmo de sempre."

2. "...Em contraste com o refluxo Espanhol posterior à constituição do Governo Zapatero, Portugal tem vivido mobilizações massivas que representam o despertar da classe trabalhadora Portuguesa, passiva durante muito tempo..."
Excerto retirado de Una politica revolucionaria para Europa LIT-CI EUROPA, textos programáticos do penúltimo congresso da LIT.

Um bocado de história

1.Ao longo da sua história, a corrente FER teve múltiplas formas e designações. Fundada como Grupo Marxista Revolucionário, passou pelas siglas ASJ e PRT, entrou e saiu do PSR, fundiu-se e cindiu com o POUS, chamou-se LST e PST. Adoptou a designação FER no quadro de uma curta aliança com a Política Operária (organização fundada por Francisco Martins Rodrigues). Em 2000 entrou no Bloco de Esquerda, em 2011 saiu para criar um novo partido em Março de 2012.

2.Em 1991, nas últimas eleições a que a FER concorreu, as listas de Gil Garcia obtiveram cerca de 6 mil votos (0,1%).

10 de dezembro de 2011

Luto político





"Sob a influência da traição e da degenerescência das organizações do proletariado nascem ou se regeneram, na periferia da IV Internacional, grupos e posições sectárias de diferentes géneros. Possuem em comum a recusa de lutar por reivindicações parciais ou transitórias, isto é, pelos interesses e necessidades elementares das massas tais como são. Preparar-se para a revolução significa, para os sectários, convencerem-se a si mesmos das vantagens do socialismo. Propõem voltar as costas aos "velhos sindicatos", isto é, às dezenas de milhões de operários organizados, como se as massas pudessem viver fora das condições da luta de classes real! Permanecem indiferentes à luta que se desenvolve no seio das organizações reformistas, como se pudéssemos conquistar as massas sem intervir nesta luta! Recusam-se a distinguir, na prática, a democracia burguesa do fascismo, como se as massas pudessem deixar de sentir essa diferença a cada passo.


Os sectários só são capazes de distinguir duas cores: o branco e o preto. Para não se exporem à tentação, simplificam a realidade. Recusam-se a estabelecer uma diferença entre os campos em luta em Espanha pela razão de que os dois campos têm um carácter burguês. Pensam, pela mesma razão, que é necessário ficar neutro na guerra entre o Japão e a China. Negam a diferença de princípio entre a URSS e os países burgueses e recusam-se, tendo em vista a política reaccionária da burocracia soviética, a defender contra o imperialismo as formas de propriedade criadas pela Revolução de Outubro.


Incapazes de encontrar acesso às massas, estão sempre dispostos a acusá-las de serem incapazes de se elevar até as ideias revolucionárias.

Uma ponte, sob a forma de reivindicações transitórias, não é absolutamente necessária a esses profetas estéreis, pois não se dispõem a passar para o outro lado do rio. Não saem do lugar, contentando-se em repetir as mesmas abstracções vazias. Os acontecimentos políticos são para eles ocasião de tecer comentários, mas não de agir. Como sectários, os confusionistas e os fazedores de milagres de toda espécie recebem a cada momento chicotadas da realidade, vivem em estado de continua irritação, queixando-se sem cessar, do "regime" e dos "métodos" e entregando-se a intrigazinhas. Nos seus próprios meios exercem um regime de despotismo. A prostração política do sectarismo apenas completa, como a sua sombra, a prostração do oportunismo, sem abrir perspectivas revolucionárias. Na política prática, os sectários unem-se a todo o instante aos oportunistas para lutar contra o marxismo.


A maioria dos grupos e grupelhos sectários desse gênero, que se alimentam das migalhas caídas da mesa da IV Internacional, levam uma existência organizativa "independente", com grandes pretensões, mas sem a menor hipótese de sucesso, Os bolcheviques-leninistas podem, sem perder seu tempo, abandonar tranquilamente estes grupos à sua própria sorte.


Entretanto, as tendências sectárias encontram-se também nas nossas próprias fileiras e exercem uma funesta influência sobre o trabalho de certa secções. É uma coisa que é impossível suportar mais um só dia. Uma política justa quanto aos sindicatos é uma questão fundamental para pertencer à IV Internacional. Aquele que não procura nem encontra o caminho do movimento de massas não é um combatente, mas um peso morto para o Partido. Um programa não é criado para uma redacção, uma sala de leitura ou um clube de discussão, mas para a acção revolucionária de milhões de homens. "


in: Programa de Transição, 1938


Até amanhã, camaradas!

adeus, viscondessa da luz. adeus, rosa montufar. adeus, mais algumas pessoas. oh!, vão, vão; deixem-me, adeus!


leiamos o joão baptista, sem o profanarmos, desta vez com ironia:

"Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
De mais, e de mais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
Donde me vem sangue às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra - e não cabe
Nele uma ideia dos Céus ...
Oh!, vai, vai; deixa-me, adeus!"

in Adeus! Adeus!, Almeida Garrett

8 de dezembro de 2011

Amor Científico

I

Quis rasgar os poemas

E as filosofias

Éticas e estéticas

E as sabedorias

Senti no frio da matéria

O ardor da distância

Descobri nas palavras ao vento

A cúmplice da frustração,

o par da ânsia

E gritei, por fim,

com toda a violência:

II

Não quero mais cantar este sentimento

Não quero mais contar os dias de desalento

Fim à matemática tétrica e funesta

Fim à métrica castradora das canções

Quero é uma ciência dura transformadora da matéria

Quero é uma ciência de fazer revoluções

III

E a revolta materialista esculpiu com dor

e tempo

Os caminhos sonhados das palavras ao vento

Bruno Góis

Nota: Amor Científico foi escritos a 2 de abril de 2009. Junto com Irrealismo necessário do Amor (Científico), escrito a 3 de agosto de 2009, está publicado aqui.

6 de dezembro de 2011

PORTO - CICLO DE CINEMA "MUNDOS DO TRABALHO"



Neste mês de Dezembro, a Cooperativa Culturas do Trabalho e Socialismo - CULTRA, em parceria com a Confederação-núcleo para a investigação teatral, promove um ciclo de cinema sobre os Mundos do Trabalho.

Num tempo marcado pela precarização do trabalho, pelo galopar do desemprego, pela crise e pelo empobrecimento, este ciclo apresenta quatro filmes que serão o pretexto para quatro conversas.

A história do extraordinário movimento grevista do coração industrial do Brasil no final dos anos setenta, que acelerou o fim da ditadura militar e fortaleceu o movimento sindical é o pano de fundo de ABC da GREVE; em Tutta la vita davanti temos o retrato cómico da vida de uma precária do século XXI num call-center; com As vinhas da ira lembramos as consequências humanas da grande depressão nos EUA na década de trinta através da experiência de uma família; em Its a free world deparamo-nos com a história de uma trabalhadora que se transforma numa angariadora de trabalhadores ilegais; eis alguns dos temas dos filmes que aqui se apresentam.

Em cada quinta-feira de Dezembro, no Auditório do Grupo Musical de Miragaia, há sessão de cinema, com o custo simbólico de 1 euro de apoio. Iniciadas com uma conferência do sociólogo e estudioso das relações entre cinema e trabalho Giovanni Alves (docente da Universidade Estadual Paulista e coordenador do projecto Tela Crítica) as conversas a seguir aos filmes contam com a participação de Adriano Campos (sociólogo e activista precário), Dora Fonseca (psicóloga e investigadora), Ricardo Salabert (trabalhador de call centre e membro do FERVE), Amarante Abramovici e Tiago Afonso (cineastas), José Soeiro (sociólogo e investigador) e Andrea Peniche (activista feminista e editora).

8 Dezembro 2011, 5ª feira
21h00 _ ABC da Greve – 1979/90, 75' Leon Hirszman

15 Dezembro 2011, 5ª feira
21h00 _ Tutta la vita davanti – 2008, 117' Paolo Virzi

22 Dezembro 2011, 5ª feira
21h00 _ As Vinhas da Ira – 1940, 129' John Ford

29 Dezembro 2011, 5ª feira
21h00 _ Neste Mundo Livre – 2007, 96' Kean Loach

5 de dezembro de 2011

"O Analfabeto Político" - Bertolt Brecht

Carlos Moedas: a saga continua!



A educação, o país, o futuro

Nos seus 35 anos de democracia Portugal venceu o desafio da democratização do acesso à educação e aproximou-se dos níveis de qualificação europeus. Ainda que muitas das promessas da escola pública tenham sido apenas parcialmente cumpridas e que o acréscimo das qualificações não tenha sempre vindo acompanhado de maior justiça social e de crescimento, a verdade é que a educação está no centro do aprofundamento da democracia e da possibilidade do desenvolvimento.


As perspectivas com que se confronta hoje o campo educativo são, contudo, desoladoras. A situação das finanças públicas reclama um conhecimento e avaliação exigentes de todos os compromissos públicos, identificando despesa desnecessária, supérflua e geradora de injustiças sociais e distinguindo-a da que é indispensável, que colmata problemas sociais graves e qualifica o país. Por isso mesmo, a fragilização da educação não pode ser o objectivo de uma política que enfrente as dificuldades e o défice económico e social do país. A escola pública de qualidade e a promoção da investigação científica são uma parte fundamental da solução e não uma parte do problema.


O corte de 864 milhões de euros em 2012 na educação e ciência atira Portugal para a retaguarda da União Europeia em matéria de investimento no ensino. Em 2010 as despesas do Estado com a educação representavam 5% do PIB; passarão agora a apenas 3,8%. Na UE, a média é de 5,5% e na Eslováquia, que estava no final do tabela, rondava os 4%.


Esta escolha terá um efeito devastador nas escolas, e, portanto, sobre as crianças e os jovens que construirão o futuro do país. Se esta política for avante, as escolas e as universidades perderão milhares de professores necessários, muitos recursos fundamentais e assistiremos inevitavelmente à degradação das condições de aprendizagem com o aumento do número de alunos por turma e o término de algumas experiências fundamentais de combate ao insucesso escolar. A situação das finanças públicas não pode, portanto, servir de argumento para deteriorar a vida nas escolas, precarizar as relações de trabalho e hipotecar o futuro da educação.


Os défices da escola pública não se resolvem, tampouco, com a dualização do sistema educativo nem com a estratificação das vias escolares, abandonando o mandato democrático que estabelece que a escola deve garantir a igualdade, em lugar de promover a desigualdade como programa de política educativa.


O discurso segundo o qual estamos perante um abaixamento generalizado das competências e que isso exige como resposta que a escola volte “aos conhecimentos básicos” não se fundamenta em nenhum diagnóstico comprovado nem na apresentação de qualquer dado objectivo. Sem base na realidade, o seu efeito é, pelo contrário, expurgar tudo o que na educação escolar possa ter uma relação com a vida quotidiana, com o mundo da vida dos jovens, com as capacidades, competências e conhecimentos ligados à cidadania, à promoção do pensamento crítico, da participação ou da curiosidade científica.


No Ensino Superior há uma séria limitação da actividade das instituições, rompendo-se metas estabelecidas e compromissos assumidos e agravando-se as condições de desigualdade no acesso e na frequência, seja através da pressão para o encarecimento da formação como forma de recolher receitas próprias, seja na diminuição das verbas disponíveis para a acção social escolar, seja na incapacidade de entender as qualificações produzidas como o principal recurso para um outro modelo económico. A limitação do investimento na investigação anuncia a prazo o fim das redes de produção de conhecimento científico que constituem um dos mais preciosos recursos que o país criou nas últimas décadas. Desperdiçar esse investimento e qualificação é eliminar uma das melhores possibilidades de reconstrução promissora do futuro do país.


O nosso país confronta-se hoje com um cenário em que se propõe à escola pública e ao ensino superior que recue décadas, quer na definição do seu papel, quer nas suas formas de organização, quer nas modalidades pedagógicas a que recorre. Pelo contrário, precisamos, em particular em contexto de crise, de um sistema educativo que seja mais democrático, mais respeitador da diversidade e mais promotor da igualdade.


A afirmação do conhecimento, da cultura e da cidadania obriga-nos, enquanto agentes da educação e da ciência, a utilizar todas as nossas energias contra o esvaziamento do papel do Estado na educação, o desmantelamento de políticas de combate às desigualdades escolares e contra uma reeestruturação curricular cujo sentido seja a recuperação de uma escola conservadora contra a complexidade e a abertura que a sociedade de hoje exige.



Ana Benavente (investigadora ex-Secret. Estado Educação,); Ana Cláudia Pimenta (Ass. Acad. Univ. Évora); Ana Costa (investig. ISCTE-IUL); Ana Drago (deputada Com. Educação da AR);Adriana Bebiano (investig., prof. FLUC); Almerindo Janela Afonso (investig., prof. U. Minho);António Avelãs (presidente SPGL); André Moreira (Presid. AE Esc. Secund. Paredes); António Teodoro (investig., prof. Univ. Lusófona); Arsélio Martins (Prémio Nacional de Professor 2007);Carlos Fortuna (investig., prof.FEUC); Conceição Nogueira (prof. Univ. Minho); Eduardo Melo(presid. Ass. Acad. de Coimbra); Eliana Tavares (AE ICBAS); Fátima Antunes (investig., prof. U. Minho); Fernando Rosas (investig., prof. FCSH - UNL); João Luís Queirós (trab-est, ESE, ABIC);João Mineiro (AE do ISCTE-IUL); João Teixeira Lopes (sociólogo); Jorge Martins (investigador; ex-director regional educação Norte); Jorge Sequeiros (prof ICBAS; investig. IBMC); José Alberto Correia (prof., Director FPCEUP); José Moreira (Vice-presidente do SneSup); José Soeiro(sociólogo, bolseiro investigação); Licínio Lima (investig., prof. U. Minho); Luiza Cortesão(Directora Inst. Paulo Freire); Manuel Carlos Silva (prof U. Minho, presidente APS); Manuel Grilo(prof., dirigente SPGL); Manuel Jacinto Sarmento (investig., prof. U. Minho); Manuela Mendonça (Presidente SPN); Marco Loureiro (presid. Ass. Acad. Guarda); Maria José Araújo(animadora); Maria José Viseu (Presid. Conf. Nacional Independente Pais e Encarregados de Educ);Maria José Vitorino (prof., bibliotecária); Maria do Rosário Gama (Ex-directora Esc. Sec. Infanta D. Maria); Mário Nogueira (Secretário-geral FENPROF); Marlene Espírito Santo(presidente AE da ES Enfermagem Lisboa); Miguel Reis (prof., Movimento Prof. Contratados); Nuno Serra (doutorando FEUC)); Paulo Guinote (prof. , blog educação do meu umbigo); Paulo Peixoto(investig., ex-presid. SNESup); Pedro Oliveira (prof ICBAS, dirigente SPN); Ricardo Silva (APEDE, Ass. Prof e Educadores em Defesa do Ensino); Rodrigo Pereira (AE ES Teatro e Cinema IPL); Rosa Madeira (investig., prof. Univ. Aveiro); Rui Bebiano (investig., prof.FLUC); Rui Borges(investigador FCUL); Rui d’Espiney (Instituto Comunidades Educativas); Rui Trindade (investig., prof. FPCEUP); Samuel Niza (investigador Inst. Sup. Técnico); Sérgio Niza (Movimento Escola Moderna)